27 de dez de 2011

desacato à autoridade

(certo dia, em algum lugar de São Paulo)
-Ei, rapaz, parado!
-O que foi, senhor?
-E esse adesivo aí na sua bolsa?
-”PMilícia”?
-É, esse mesmo. Deixa eu ver essa porra aí. Tá com droga, né?
-Não estou, senhor. A não ser que o senhor coloque.
-Quer dizer então que o estudantezinho de merda está me desacatando?
-Não quis desacatar ninguém.
-Vai falar isso pro delegado!
-Vai me algemar?
-Algemar e te dar um coro, pra aprender a respeitar a autoridade. Só por que tem um livro embaixo do braço, pensa que pode sair por aí falando qualquer coisa. Agora vai ver do que eu sou capaz, rapaizinho!
-Meu pai não gostaria nada de saber disso.
-Quem é seu pai pra gostar de alguma coisa?
-André Zimmerman. Escritório de Advocacia Zimmerman, na Paulista.
-Me desculpe, acho que tivemos um mal entendido.
-Escute agora, seu policial. Autoridade não se faz com violência. Isso é repressão. Isso é restringir a liberdade do indivíduo. Isso é não garantir a segurança do cidadão.
-Com novecentos reais por mês, nem a escola dos meus filhos eu posso garantir.
-É muito mais eficaz fazer uma greve solicitando aumento salarial do que perseguir quem tem opiniões divergentes das do governo.
-Nem venha com isso, não posso perder meu emprego. Você é rico, não sabe de nada.
-Sei que o senhor quis me bater sem motivo.
-Por favor, não diga isso a ninguém. Agora vá!
(o garoto remexe um compartimento da bolsa, acende um fumo e fica sentado na sarjeta)
-Por favor, vai embora daqui, eu vou perder meu emprego!
-Vá fazer ronda em outro lugar. Tá cheio de universitário por aí querendo ser preso.
-Vai em outro lugar que seja mais escondido, pelo menos.
-Espera eu acabar o baseado.
(após alguns minutos de angústia por parte do policial)
-Pronto.
(o garoto acena para o ônibus parar, e sobe)
-Adeus, Policial. Era cigarro de palha. E ah, meu pai é padeiro.

Alberto. 















*foto: greve contra a PM na USP. desconheço o dono dos direitos autorais, mas pela liberdade artística na fotografia, presumo que seja de seu agrado que acompanhe textos assim.

20 de dez de 2011

A cada pessoa que conhecemos e gostamos, superamos um preconceito. E ainda há quem pergunte para quê ser gentil.
Alberto.

discurso sobre o método racional dos loucos

Como se manter lúcido num mundo tão insano?
Estudantes sem moral aprendem nossas leis para usar em seu favor. A isso chamam de justiça.
O dinheiro faz de nós homens, e não o caráter ou a inteligência. Escraviza e mata aos milhões. A isso chamam de ser humano.
Numa sociedade assim, é difícil manter a razão. Psicanálise, Psicologia Analítica, Sociologia, tudo tenta explicar. Mas que meio assombroso é esse que vivemos?
É uma escuridão tão grande, que me vejo iluminando a noite escura com a ponta de um cigarro e o brilho roxo de um vinho de má qualidade. Talvez eu morra cedo, já sem minha lucidez. É uma fuga que se acha fácil.
Acho que não posso. Não podemos. A razão não abandona ninguém para sempre, é. Nem o bêbado. Nem o louco. Nem o filósofo.
O mundo vive, sim, uma diáspora de Razão. E ela, noiva de preto, voltará para prantear as traições de sua embriaguez...
Talvez possa ser tarde demais.

Alberto.


contra o branco do Simbolismo

Enegreço meus versos quando escrevo.
O negro marca o papel.
O branco é nada.

Composição alva inútil
Entre símbolos herméticos
Nada diz não seja fútil
Esperança sem remédios.

Folha branca o negro atrai
Que completa com poesia
Diz-se contra o que trai
Usa a pena da maestria.

Enegreço meus versos quando escrevo.
Eles são minha anti-imagem para o mundo.
Meu tudo exposto no nada.
Pra todo mundo ver.

Alberto.


6 de dez de 2011

só uma cantiga feliz

Vamos cantar canções de amor
A vida não tem mais tempo pra dor!
Vamos dançar e nos divertir
Pois quem se gosta não pode partir!

O mais importante da vida é viver
Se quer ser feliz, tem que florescer!
No mundo lá fora um infinito de flores
A desabrochar, em todas as cores!

Festa animada como eu nunca vi
A vida só é boa pra quem sorri!
Nesse versinho, uma rima bacana
E um abraço pra quem se ama!

Esta é a cantiga de dois amantes
E nossas roupas não são elegantes!
Fazemos poesia com sutileza
Pra jogar longe a tristeza!

Alberto.