15 de jun de 2010

A Nova Primavera dos Povos


Que vida é aquela que não se é admirável?
Que lamento é aquele que não se exprime?
Vida transtornada de medo afagável
Lamentos de um acento sublime.

Ages como agires, esplêndido suntuoso
Sofrerás com o mar tortuoso
De tua rica fonte de mel
Olhos frouxos exibem teu cartel.

Quem diz que o rico é rei?
Dia foi que ele foi despojado
E num esboço aprofundado
Tomou o mundo, mudou a lei.

Faz séculos que mandam os abastados
Absolutos ou liberados
Fazem com que seus dominados
Padeçam enclausurados.

Lembram-se da Primavera dos Povos?
Vejam-na aqui, agora escrita
De forma límpida e clara
Aos olhares e borrões.

E os pássaros que voam alto
Cantam a desventura da humanidade
No alto céu, indiferentes, nos olham
Pois eles sim têm a liberdade.

Liberdade a teus filhos amados
Dá-se a meio de sangue e dor
Ou senão por um clamor
Impulsiona a marcha dos endividados.

Procure em Deus o igualitário
E em sua mente o libertário
Fim do poder e da dominação
Dos donos da alienação.

Se não sabem a razão disso
Eu lhes digo que é o amor
Amor pela vida e tudo isso
Que merece algum fulgor.

Eu não sou meu eu lírico
Eu sou o eu lírico daqueles
Que vêem na revolução
A saída do manicômio.

Alberto.

5 de jun de 2010

A Coberta


Escrevo este relato por debaixo de uma coberta, iluminado pelo anêmico fulgor da lamparina.
Ouço o som da chuva lá fora, e os cantos incógnitos e obscuros da noite.
Me amedronto a cada gotejar que não vejo.
Meus pés estão desprotegidos, sentindo o frio dessa triste madrugada.
Sinto-me incapaz de combater algo tão poderoso, com tantas perspicácias. Não há limite para o medo.
Saio de baixo da manta. A chuva aumenta e sou atingido por ela.
Estou vendo espectros caminhantes, em ala na abóbada celeste.
Um deles acaba de descer. Passa ao meu lado, entra no porão, quebra algumas garrafas, me olha fixamente. Eu encaro-o sem temer. Ele tira sua capa, e revela-se um ser quase humano, porém pálido ao extremo, e sem uma alma no fundo do olhar. Flutua novamente ao encontro da fila fantasmagórica.
Olho para o céu, donde caem a chuva e o medo. Está ficando cada vez mais frio.
Jogo a coberta fora. Só levo comigo lápis, papel e luminosidade.
A aparição perdida, maldita infernal, volta e se aproxima. Começa a proferir.
“Quem dirás ao céu um terrível?
Mortal nenhum enfrenta-o
Vou e volto dos dias e dos tempos
Levo comigo o gotejar frio.
Tu me fitas, adventício
Vires a página, não parais
Que só Deus, a iluminação
Olha pra trás e salva-te.
Apontou a Grande Debandada
Do Inferno vamos às Terras Frias
Não somos abrasados, somos viajantes
Errantes seres que não devem ser fitados.
Sua história acabou
Sua aflição será minha glória
Sua lamparina vai apagar
Sua memória vai apagar.”
Eu não deveria ter olhado. Enquanto a coberta me envolvia, nada estava lá. Execrável coragem que leva o homem à loucura.
Estão todos na minha frente, prontos a me arrastar. Atiro esse relato ao vento fúnebre...

Alberto.