25 de nov de 2011

Rousseaus de Sarjeta

   O músico Farrokh Bulsara, em sua rapsódia boêmia, dizia: “Nada realmente importa / Qualquer um pode ver”. Naquele momento, ele não queria ser Freddie Mercury.
   Nas tantas revoluções realizadas pela humanidade, na maioria das vezes, conhecemos o nome de três ou quatro líderes. Não eram só esses. Talvez nem fossem os principais. A História escolhe personagens para sua alegoria. E pessoas escrevem a História. Essas pessoas não são imparciais diante dos fatos. Logo, não sabemos do fato em si, mas sim de uma interpretação dele.
   Depois de um exemplo e uma breve introdução inequívoca, vamos aos fatos. Há indivíduos que não são aceitos pelo meio intelectual. Simplesmente, não são. Os motivos podem ser a tendência para movimentos populares, carência de academicismo em seus discursos, retórica não tão abusiva ou, apenas, não ter o ‘perfil’ de intelectual. Esquecem que tudo que é acadêmico, um dia já foi vanguarda.
   Para ser um herói nos contos de fadas que se aprendem nas escolas, os teóricos devem atender ao perfil determinado de como deve ser um intelectual revolucionário. Vê-se nos livros os iluministas de perucas e roupas de época, os republicanos com óculos de cordão, os filósofos modernos de terno e gravata. Formalidade e tradição.
   Quem é o intelectual – ou um grupo deles – responsável pela tomada de Wall Street? Ainda não sabemos, mas a história dará um nome. Ele não será coletivo. Esse fato, de toda realização ser influenciada por alguém, não é tão fato assim. Na grande maioria das vezes, a privação das necessidades básicas causa mobilização e luta por mudanças drásticas no sistema social.
   É nesse contexto que entram os rousseus de sarjeta, que dão título ao artigo. Eles não buscam o reconhecimento pela comunidade intelectual, e nem pela posteridade. Eles não querem ser responsáveis sozinhos por qualquer realização. Porém, os rousseaus de sarjeta não ficam sentados na calçada, como sugere o nome. Esses FILÓSOFOS estão sempre ativos nas mobilizações sociais, dando sustentação teórica à ação política e ideológica, mas sem, nunca, querer tomar o controle da situação para sair com a fama na mídia.
   Os rousseaus de sarjeta são ainda mais preocupados com o povo do que o inspirador iluminista francês, que, no contexto histórico em que viveu, diferiu de seus companheiros pelo fato de realmente desejar alguma melhoria de condição à população miserável. A plebe acabou sendo apenas um instrumento para a ascensão da burguesia ao poder, na França e no mundo todo. Os rousseaus de sarjeta estavam – e estão – sempre ali, em meio ao tumulto, dizendo “vamos lá, camarada, todos aqui queremos um mundo melhor e mais justo”.
   São os filósofos mais completos. Os verdadeiros intelectuais. Indivíduos que estudam e agem.
   Debater existencialismo nos cafés caríssimos do Itaim não é uma constante para esses rousseaus. Filósofos de verdade suam a camisa na passeata contra a corrupção. Não vão publicar seus textos na Folha de São Paulo, mas, ainda assim, eles têm motivação para escrever. Pode ser que alguém leia.
   Eu, felizmente, conheço alguns rousseaus de sarjeta. Não vou nomeá-los aqui. Provavelmente, a História também não o fará. Não é necessário. Não é difícil identificá-los. O importante é escrever sobre eles, não como um nome digno de uma ode, mas como um conjunto de pessoas que querem um mundo melhor.
   Seja marginal, seja herói. Não é porque ninguém sabe, que alguém deixa de ser.

Alberto. 

*texto publicado na Revista Cultura (Anglo Itapira) edição n° 02