16 de abr de 2010

Morte

Quando vemos uma pessoa morta, desfalecida, com a vida esvaída e em direção a distâncias longínquas do que conhecemos, nossos olhos se focam no cadáver, no corpo orgânico, na carne que apodrece a cada minuto.
Tudo que se foi, um dia esteve. E se esteve, há um motivo de ter estado. E ao caso de partir, houve uma razão disso.
A palavra morte amedronta o coração dos homens de uma maneira intensa e o tira da razão, como a alvorada silenciosa de um dia gelado. O vivo tende a morrer, de um jeito ou de outro... ou de vários. Cada indivíduo, sem exceção, escurece seus pensamentos mais íntimos quando reflete sobre o momento de sua morte.
A vida humana é um objeto muito, muitíssimo, extremamente frágil. É possível extraviá-la através da ação de outro, de si mesmo ou de forças naturais incontroláveis. Um homem mata outro homem pois este o ameaça de alguma forma. Um homem mata a si mesmo pois excede seus limites. A vida mata um homem pois lhe é natural e conveniente.
E como é fácil sumir da existência material. De maneira brutal ou banal, incontrolável ou acidental, milhares e milhares de pessoas perecem todos os dias, a cada segundo.
O maior dos mistérios que a sociedade procura desvendar é o que há após a morte. Como se faltam provas, o mais coerente seria a não crença nesse mito. Mas, algo dentro de cada ser lhe diz ao contrário. Uma força interior alimenta esperanças de que após a convivência física, há mais do que pó. Talvez porque o homem não aceite que vive dentro de um prazo de validade, e assim seu inconsciente cria algo mais para ele se segurar. Porém, nem os céticos crêem nessa teoria racional. As rupturas ocultas do ser humano se abrem revelando tudo o que acreditamos, que vem desde nosso conceber.
Isso fortalece a certeza de que a morte não é o fim de tudo. É incompatível com as leis imutáveis algo que teve sentimentos, emoções, alegrias, tristezas, uma família, amigos, pessoas pelas quais sentia amor ou ódio, certezas, talentos, desastres, vontades, sonhos... é inverossímil que uma criatura com tantas concepções espirituais se transforme em cinza e pó, sem mais nada a fazer.
Nós, que permanecemos aqui, sentindo nosso coração bater e nosso corpo acatando nossos desejos materiais, ficamos naquela dúvida cruel e desumana: será que veremos nossos mortos queridos algum dia? Pois é, eles se foram antes de você, e isso é uma artimanha do decorrer. Com certeza há algo preparado no desconhecido para você, para mim, para todos nós que cá estamos, sentindo as coisas de forma diferente.
A cada fase da vida, novas emoções, sentimentos diferentes, diferentes pessoas que fazem parte dela. Chega uma ocasião que tudo isso basta. É hora de dar sua vez à nova geração...
A maioria dos gênios que nasceram entre nós sentiu a lâmina da foice do ceifador em suas gargantas mais cedo do que mereciam. Talvez a humanidade não esteja preparada para tais presenças ilustres, e a natureza age por si só, nos privando de ideais que fariam do mundo um lugar melhor. É a regra da evolução: eles alcançaram um estágio avançado primeiro, então vão embora; os ignorantes permanecem. Pense em seus ídolos, caro leitor: com toda certeza estão mortos agora.
Morrer jovem é a obsessão de uns e a tragédia de outros. Mas, não julgues. Quem nunca sentiu vontade de abolir da própria vida? Estes desejosos por se manterem sempre belos apenas o concretizaram.
Um velório. Um querido jaz no caixão. O quê passa de relance na cabeça de quem amou? “Nos veremos em breve”. Sim, em diversas ocasiões tratamos a vida como algo que se pode desfazer.
A dor de quem vai é momentânea. De quem fica é vitalícia.
Não podemos julgar quem merece viver e quem merece morrer. Isso não cabe a nós. A única certeza é que muitos não mereciam o fim que tiveram.
Há quem queira falar com os mortos, ou trazê-los de volta. Desista. O que está descasando, deve ser deixado descansar. Caso contrário, haverá uma reação letal.
Nos sintamos vencedores por estarmos aqui ainda, já que a qualquer momento e de qualquer forma podemos nos tornar finado. Quem se foi, foi porque teve que nos deixar. E sim, nos encontraremos novamente, em algum lugar, nas estalagens longínquas do universo e da alma.
Muitos procuraram a fórmula para a vida eterna. Alguns realmente a encontraram, mas não da forma literal.
Faça valer sua vida. Marque sua história. Brilhe. Ame. Assim, seu nome será cravado no coração dos homens através dos séculos.
Morrerei. Logo, viverei.

Alberto.




Riposa in pace, amen.

4 de abr de 2010

Tempo

Todas as coisas estão fora do lugar, e nada nunca pára, as mudanças ocorrem a cada segundo e destroem a freqüência e a estabilidade das coisas.
Todos os minutos passam por nós cheios de passado, levando embora tudo que lutamos para conquistar.
E cada vez mais as horas correm a uma velocidade arrasadora, acelerando o contraste por nós vivenciado.
A cada momento uma parte fica esquecida como um baú trancado a sete chaves, e a cada momento seguinte encontramos algo novo e nunca visto.
Ser incontrolável, sem domínio e ingrato que é o tempo, o passar e o vir, acontecimentos sem razões por trás. Não há nexo algum nessa ciência desconhecida.
Somos escravos dos relógios, do passado e do futuro, e principalmente da incerteza do presente.
Quanto mais rápido, mais provável o sucesso, e nossa vida nos é tomada e trazida todos os dias.
Tudo que fazemos, fazemos com o tempo que nos é dado. Mas como nos dar o tempo, se ele é que se dá?
E cada vez mais rápido tudo vai embora. A única certeza que o senhor dos momentos nos dá é a dúvida do que se seguirá.
Quando olhamos para as estrelas, não as vemos como realmente são, e sim como eram a milhares e milhões de anos-luz, lá atrás, no passado do tempo que vivemos hoje.
E todo o universo é conduzido por essa máquina. Nas galáxias distantes, no fundo do mar, por mais que seja diferente a percepção, ele age em todos os seres e todas as coisas.
Em nossa despojada consciência humana, não fazemos idéia da pressão exercida pelo tempo em tudo que somos e fazemos.
Então vamos cantar para nosso mestre e senhor, que domina a tudo e a todos, e define o destino de cada um dos seres.
Não, não. Não há nada de majestoso nisso. É uma lei que nos é imposta: vivemos, mas vivemos com a certeza de que tudo vem e tudo passa.
Não nascemos livres, pois não há tempo para fazermos essa escolha, ele faz por nós.
Já que é algo que vai contra nossa natureza de bens, façamos o melhor com o tempo que nos é dado.
Viver cada momento com a incerteza do que virá pela frente, e sabendo que tudo será guardado para toda a eternidade. Agir como tudo fosse especial e mágico. Essa sim é a razão de existir algo que age por si só.

Alberto.