27 de dez de 2011

desacato à autoridade

(certo dia, em algum lugar de São Paulo)
-Ei, rapaz, parado!
-O que foi, senhor?
-E esse adesivo aí na sua bolsa?
-”PMilícia”?
-É, esse mesmo. Deixa eu ver essa porra aí. Tá com droga, né?
-Não estou, senhor. A não ser que o senhor coloque.
-Quer dizer então que o estudantezinho de merda está me desacatando?
-Não quis desacatar ninguém.
-Vai falar isso pro delegado!
-Vai me algemar?
-Algemar e te dar um coro, pra aprender a respeitar a autoridade. Só por que tem um livro embaixo do braço, pensa que pode sair por aí falando qualquer coisa. Agora vai ver do que eu sou capaz, rapaizinho!
-Meu pai não gostaria nada de saber disso.
-Quem é seu pai pra gostar de alguma coisa?
-André Zimmerman. Escritório de Advocacia Zimmerman, na Paulista.
-Me desculpe, acho que tivemos um mal entendido.
-Escute agora, seu policial. Autoridade não se faz com violência. Isso é repressão. Isso é restringir a liberdade do indivíduo. Isso é não garantir a segurança do cidadão.
-Com novecentos reais por mês, nem a escola dos meus filhos eu posso garantir.
-É muito mais eficaz fazer uma greve solicitando aumento salarial do que perseguir quem tem opiniões divergentes das do governo.
-Nem venha com isso, não posso perder meu emprego. Você é rico, não sabe de nada.
-Sei que o senhor quis me bater sem motivo.
-Por favor, não diga isso a ninguém. Agora vá!
(o garoto remexe um compartimento da bolsa, acende um fumo e fica sentado na sarjeta)
-Por favor, vai embora daqui, eu vou perder meu emprego!
-Vá fazer ronda em outro lugar. Tá cheio de universitário por aí querendo ser preso.
-Vai em outro lugar que seja mais escondido, pelo menos.
-Espera eu acabar o baseado.
(após alguns minutos de angústia por parte do policial)
-Pronto.
(o garoto acena para o ônibus parar, e sobe)
-Adeus, Policial. Era cigarro de palha. E ah, meu pai é padeiro.

Alberto. 















*foto: greve contra a PM na USP. desconheço o dono dos direitos autorais, mas pela liberdade artística na fotografia, presumo que seja de seu agrado que acompanhe textos assim.

20 de dez de 2011

A cada pessoa que conhecemos e gostamos, superamos um preconceito. E ainda há quem pergunte para quê ser gentil.
Alberto.

discurso sobre o método racional dos loucos

Como se manter lúcido num mundo tão insano?
Estudantes sem moral aprendem nossas leis para usar em seu favor. A isso chamam de justiça.
O dinheiro faz de nós homens, e não o caráter ou a inteligência. Escraviza e mata aos milhões. A isso chamam de ser humano.
Numa sociedade assim, é difícil manter a razão. Psicanálise, Psicologia Analítica, Sociologia, tudo tenta explicar. Mas que meio assombroso é esse que vivemos?
É uma escuridão tão grande, que me vejo iluminando a noite escura com a ponta de um cigarro e o brilho roxo de um vinho de má qualidade. Talvez eu morra cedo, já sem minha lucidez. É uma fuga que se acha fácil.
Acho que não posso. Não podemos. A razão não abandona ninguém para sempre, é. Nem o bêbado. Nem o louco. Nem o filósofo.
O mundo vive, sim, uma diáspora de Razão. E ela, noiva de preto, voltará para prantear as traições de sua embriaguez...
Talvez possa ser tarde demais.

Alberto.


contra o branco do Simbolismo

Enegreço meus versos quando escrevo.
O negro marca o papel.
O branco é nada.

Composição alva inútil
Entre símbolos herméticos
Nada diz não seja fútil
Esperança sem remédios.

Folha branca o negro atrai
Que completa com poesia
Diz-se contra o que trai
Usa a pena da maestria.

Enegreço meus versos quando escrevo.
Eles são minha anti-imagem para o mundo.
Meu tudo exposto no nada.
Pra todo mundo ver.

Alberto.


6 de dez de 2011

só uma cantiga feliz

Vamos cantar canções de amor
A vida não tem mais tempo pra dor!
Vamos dançar e nos divertir
Pois quem se gosta não pode partir!

O mais importante da vida é viver
Se quer ser feliz, tem que florescer!
No mundo lá fora um infinito de flores
A desabrochar, em todas as cores!

Festa animada como eu nunca vi
A vida só é boa pra quem sorri!
Nesse versinho, uma rima bacana
E um abraço pra quem se ama!

Esta é a cantiga de dois amantes
E nossas roupas não são elegantes!
Fazemos poesia com sutileza
Pra jogar longe a tristeza!

Alberto.

25 de nov de 2011

Rousseaus de Sarjeta

   O músico Farrokh Bulsara, em sua rapsódia boêmia, dizia: “Nada realmente importa / Qualquer um pode ver”. Naquele momento, ele não queria ser Freddie Mercury.
   Nas tantas revoluções realizadas pela humanidade, na maioria das vezes, conhecemos o nome de três ou quatro líderes. Não eram só esses. Talvez nem fossem os principais. A História escolhe personagens para sua alegoria. E pessoas escrevem a História. Essas pessoas não são imparciais diante dos fatos. Logo, não sabemos do fato em si, mas sim de uma interpretação dele.
   Depois de um exemplo e uma breve introdução inequívoca, vamos aos fatos. Há indivíduos que não são aceitos pelo meio intelectual. Simplesmente, não são. Os motivos podem ser a tendência para movimentos populares, carência de academicismo em seus discursos, retórica não tão abusiva ou, apenas, não ter o ‘perfil’ de intelectual. Esquecem que tudo que é acadêmico, um dia já foi vanguarda.
   Para ser um herói nos contos de fadas que se aprendem nas escolas, os teóricos devem atender ao perfil determinado de como deve ser um intelectual revolucionário. Vê-se nos livros os iluministas de perucas e roupas de época, os republicanos com óculos de cordão, os filósofos modernos de terno e gravata. Formalidade e tradição.
   Quem é o intelectual – ou um grupo deles – responsável pela tomada de Wall Street? Ainda não sabemos, mas a história dará um nome. Ele não será coletivo. Esse fato, de toda realização ser influenciada por alguém, não é tão fato assim. Na grande maioria das vezes, a privação das necessidades básicas causa mobilização e luta por mudanças drásticas no sistema social.
   É nesse contexto que entram os rousseus de sarjeta, que dão título ao artigo. Eles não buscam o reconhecimento pela comunidade intelectual, e nem pela posteridade. Eles não querem ser responsáveis sozinhos por qualquer realização. Porém, os rousseaus de sarjeta não ficam sentados na calçada, como sugere o nome. Esses FILÓSOFOS estão sempre ativos nas mobilizações sociais, dando sustentação teórica à ação política e ideológica, mas sem, nunca, querer tomar o controle da situação para sair com a fama na mídia.
   Os rousseaus de sarjeta são ainda mais preocupados com o povo do que o inspirador iluminista francês, que, no contexto histórico em que viveu, diferiu de seus companheiros pelo fato de realmente desejar alguma melhoria de condição à população miserável. A plebe acabou sendo apenas um instrumento para a ascensão da burguesia ao poder, na França e no mundo todo. Os rousseaus de sarjeta estavam – e estão – sempre ali, em meio ao tumulto, dizendo “vamos lá, camarada, todos aqui queremos um mundo melhor e mais justo”.
   São os filósofos mais completos. Os verdadeiros intelectuais. Indivíduos que estudam e agem.
   Debater existencialismo nos cafés caríssimos do Itaim não é uma constante para esses rousseaus. Filósofos de verdade suam a camisa na passeata contra a corrupção. Não vão publicar seus textos na Folha de São Paulo, mas, ainda assim, eles têm motivação para escrever. Pode ser que alguém leia.
   Eu, felizmente, conheço alguns rousseaus de sarjeta. Não vou nomeá-los aqui. Provavelmente, a História também não o fará. Não é necessário. Não é difícil identificá-los. O importante é escrever sobre eles, não como um nome digno de uma ode, mas como um conjunto de pessoas que querem um mundo melhor.
   Seja marginal, seja herói. Não é porque ninguém sabe, que alguém deixa de ser.

Alberto. 

*texto publicado na Revista Cultura (Anglo Itapira) edição n° 02

5 de out de 2011

rotina

acordar de samba-canção; lavar o rosto; escovar os dentes; pentear o cabelo; passar o café bem forte; fazer o pão com manteiga prensado; acender um cigarro; vestir camisa de rock, xadrez por cima, calça jeans e tênis baixo; descer o elevador; esperar o ônibus ouvindo mp3; ler sartre perto da janela; descer na universidade; almoçar comida barata; assistir atentamente a aula sobre existencialismo; ficar meia hora no corredor, depois da aula, discutindo; ir para um café/livraria perto da faculdade, continuar a discussão; pedir um cappuccino e uma stella artois;  andar até o ponto e parar para ver os artistas de rua; ouvir mp3 e pegar o ônibus de volta; subir o elevador; sentar na sacada; acender um cigarro e tomar uma cerveja da geladeira; ver as luzes da cidade; ler mais um pouco; não acreditar no que diz o jornal da noite; deitar de samba-canção; pensar nas discussões e no que vi durante o dia; ligar para minha mãe; dormir.

Alberto.

21 de set de 2011

Londres chama, Brasil não atende

   Londres acorda em chamas, após noites de uma fúria jovem. Em Santiago, cem mil pessoas nas ruas por uma educação digna. E nós aqui, escrevendo, lendo, ou nem isso.
   Parafraseando a pensadora Marilena Chaui, os filósofos e as crianças se assemelham no fato de ambos se maravilharem com o mundo. Estou realmente maravilhado com os acontecimentos.
   Não sou favorável a atos violentos, depredações ou conflitos com a polícia. Porém, a situação chegou num ponto radical, dos dois lados. O governo britânico cortou mais de cinquenta por cento do investimento em cultura, lazer e trabalho para os jovens, principalmente nos bairros mais carentes das grandes cidades. Além disso, muitos desses adolescentes perderam a oportunidade de cursar uma universidade, já que as tarifas para ensino superior triplicaram no ano passado. São crimes da mesma grandeza.
   Os revoltosos são jovens sem identidade, buscando mostrar o rosto. As chamas dos prédios estavam guardadas há tempos no coração da juventude inglesa. Isso lembra o movimento punk, no embalo de The Clash, com a canção “London Calling”, na qual a letra já previa uma insurreição da juventude nas periferias do Reino Unido.
   Foram mais de dois mil presos, lotando os tribunais para julgamento. As autoridades britânicas prometeram severas punições aos vândalos. Esperava-se o estereótipo de negros, latinos ou eslavos. O que se viu foram, sentados nos tribunais, universitários, professores, púberes. Cidadãos que fazem parte da elevada cultura inglesa, e não socialmente excluídos e marginais, como se esperava.
   Uma centena de milhares de professores e estudantes também nas ruas do Chile. A privatização da educação indignou a população de tal forma, como poucas vezes foi visto na história do país. As autoridades estão com medo.
   Agora o fato principal: esses governos neoliberais sentam em cadeiras executivas para discutir medidas prejudiciais a população e privilegiar o capital privado das grandes corporações? A resposta é sim. O pior de tudo é haver uma base filosófica que espalha o pessimismo, tentando acabar com a luta de classes e deixando o caminho livre para os negócios maldosos dos grandes empresários. No Brasil, o maior nome desse nietzchismo  capitalista é o denominado filósofo Luiz Felipe Pondé, tentando impregnar na população valores conservadores e que desestimulam a reforma política e social, disfarçado por um discurso moralista e que supostamente preza pelos bons costumes.
   O Brasil passa por todos esses problemas que afetam a Inglaterra e o Chile, além de muitos mais, prejudiciais ao povo e ao país. Eu ainda sou um otimista, pela filosofia como ação prática das mudanças. Todos devemos ficar maravilhados com os fatos, e tentar ajustá-los à situação pendente em nosso país. Não falo em conflagrar prédios, mas sim em romper com os conceitos correntes, e buscar por uma identidade verdadeira de nação autônoma.

Alberto.


*Texto publicado na Revista Cultura Anglo, edição n°1


12 de set de 2011

qual é o nome da história?

   O folhetim começa aqui, em seu final. Não se espante, caro leitor, a existência não é magistral. Há encontros e desencontros, e nem sempre as rimas se mantém.
   A história é da amada morta, do jovem que sofre pois perdera seu amor. A vida não é tão bela para todos, nem para os que acreditam nela. As coisas morrem, e é isso. Tudo passa, tudo é efêmero. Menos a angústia. Eu sou a prova ainda viva de minhas palavras.
   Não ache que a vida dos poetas é algo distante de sua obra, como foi Álvares de Azevedo. Sou da linhagem de Rimbaud sem Verlaine. Sou da linhagem dos poetas do absinto, do ópio, da morte.
   O Romantismo que me perdoe, mas prometo não exagerar nos fatos. Foi o que foi, e ainda não acabou. Minha vida passa enquanto escrevo essas linhas. Não encontro mais sossego em minha alma. Meus minutos cessam, e eu estou aqui. Não sei até quando. Não sei de muitas coisas. Não sei por quê.
   De todas as outras negações minhas, a mais importante agora é que não prometo uma ilustração a cada capítulo. Meus dons de desenho não são tão aguçados, e um amigo o fará em ocasiões especiais.
   Admiro o mestre Machado de Assis, sobretudo nos capítulos curtos e diálogos contigo, leitor. Mas não ache que interromperei minha narrativa para explicar o que não entenderás em primeira via. O subjetivo faz muito da obra.
   No mais, a história já pode começar. Prezo por escrevê-la o mais breve possível. Quanto mais me resta aos vinte e sete anos?

Alberto.

9 de set de 2011

estado de caos

Pague os seus impostos
Pague também os meus
Quebradores de ossos
Estudando nos liceus.

Você foi ensinado
Filho da alienação
Esse campo minado
Será uma revolução.

Pague os seus impostos
Pague os meus também
E quando te roubarem
Não diga nada a ninguém

Você foi auxiliado
A se negar a pensar
Então fique logo ao lado
Parado no mesmo lugar.

Pague os seus impostos
Pague os meus também
Esconda a verdade
Para um dia ser alguém.

Você foi sustentado
E agora é sua vez
De alimentar o Estado
Com a sua insensatez.

Comemore a ignorância
Agradeça a invalidez
Elogie a ganância
Cumprimente a estupidez.

Comemore a indiferença
Agradeça a hipocrisia
Elogie a intolerância
Cumprimente a ironia.

Alberto, Aurélio, Gabriel e Caio


15 de ago de 2011

manual de como envenenar a tinta de uma caneta

Como fazer parte do inteiro
Se não faz parte sequer do nada?
O silêncio é o soberano das respostas,
Da palavra na garganta estagnada.

Cheio de aforismos, o texto continua,
Flui como água na corrente exaltada.
Não pára, não recua,
O escrito é mais letífero que a espada.

Não falo do método dos parnasianos,
Estes, meros homens sem planos.
O manual é de como envenenar a tinta,
senhor,
A narração de como se requinta.

Nos versos frívolos vão-se os anos,
E com eles, o espólio dos enganos.
O novo sangue desfruta e pinta,
Rompe o vidro antes que o inimigo sinta.

O sangue novo, da linhagem de Rimbaud,
O mais espirituoso dos poetas.
Riso falso não vale a pena, disse Pierrot,
A poesia é o vinho das grandes festas.

Sem jograis, nem alentos delirantes,
Meros palhaços no mundo dissidentes.
A estirpe suja em movimentos dissonantes,
O veneno mais mortal é o das serpentes.


Alberto.


27 de jul de 2011

luzeiros

Diz pra não irmos ao mesmo lugar
Onde as luzes acendem o fogo novamente
Da maneira estivemos ao junto caminhar
Não sorria aos meus olhos assim diferente.

Nostálgico dia de ardor interminável
Quintessência encontrada na boulevard
Volte para o fim da noite memorável
Não exigi não mais te encontrar.

Alberto.

A Praça

Desapego em vão
Uma noite de luar
Ares de perdição
Não posso respirar
Sem uma direção.

Final da noite fria
Que tudo era tempo
Como nos que convencia
Que luxo é passatempo.

As mãos entrelaçadas
Numa calçada distante
Delineando alvoradas
Quebrando o diamante.

Eu sou pálido sentimento
Trilho um caminho sem vento
Meus pés estão na estrada
E comigo não levo nada.

Alberto.


3 de jul de 2011

Sempre lidei bem com as palavras,
Mas, desta vez, elas fogem do meu alcance.
Ando perdido em aforismos, impassível.
Acho que eu não sei falar de amor.
Não gosto de idealizar possíveis paixões,
E isso às vezes me machuca.

Alberto.

26 de jun de 2011

Não falo de vícios, pois eles me desorientam.
Não falo de amor, pois há muito ele me deixou.
Acho que eu não falo de nada.

Alberto.

14 de jun de 2011

O homem vai. A história fica.

   Onde o terror negro assombrava, nascia um menino. Destinado ou não, aquele garoto faria algo admirável, bem distante dali.
   Já nascido com uma marca, da qual nunca quisera se livrar, foi trazido para essas terras, a fim de construir um novo futuro, distante daquele que assolara seu antigo lar. Não imaginava que, longe de casa, firmaria combate contra outro inimigo, se não mais feroz, mais audaz.
   Amou seu novo país, seu novo povo, e tornou-se parte dele. Estudou, aprendeu, mudou de nome. Começou a construir seu legado.
   Casou-se. Efetivamente, fixara suas raízes. Tornou-se um influente intelectual, com ideias inovadoras e relatos decisivos dos acontecimentos.
   Porém, um novo medo chegou à sua nova nação. Lembrou-se da sombra que o havia feito fugir no passado, e o fez novamente. Entretanto, dessa vez, foi restabelecer suas forças e repudiar seu temor.  Estava disposto a transformar suas já podres raízes em asas, para poder voar e voltar. Agora, aquele menino que fugira duas vezes voltou ao seu país de coração. Educou os filhos para sempre manterem a coragem como lema.
   Contudo, a cultura, que tanto o apaixonou durante a vida, era mortificada pelo novo medo. Ele quis libertá-la. Conheceu outras pessoas corajosas, que também não temiam, e foi um líder entre elas.
   O medo também tem medo. Foi chocado para abdicar de seus ideais. Sem esclarecimentos. Sem êxito. O medo teve medo novamente. Assim, o homem foi calado.
   Disseram que havia tirado a própria vida. Mentira. Fora sufocado por mãos temerosas.
   O medo errou. Iria sentir a fúria de um legado já propagado. Eram 8 mil pessoas por trás de madeira e mármore, prontos para uma nova e mais conflitante armada.
   O medo errou. O medo perdeu.
   Essa é uma história real, de quem nunca desistiu de um sonho. O homem vai, a história fica.
 
Alberto.
















Memorial da Resistência - DEOPS-SP              Foto: Eduardo Marella

9 de mai de 2011

dezesseis anos

    Depois de andar e andar, com minha mochila, cabelo espatifado, camiseta amarrotada, short sujo e chinelo quebrado, achei uma árvore. Já havia andado muito, muito mesmo, até encontrar aquele lugar. Parecia ser uma árvore muito velha, que já vivera muitas primaveras. Olhei para suas raízes e vi que ali eu poderia me deitar. Então, limpei o chão de folhas secas e fiquei ali, com a coluna sobre a terra. Era uma árvore muito bonita, apesar de alguns galhos nus pela intensidade do outono. A árvore ficava no alto de um morro, e para chegar lá, atravessei canaviais, cafezais, milharais, cercas e caminhos estreitos.
    Fiquei lá por um bom tempo, deitado na sombra da árvore, pensando na efemeridade de todas as coisas. O dono do local chegou com uma foice, exigindo que eu fosse embora. Ele ficou com medo de mim, pensou que eu fosse roubar alguma coisa. O bandido na verdade era ele. Chamou de “sua propriedade” aquele lugar tão lindo. A natureza é linda para todos.
    Após perguntas e uma afinidade familiar ou outra, o homem se convenceu de que eu não era ladrão. Chamou-me para ir até a casa dele, e foi muito cordial e prestativo, desculpando-se e me oferecendo os produtos da geladeira. Era um bom homem. Mas eu não queria ficar na casa dele. Eu queria voltar pra debaixo da árvore, e pedi permissão dessa vez.
    Voltei pra perto da árvore, na beira da estradinha, e de lá observei as montanhas distantes, os morros, as colinas, o horizonte e a imensidão. Deu vontade de pôr o pé na estrada e sair por aí, apenas com a mochila nas costas.
    Com esta visão magnífica, estou escrevendo este relato. Daqui a pouco voltarei para casa. Mas nunca mais serei o mesmo que de lá saiu.
    Daqui em diante, o nome dessa árvore vai ser VIDA. Quando eu estiver bem velhinho, quero voltar pra sombra da VIDA. Espero que ainda esteja aqui. Sinto que minha infância ficara em suas raízes. Em troca, ela me deu a vontade de continuar sonhando.

Alberto.

11 de abr de 2011

Bom. Pela primeira vez aqui estou publicando um post que não seja um texto literário. A causa é nobre.
Resido na cidade de Itapira-SP, e aqui, faço parte de um grupo de conscientização política e atuação social. O nome desse grupo é Movimento Pedra Pontuda, fazendo alusão ao significado do nome da cidade, derivado do tupi-guarani.
Sendo assim, após muitas reuniões e debates, finalmente iniciamos nosso projeto de uma forma efetiva, com a elaboração de projetos e diagnósticos dos problemas presentes na cidade.
Pois bem, a maneira de divulgação mais ampla da atuação do grupo é o blog. Então, deixo aqui o endereço, para poderem acessar e conseguir mais informações sobre quem somos e o que fazemos.
Muito obrigado desde já, e precisamos de todos nessa luta a favor do bem comum e dos direitos do cidadão.

http://www.movimentopedrapontuda.blogspot.com/

Alberto.

5 de abr de 2011

Café das seis

     O café das seis era o ápice dos meus dias. Era o momento em que o Sol se esvaía, e os pensamentos davam o ar de sua graça, vindos das mais longínquas profundezas da inspiração.
     Tudo começou na varanda da minha velha casa. Sozinho, admirando a civilização acendendo as luzes e, ao longe, as montanhas expelindo brilho e sombra, fulgor e treva, naquela transição entre a luz e a escuridão, entre o belo e o desconhecido.
     Aquele café das seis na sacada, com o tempo, foi substituído pelo café das seis na calçada, com os colegas dispostos a ter conversas dignas do café das seis. As xícaras começavam a deixar marcas sobre o futuro que haveria de vir.
     Na juventude é que o café das seis começou a valer a cerveja do dia. A maturidade adquirida nos cafés anteriores fez-me estar entre as pessoas mais adequadas a participarem das reflexões naquele momento único. Queríamos implantar nossa política revolucionária. Era uma dialética regrada a café, vinho, frango frito e poesia. Kant e Nietzche se reviravam em suas tumbas.
     Nos cafés da juventude, as xícaras nos diziam que seríamos pessoas importantes. A filosofia tinha vida naquelas mesas de barzinho na região central. Uma Stella Artois acompanhava o som do velho disco do Led Zeppelin. Garrafas eram jogadas pro alto no final de cada canção de protesto por nós tocada, com violões velhos e vozes desafinadas. Mas aquelas eram as vozes das nossas almas.
     Para todos os amigos que desfrutaram dos prazeres daqueles cafés das seis em minha companhia, presto-lhes reverência.
     Entre beijos de amor e juras de transgressão, a ambição venceu. As poesias declamadas, as reflexões discutidas, os cinzeiros cheios, os pensamentos proibidos, as cervejas geladas e as canções encarnadas agora estão apenas na lembrança. A alma de um velho homem pode apodrecer, mas nunca se esquece do que lhe foi fundamental.
     Hoje, não tenho mais o café das seis. Como previam as xícaras, me tornei uma pessoa importante. Sou um burguês do alto escalão. Tenho servos ao meu dispor a preço de whisky barato.
     Hoje, não tenho mais o café das seis. Traí a mim mesmo. Sou a face da destruição de sonhos. Eu fui minha ruína.
     Essa é minha última crônica. Todas as outras foram escritas no café das seis. Menos essa. É uma nostalgia que não cessa, um arrependimento que não cala, uma nota que não se ouve, uma vida que não se vive mais.

Alberto.




















30 de mar de 2011

Dualismo

EU - A mente pesa o travesseiro já liquefeito. Como conseguir adormecer e entrar no mundo surreal?
MEU EU - O surreal é toda a brutalidade humana representada numa dimensão paralela. Tens certeza da tua vontade?
EU - Sim, eu tenho certeza desse meu último refúgio. A realidade radical me aflige.
MEU EU - E o que esperas da ilusão, minha cara?
EU - Espero degustar o mais doce estado de afeição viva. O meu rebanho de pensamentos não subsiste mais nos montes belos, não se renova mais nas águas cristalinas e muito menos aspira o desejado ar puro.
MEU EU - Toda vida tem suas belezas. O sorriso derruba a espada. Até que ponto o surreal é um refúgio?
EU - Até o ponto que cada lágrima derramada nesse mundo de vaidade brotar do chão um lindo ramo de rosa vermelha, desenterrando o amor para a vida.
MEU EU - É um belo pensamento, mas... o que diz-te que tal pensamento não pode ocorrer no mundo real? Todos temos um paraíso florescido em nossas mentes, pronto para desabrochar e se exibir, lindo e virtuoso, colorindo o universo.
EU - Quanto mais a Terra gira, mais egoísta e impetuoso o ser humano fica, e o paraíso florido em sua mente morre antes de desabrochar.
MEU EU - Então não há mais esperança? Nem mesmo através do amor?
EU - A ambição circula mais forte que o amor dentro dos seus corpos desventurados, e a esperança jamais se extinguirá, pois ainda há muito para os homens cobiçarem.
MEU EU - E toda essa cobiça não seria também em busca do amor? A ambição, muitas vezes, é a chave para a evolução.
EU - Quem está em busca do amor não o cobiça, apenas o quer deslumbrar e sentir. A chave para a evolução é a paz, a serenidade e a honestidade, e não a ambição, palavra negativa.
MEU EU - O mundo é o equilíbrio entre o positivo e o negativo.
EU - Talvez esse seria o mundo ideal para a sociedade desequilibrada.
MEU EU - A sociedade é imperfeita, desigual e injusta. É isso que o ser humano criou, e é assim que o fim dos tempos chegará até nós. Mas digo a sociedade. O mundo é paradoxal: frio e belo, escuro e iluminado, abatido e amável, livre para todos os sentimentos se aflorarem. É um equilíbrio pleno.
EU - Então o equilíbrio é parte do mundo perfeito, igual e justo. Logo, vivemos em um mundo desequilibrado, no qual uma minoria exerce poder sobre uma maioria. A desigualdade vive intensamente estampada na opressão.
MEU EU - Mas... se as pessoas não são iguais, como viveremos numa sociedade igual para todos?
EU - As pessoas habitam o mesmo e único planeta, superlotado de hipocrisia na atmosfera, de humanos completamente desumanos.
MEU EU - Se queres sonhar, abandonará a realidade sem ao menos dar valor à sua luta.
EU - Vou procurar respostas nos sonhos plenos.
MEU EU - As respostas estão aqui.
EU - ...
















Alberto e Laura

14 de fev de 2011

Nostalgia

   Como é possível sentir falta de algo que não foi vivenciado? Indagação sem uma resposta nítida, e várias correntes opinativas supostamente aptas a tentar respondê-la. Eu realmente não conheço nada em condições de sufocar meu amplo interesse pelo passado. Quando não há iniciativas de valor, a busca remonta para tempos onde o foco procurado estava reluzindo.
   Há um pesar enorme sobre tudo o que não aconteceu, fatos que poderiam ter um desfecho diferente do que tomaram, ações que poderiam ser evitadas, ou atos que deveriam ser realizados e não o foram. Com certeza, há uma obscura lacuna entre o que foi e o que está sendo, considerando todas as possibilidades. Porém, não é disso que sinto falta, pois tenho a idoneidade para deliberar o que há de vir. A sensação de prantear por algo do qual não fiz parte é a dúvida atroz que me chicoteia neste momento.
   O fato é que não se pode atrelar ao passado sem arquitetar algo posterior. Creio que o mundo se dá pelo que se fez, pelo que está sendo feito e pelo que se fará. Todavia, há algo inexplicável: essa inquietação imaterial sobre viver num tempo que não podia ter sido o meu. Acostumo-me a essa realidade, mas lamento ao refletir sobre tudo de bom que já houve e não há mais. É um retrocesso, um fenômeno reacionário, algo que causa decadência.
   Para exemplificar, lembro-me de quando a glória e a honra da espada foram substituídas pela covardia das armas de fogo. Recordo-me do tempo em que a arte era feita pela arte, pelo simples, puro e prazeroso ato de criar algo apreciável, sem interesses imundos. Também me rememoro da época dos grandes protestos e das grandes revoluções.
   Mundo moderno, oferece conforto e tira a paz. Era contemporânea, cada vez mais avançada em tudo que se poderia imaginar, entretanto com a mesma mentalidade dos séculos passados. Direitos Humanos não valem de nada. Leis são inúteis.
   Sinto falta daquilo que seria útil nos dias de hoje, e fica suspenso no mural da história, no luxo do mofo e das traças.
   Sinto falta dos heróis, das grandes coisas que eram feitas.                    
   Sinto falta das pessoas, pois o tempo passa, e elas não mudam.
   Sinto falta de quem escrevia pensando que podia mudar o mundo.

Alberto.

7 de fev de 2011

Minha Arte

ARTE é tudo aquilo que choca e espanta, e que faz pensar. ARTE é feita para abrir os olhos.
E o resto... bom, o resto não é nada.

Alberto.


11 de jan de 2011

O Rock 'n Roll nunca morrerá!

A platéia grita eufórica esperando seu astro
Jimi Hendrix sobe ao palco louco de bêbado
Johnnie Walker’s jogados pela janela do hotel
Várias putas na noite passada, e na retrasada também
Mas não há o que dizer sobre o que ele fazia
Ele era Jimi Hendrix, e só estava começando.

Paul e George viram as coisas ficarem maiores
Maiores do que alguém pode suportar sem pender.

Bob Dylan, o rei do protesto, a voz da nova geração
Em tons folclóricos surgia uma nova lenda
Dessa vez escolhendo o amor que deveria escolher
Mas e daí que as músicas dele tinham um cheiro insano?

E na levada da má reputação, algo muda
Jimmy Page diz “deixe o final da festa por minha conta”
Algo que não se pode mais pesar ou medir
Algo para se sentir nas veias.

Garrafas de whisky quebradas
São as lembranças do velho show
E as noites sem alvorada
Abandonam seu esplendor.

Freddie apodreceu sem preservativo
Janis foi sua própria heroína
Jim sumiu num passe de mágica
Hendrix foi o refluxo da geração
Ben se afogou na grande onda
Bonham e Lynott beberam as carências da fama
Moon foi pra lua junto com o espírito da sua banda
Raul foi sua loucura exagerada
John levou um tiro na cabeça.

Onde está a sensação de tudo isso?
Muitos são os que já foram
Poucos os que ainda estão
E loucos os que vierem.

Ninguém nunca vai ressuscitar o Rock ‘n Roll
Ele está vivo, com o coração pulsando
A cada acorde dessa canção.

Alberto.

















Foto: show Paul McCartney, 21/11/2010, estádio do Morumbi, São Paulo.
Nesse dia, 65 mil pessoas tiveram a certeza de que o Rock ainda vive.

5 de jan de 2011

Anjos Negros

Depois da meia noite, tudo fica mais obscuro
Olhos brilham escondidos na escuridão
Da madrugada silenciosa que se segue e não cessa
E pode não mais apontar as rotas novamente.

A visão é cega e improfícua na sombra
Não há luz, não há nada
Apenas espectros, viajantes noturnos
Com a missão de vagar no ermo.

Os anjos negros saem em caçada
Com flechas, espadas e corações malditos
Para estraçalhar as outras criaturas da noite
E reinarem soberanos no império sombrio.

As nuvens submergem sublimes no céu lúgubre
Transportando os infiéis funestos seres
Em suas temíveis faces, sede de sangue
Em seus letais olhos, terror e medo.

Desbravando a escuridão e a sombra do mundo negro
O império das sombras forma seu exército
Pronto para tirar vidas e trazer a devastação
E transformar o dia em noite numa só investida.

Sem piedade, sem clemência, sem compaixão
Ameaçam o mundo cristão com facas e penas
Anjos negros vindos dos confins gélidos da Terra
Batem à porta dos homens em seu descanso noturno.

Em sonhos, anunciam sua temível chegada
Em fatos, consomem a humanidade e bebem o vinho vermelho
Que um dia fora a água benta e salvadora dos fiéis
Da santa sacristia que tem agora seu altar arruinado.

Civilizações e florestas em chamas ardentes e flamejantes
Os grandes cavaleiros angelicais cumprem sua jornada
De ódio e de temor por toda esse planeta fétido
Orbe nefasto, distante e longínquo em sua perdição.

Homens matavam homens, anjos matavam espectros
Anjos matavam homens, e o planeta caiu e ruiu
E agora não há mais o mundo dos homens, dos anjos e dos espectros
Agora... não há mais mundo.

Não há mais
Não, não há
Mundo não há
Para quem ficar.

Alberto.