15 de jul de 2010

Jogral em Prosa

Um saltimbanco em meio à Rua Direita numa tarde chuvosa de segunda-feira. Passo rápido, com a afobação de todo cidadão com um objetivo fixo, sem vista para os lados nem para as pessoas suplantadas naquela grande azáfama interminável. Chovia de modo estranho, apenas de um lado da rua.
Andava eu pelo caminho seco segurando um casaco, quando avisto o artista, com suas mímicas e assovios, à procura de atenção, reconhecimento e algum dinheiro. Passo por ele sem dar-lhe muita atenção, então ele puxa meu casaco e sai correndo. Saí em disparada atrás do palhaço, que corria rindo e assoviando. Aproximo-me dele e pego minha blusa.
Continuava rindo e assoviando o truão, de costas. Dei alguns passos, e virei uma última vez. O ator olhava-me fixamente, e seus olhos me mostraram tudo o que se passava naquela alma deixada de lado pelo mundo.
Uma pessoa com a mentalidade de que é despreparada para outra coisa a não ser fazer as outras rirem. Estigmatizado na beirada da vida, provavelmente vindo do interior, com o sonho da capital aflorado em seus pensamentos. Conhecendo a realidade fria, sentiu-se incapaz de concretizar o desejo pulcro de ser reconhecido, e tornou-se mais um bobo, com o propósito de fazer rir o siso e o desamor das luzes e edifícios, carros e caras, movimentando-se constantemente e incessantemente. Era um monólogo da Commedia dell'Arte nos dias modernos.
Aquele bufo possivelmente tem uma família, que depende do dinheiro, doado e esmolado das pessoas que passam por aquela rua, para sobreviverem e terem uma vida digna.
O saltimbanco em meio à Rua Direita numa tarde chuvosa de segunda-feira. Segunda-feira e todos os outros dias da semana, chuvosos ou não, está lá nosso ator, a divertir as pessoas que passam, comedidas e rápidas, e poucas delas esboçam um sorriso e cedem o auxílio necessário e merecido ao verdadeiro artista dos dias atuais, que faz da arte seu único e apaixonante modo de existência.

Alberto.