23 de mai de 2010

O Andarilho

Os dias se põem, o sol se esconde
E ele está a caminhar
A noite chega, desconhece donde
E ele não deixa de cantar

Profere as canções das suas origens
Total espectro de vertigens
E ele está a caminhar
E ele não deixa de cantar

Versando alto, contando histórias
E ele está a caminhar
E ele não deixa de cantar
As lembranças de suas memórias

E ele está a caminhar
Por terras distantes
E ele não deixa de cantar
Sobre os campos verdejantes

Sua magia é a exatidão
E ele não deixa de cantar
Vê as pessoas com afeição
E ele está a caminhar

Na mão, uma garrafa de vinho
Em sua bota, nenhum espinho
E ele não deixa de cantar
E ele está a caminhar

Seu vício é a estrada
E ele não deixa de cantar
E ele está a caminhar
Sua rota indefinida

E ele não deixa de cantar
Envelhecido na agonia
E ele está a caminhar
Levando embora sua magia.

Alberto.


21 de mai de 2010

O que mais virá?


Quero ver o mar e escutar as ondas
Quero sentir a brisa espatifar meus cabelos
Quero ver o sol se por no horizonte, atrás das montanhas
Quero botar o pé na estrada e conhecer o mundo
Quero conhecer pessoas e me divertir com elas
Quero entrar em todos os bares e tomar todas as cervejas
Quero beber vinho até meu fígado estourar
Quero fazer sexos intensos com mulheres interessantes
Quero ter todo o conhecimento humano na minha mente
Quero curtir meus amigos até o último segundo
Quero estar onde há pessoas como eu.

Alberto.

13 de mai de 2010

Pessoas são estranhas

As pessoas são impressionistas, e muitas vezes escondem em si mesmas almas nunca imaginadas por quem vê o expresso.
Temos todos os pecados dentro de nós, pulsando cada vez mais para virem à tona. O interior do homem é sórdido. Nossos pensamentos atingem graus de podridão inimagináveis, e nossos desejos cada vez mais fétidos, indo em direção contrária à tudo que se acredita ser correto.
Graça-mor do Dio in natura que somos julgados apenas pelo que expomos através do discurso, escrito ou falado, e das ações, físicas ou psicológicas, para com a sociedade como um meio de análise crítica.
A estranheza é extrema quando as pessoas demonstram que não se sabem usufruir o que tem, desvalorizando o amigo presente e não sabendo cultivar o que há de bom em volta de si, enclausurando-se num oásis envolto ao deserto. É de costume humano achar o feio e arrogante bonito e sedutor.
Mais uma excentricidade encontrada nas pessoas é o fato de não saberem amar: desprezam outras que demonstram certo carinho, fazendo uso de maus tratos morais e despedaçando os sentimentos de quem ainda tinha um pouco de amor para compartilhar. E sim, ninguém sabe amar, homens e mulheres não são feitos para o amor. Quem ama não erra, e o ser humano se torna censurável para atingir seus objetivos egoístas.
Ainda há um enorme grupo de pessoas que acredita em um deus sem saber o porque disso. Não sabem a razão de rezarem, porém rezam. E oferecem, e se sacrificam, e adoram, comovidos por algo que não lhes é de alcance. A verdade de tudo isso é que o homem busca suas respostas em situações criadas por ele mesmo, não aceitando sua posição para o mundo. É uma ação completamente compreensível, mas inventar não é a melhor rota para se chegar na caverna espelhada das revelações. Foi criada uma divindade totalmente semelhante ao homem, contendo todas as suas virtudes em um só. Foi elaborado um deus que cria, ampara, aconselha e abraça sua concepção. E as pombinhas, não há um lugar para elas no céu estrelado do paraíso?
Ainda mais estranhas são as pessoas que sofrem e causam agonia nas outras em nome de uma terra ou uma religião. A proposta de Deus é simples: convívio em harmonia. Então por quê civilizações entram em combate? Mais uma vez a dura resposta: o amor se perdeu...
Tudo que é proibido pela lei dos homens é fruto de desejo. As pessoas desejam, desejam, desejam demais, e das profundezas das trevas de cada um há algo muito obscuro, que é puxado para fora nessa intensa ambição pelo que não é algo a se fazer. Nisso se distinguem as pessoas de valor, que não cedem por seus desejos, e as fracas, que vendem tudo e caem na tentação maltrapilha de todas as carnes.
Todos temos uma parte incompleta, sentimos que falta algo. Muitas vezes, essa carência é preenchida de maneiras não muito éticas. Porém, deve-se respeitar a escolha entre utilizar-se ou não dessas maneiras, e também compreender a razão dessa decisão, consentida de algum modo. É uma autodestruição, e um modo de escapar da dura realidade onde ninguém é feliz e tudo está errado, por meio de música, de projeções causadas por tais maneiras antiéticas, depressão e morte.
Não existe o bom e o ruim, mas sim diversas formas de se interpretar os episódios do romance. E cada episódio tem um herói e um vilão, e os papéis podem se inverter no próximo capítulo. É a vida, que vai e volta, e vai e se perde na imensidão da humanidade.
São das pessoas diferentes que o mundo necessita. A normalidade e a felicidade são bobas e previsíveis. Algo novo é sempre bem vindo num caso de extrema crise ideológica. Todos são estranhos. A estranheza que ajude o maior número de pessoas a despertarem o amor é aqui muito bem vinda.
Alberto.

"Pessoas são estranhas quando você é um estranho
Rostos olham feio quando você está sozinho
Mulheres parecem cruéis quando você é indesejado
Ruas são irregulares quando você está pra baixo"
- Jim Morrison

2 de mai de 2010

Quem?

Algum tempo atrás, pelas ruas de Londres, havia uma garota. Ela tinha olhos bem fundos, como que se fosse penetrar na mente daquele menino. Agasalhado, ele estava encostado do outro lado da rua, segurando uma xícara de café, e olhando fixamente cada gesto dela.
O sinal fechou e a garota foi atravessando, atravessando, e a cada passo a imaginação do garoto ia mais alto. Ele pensava em como descobrir o nome daquela menina do olhar profundo, cabelo grudado na testa e visual moderno e inédito.
Mas, enquanto ele elevava seus desejos, a garota, a passos rápidos, passou por ele.
O garoto então viu sua imaginação ruir como uma parede num terremoto. Tudo que idealizava naquele momento se esvaiu.
Culpando-se por seu medo, sentou na calçada, colocou a cabeça entre os joelhos e, mais uma vez, viajou em seus pensamentos. Aquela garota, que ele vira uma única vez, despertou-lhe todo um sentimento novo. Foi embora, e não dormiu muito bem.
No outro dia, na mesma hora, no mesmo lugar, o garoto estava tomando café, e a menina dos olhos fundos de beleza apareceu novamente. Ela vinha passando por ele, numa situação indiferente e costumeira, quando desviou sua atenção para os olhos do menino, que a observava. Ela então parou, e o garoto se ergueu para ela, revelando seu lado mais imponente, e deixando para trás aquele menino tímido que colocara a cabeça entre os joelhos e chorara escondido.
_Quero saber seu nome.
_Faça por merecer.
“Quem não se ilude pela magia dos olhos?
Sim, olhos que vêem
Que mostram
Que definem.
E talvez seja pelos olhos
Que se descobre algo novo
Pela primeira vez.
Londres fria e iluminada
Chamando, chamando.
E seu cabelo acompanha as batidas do vento
E seu agasalho guarda em si
Alguém que se abraça por si só.
E enquanto a neve cai sobre nossas casas
Seus olhos estão intactos
Como num dia de verão.
Lareira logo de manhã
E boas histórias para contar
E olhares, olhares
Trocados, correspondidos, selados.
Eu amo você, e amo seus olhos.”
Depois de dito isso, o garoto se encolheu e voltou a ser o menino tímido e diferente de antes. Então, a garota disse:
_Nunca ouvi algo tão lindo de alguém tão lindo.
E então, ela lhe disse seu nome.

Alberto.