11 de abr de 2011

Bom. Pela primeira vez aqui estou publicando um post que não seja um texto literário. A causa é nobre.
Resido na cidade de Itapira-SP, e aqui, faço parte de um grupo de conscientização política e atuação social. O nome desse grupo é Movimento Pedra Pontuda, fazendo alusão ao significado do nome da cidade, derivado do tupi-guarani.
Sendo assim, após muitas reuniões e debates, finalmente iniciamos nosso projeto de uma forma efetiva, com a elaboração de projetos e diagnósticos dos problemas presentes na cidade.
Pois bem, a maneira de divulgação mais ampla da atuação do grupo é o blog. Então, deixo aqui o endereço, para poderem acessar e conseguir mais informações sobre quem somos e o que fazemos.
Muito obrigado desde já, e precisamos de todos nessa luta a favor do bem comum e dos direitos do cidadão.

http://www.movimentopedrapontuda.blogspot.com/

Alberto.

5 de abr de 2011

Café das seis

     O café das seis era o ápice dos meus dias. Era o momento em que o Sol se esvaía, e os pensamentos davam o ar de sua graça, vindos das mais longínquas profundezas da inspiração.
     Tudo começou na varanda da minha velha casa. Sozinho, admirando a civilização acendendo as luzes e, ao longe, as montanhas expelindo brilho e sombra, fulgor e treva, naquela transição entre a luz e a escuridão, entre o belo e o desconhecido.
     Aquele café das seis na sacada, com o tempo, foi substituído pelo café das seis na calçada, com os colegas dispostos a ter conversas dignas do café das seis. As xícaras começavam a deixar marcas sobre o futuro que haveria de vir.
     Na juventude é que o café das seis começou a valer a cerveja do dia. A maturidade adquirida nos cafés anteriores fez-me estar entre as pessoas mais adequadas a participarem das reflexões naquele momento único. Queríamos implantar nossa política revolucionária. Era uma dialética regrada a café, vinho, frango frito e poesia. Kant e Nietzche se reviravam em suas tumbas.
     Nos cafés da juventude, as xícaras nos diziam que seríamos pessoas importantes. A filosofia tinha vida naquelas mesas de barzinho na região central. Uma Stella Artois acompanhava o som do velho disco do Led Zeppelin. Garrafas eram jogadas pro alto no final de cada canção de protesto por nós tocada, com violões velhos e vozes desafinadas. Mas aquelas eram as vozes das nossas almas.
     Para todos os amigos que desfrutaram dos prazeres daqueles cafés das seis em minha companhia, presto-lhes reverência.
     Entre beijos de amor e juras de transgressão, a ambição venceu. As poesias declamadas, as reflexões discutidas, os cinzeiros cheios, os pensamentos proibidos, as cervejas geladas e as canções encarnadas agora estão apenas na lembrança. A alma de um velho homem pode apodrecer, mas nunca se esquece do que lhe foi fundamental.
     Hoje, não tenho mais o café das seis. Como previam as xícaras, me tornei uma pessoa importante. Sou um burguês do alto escalão. Tenho servos ao meu dispor a preço de whisky barato.
     Hoje, não tenho mais o café das seis. Traí a mim mesmo. Sou a face da destruição de sonhos. Eu fui minha ruína.
     Essa é minha última crônica. Todas as outras foram escritas no café das seis. Menos essa. É uma nostalgia que não cessa, um arrependimento que não cala, uma nota que não se ouve, uma vida que não se vive mais.

Alberto.