25 de dez de 2012

Falta de personalidade

O estilo é importante
Deixa tudo claro
(E necessário, logo, previsível).
Mas a superação do estilo
Pela escuridão da contingência
É primorosa
Sem personalidade
Multifacetada
E por isso completa.
A condição humana
É meio Led Zeppelin.


















Alberto Sartorelli

12 de dez de 2012

Impressões sobre "O Tempo", de Henrique Bernardelli


                                                  “O Tempo” – Henrique Bernardelli, 1925


“O Tempo” é um quadro de Henrique Bernardelli, datado de 1925, exposto na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Nele, são misturados elementos pagãos e cristãos. A obra apresenta seis personagens. A presente análise visa elucidar minhas impressões sobre o significado do quadro, de como a questão do tempo influencia diretamente a acepção da obra, que toma uma posição próxima do determinismo histórico.
Ao fundo, nus, estão Adão e Eva, personagens bíblicos, da cultura judaico-cristã. Javé, o deus supremo dessa tradição, havia concedido o paraíso para que Adão e Eva vivessem em felicidade plena, imortais, com todo o Jardim do Éden; porém, não poderiam eles dois tocar no fruto da árvore proibida, segundo lei imposta por Deus. Eis a primeira determinação presente no quadro: Deus, soberanamente bom e justo, impondo uma lei arbitrária à sua criatura, cuja moral repousa na obediência. No meio do paraíso, a fonte de todo o mal, a tentação do demônio travestido de serpente. Descartes diz que o homem nasce com a vontade maior que o entendimento, e cabe ao sujeito manter sua vontade nos limites do entendimento. Numa moral fundada na obediência, e quando na natureza humana a vontade comumente ultrapassa as fronteiras do entendimento, é perigoso colocar a fonte do mal à vista dos homens, ainda que apenas dois deles, um homem e uma mulher. Adão e Eva também tinham a vontade infinita e o entendimento finito. Na cena apresentada no quadro, Eva acaba de pegar da árvore proibida a maçã, e está prestes a oferecê-la a Adão. O ato de comer o fruto proibido, não resistindo à tentação do pecado, segundo a tradição, privou o gênero humano da vida eterna no Éden. Todo homem, a partir de então, nasceria impuro, com o pecado inato e manifesto em toda a sua existência. A ação de Eva pegar a maçã da árvore é o ato de fundação da cultura e da história, no âmbito do mortal, do mutável, do pecaminoso; a partir da desobediência duma norma dada extrinsecamente ao ser.
Mais à frente na imagem, podemos ver três mulheres escrevendo. Elas são figuras pagãs, chamadas moiras pelos gregos, parcas pelos romanos, e com uma pequena variação, pode-se identificar também as nornas da mitologia nórdica. A variação se dá pelo fato das nornas representarem passado, presente e futuro, no universo cíclico nórdico; e as moiras, início, meio e fim, na concepção temporal linear greco-romana. A ópera “O Crepúsculo dos Deuses”, de Richard Wagner, final da tetralogia “Anel os Nibelungos”, se inicia com as nornas tecendo os fios da vida de Sigfried e Brunhilde, os protagonistas, e dos deuses da Valhala, morada divina. Em certa medida, a norna Urd, guardiã do passado, exerce uma causalidade em Verdandi, entidade do movimento presente e contínuo, que culmina em Skuld, deusa do futuro e controladora do destino. Mas tratemos especificamente das moiras. As moiras são responsáveis por tecer o fio da vida de todos os indivíduos, e nem mesmo Zeus, o mais poderoso deus da última geração do Olimpo, pode contestar suas decisões. Uma delas, Cloto, que inicia o fio da vida, está na imagem em segundo plano ao lado direito, jovem; outra, Láquesis, é responsável por puxar o fio, e está na obra em primeiro plano do lado direito, adulta; e a última, Átropos, corta o fio e determina o fim da existência do indivíduo, está em segundo plano do lado esquerdo, velha, atrás do ancião. Elas tecem os fios na Roda da Fortuna, figura conhecida na cultura popular por ser a décima carta entre os arcanos maiores do tarô e representar as determinações do destino. Mas na imagem as moiras não estão escrevendo, em vez de tecendo? Acredito que o significado seja o mesmo. Um livro para cada indivíduo, o papel que tudo aceita e a tinta que não se apaga.
O último personagem, enfim. Um ancião segurando uma ampulheta, em primeiro plano, personificação do tempo. Atrás do tempo esconde-se a moira responsável pela morte. As outras duas, ao lado do velho. Tudo que as moiras de Henrique Bernardelli - que escrevem - o fazem, realizam no tempo. As controladoras do destino se subordinam ao tempo, ele sim a força-mor da natureza. O que seria, então, o tempo? Uma condição dada a priori para a existência dos fenômenos, diria Kant. Hegel fala de um movimento contínuo do espírito absoluto que se dá no tempo. Aristóteles diz que o mundo é eterno e tudo sempre existiu. Insuficiente. Agostinho, eu prefiro, é ele quem faz as perguntas. “Como são esses dois tempos, o passado e o futuro, quando o passado já não mais existe e o futuro ainda não existe? O presente, por sua vez, se sempre fosse presente, não iria para o passado; sequer seria tempo, mas eternidade”. Quanto a isso, pouco podemos dizer, a não ser aceitar nossa incompreensão do tempo.
Por fim, é patente que não compreendemos o tempo por razões lógicas, mas estamos nele, efêmeros, matéria. Linear ou cíclico, o tempo passa. Não sabemos como, mas passa. Ele detém o poder, as leis. Antes mesmo de Javé impor sua moral de obediência a Adão e Eva, o tempo já lá estava. Seria o tempo o próprio deus? Seria ele tão poderoso que, não só passa e transforma, como também cria? Uma resposta positiva para esta pergunta seria incompreensível, tanto quanto uma negativa. Não conhecemos a essência do tempo, só sabemos que ele passa, nos traz aqui e nos leva embora. Antes da cultura e da história, o tempo. Traz consigo a causalidade, a determinação, a privação de liberdade, a força imponente da natureza, que é ela mesma tempo. O tempo é a quem tudo se submete. Correu de Marcel Proust por exatos sete volumes! Aquele velho senhor, em primeiro plano, que dá nome ao quadro. Amigo de Nietzsche e Dostoiévski, da filosofia sem liberdade, quase amoral. Para quê uma moral no tempo, se nem livres somos? Javé e suas condições contingentes, arbitrárias. O velho senhor talvez risse, e continua rindo, de toda moral estabelecida. Depois, depois do ancião supremo dono das únicas leis válidas, aparecerem as moiras, que determinam as leis aos seres, no tempo, e por isso não totalmente livres. As moiras estão na sombra, escrevendo o destino dos homens discretamente. Por último, os determinados, meros mortais no tempo, marionetes, nós. No entanto, as moiras escreveram um destino especial a Henrique Bernardelli. Elas o deixaram permanecer no tempo por mais tempo.

25 de out de 2012

Valsa da dor, de Villa Lobos, letra encaixável em alguns dos trechos repetidos, sem revisão gramatical nem adequação musical perfeita

Eu sei
Eu sei
Eu sei que seu amor é frio
Eu já vi chegar
Meu coração
Saudade então
Se esquece
Fenece
Amadurece

Eu sei que tudo isso já foi passado
Mas não lamento pelo ido
Não posso chorar mais
Não posso chorar mais com isso
Não posso, não posso
Fenece, esquece, remete
Não tenho mais o que chorar por isso
Não Não

Entristeceu
Meu eu
Sua paixão
Foi encontrar
A prece
Deixou-me aqui
Sem chão
Sem ar
De respirar
Que enlouquece
Na chuva
Que não enxuga

Já foi feliz
Naquela estação
Até partir
Envelhece

Acorda então
Sem mais por vir
Cai no lençol
Adormece
Se desfalece
É a morte
Ele não teve sorte.

Otimismo

Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que pode falar
Feliz aquele que pode falar

Que o samba é alegria no peito
Mesmo triste, eu me deleito
Quando a Maria quer sambar
Ôláiá

Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que pode falar
Feliz aquele que pode falar

Que o samba é o ritmo do povo
Ainda mais quando é algo novo
Que o samba tem para cantar
Ôláiá

A alegria do samba não morre não
Não, não não
Mesmo quando tudo é televisão
Não, não não
A alma do samba é ser diferente
Levar a nossa gente de repente
Para o tão sonhado ideal de nação
Da multidão!
Sem dominação!

Quem faz o nosso samba tem que tá engajado
E perfumado!
Mesmo tendo pouca oportunidade
Que saudade!

Que o samba é alegria no peito
Mesmo triste, eu me deleito
Quando a Maria quer sambar
Ôláiá

Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que pode falar
Feliz aquele que pode falar

Que o samba é o ritmo do povo
Ainda mais quando é algo novo
Que o samba tem para cantar
Ôláiá


A alegria do samba não morre não
Não, não não
Mesmo quando tudo é televisão
Não, não não
A alma do samba é ser diferente
Levar a nossa gente de repente
Para o tão sonhado ideal de nação
Da multidão!
Sem dominação!

Fazer samba hoje é fazer revolução
Atenção!
Atenção!

A arte brasileira não vai ruir
Resistir!
Resistir!
Insistir!

Um belo vá pro diabo pra indústria cultural desse país
A exceção vai continuar.


Alberto.

22 de out de 2012


   Quase uma poética teatral, a garota de vestido vermelho com bolinhas roxas, meia grande e preta, allstar branco, cabelo curto e loiro, com uma franja tímida.
   Pega o ônibus na periferia, onde mora com os pais numa casa de tamanho médio. Sexta à noite, dia de sair, tomar cerveja, fumar cigarro e conhecer gente nova.
   A espera pelo ônibus no ponto fora demorada, ao som de rap por parte de um dos rapazes que buscava não se entediar. No ônibus, tocava bem alto a balada do momento, no celular de alguma menina, também saindo de casa sexta à noite, mas que não iria para o mesmo lugar da nossa garota.
   Chega ao destino, o centro. Os prédios, os apartamentos, os bares, os cafés. A vontade de morar ali. Mas percebe nossa garota, o que já havia há muito notado, mas racionalizado apenas agora; percebe ela como o espaço público é pequeno, quase inexistente, como o desejo de posse ultrapassa o senso de coletividade e integração.
   E as luzes e os grandes edifícios e os bares e os carros e os cafés e as mulheres e as roupas e os rapazes que não ouvem rap. No final das contas, é lá que ela queria estar. Queria ter dinheiro para estar lá toda hora.
   Cena de filme. A menina sentada no banco balançante do ônibus, um cara ouvindo rap, uma menina ouve o som do momento, e ela fechada nela mesma, tentando manter-se com pensamentos firmes. Na impossibilidade do solipsismo natural, põe um fone de ouvido para ouvir Bjork, naquele trajeto lento, em contrapartida à sua vontade incessante de logo chegar.
   À espera das luzes e os grandes edifícios e os bares e os carros e os cafés e as mulheres e as roupas e os intelectuais e os rapazes que não ouvem rap. A estética capitalista é o fundamento do sistema.

   Madrugada de domingo. Todas as ideias, em correntes, perpassam meu eu numa espécie de fluxo contínuo idealista, vai-vem inesgotável e refutado firmemente por vários eixos de mim mesmo. Nem assim para conter a maré bem sucedida de filosofias interagindo umas com as outras, ideal fenomenológico de diálogo. E não me decido.
   Nas madrugadas de domingo, ao som de Villa Lobos, me dói a pluralidade de possibilidades sólidas que posso adentrar num movimento intelecto-cultural duradouro. Não me decido, não escolho. Arte como fim ou como meio? Sensação empírica ou pura intelecção? Delírio quase onírico de transformação social?
   Contradição. Difícil sustentar um sistema de pensamento coerente. Donde partir?
   E as possibilidades que por mim transcorrem líricas, diferentes, não pego nenhuma.
   Entre os dobramentos de conceito – não sei, gosto muito da expressão “dobrar conceitos” – a prática vai revelando sua impossibilidade de vir a ser. No mergulho profundo em busca do conceito puro, da verdade que é, na garantia discursiva de tal achado precioso, nada para além de si mesmo o conceito.
   As ideias são solipsistas enquanto não vem a ser prática no devir. No processo de dobramento, de imersão conceitual, poucas vezes se volta para a execução de verdades.
   Verdade não é verdade enquanto não é executada. Continuo partindo do sujeito como ponto de partida, intérprete e organizador original do conhecimento. Para a verdade ser verdade, temos de sair de nós mesmos e nos entregarmos à realidade, saio de mim ao encontro de mim mesmo. Relação eu-mundo, parte-todo, panteísmo comunista.
   Madrugada de domingo. Pensamentos ainda pouco organizados, processo relatado. Delírio ontológico.

9 de out de 2012

emanação

Então sai de mim a luz idealista
a que emana, de dentro para fora
pois aquela ideia do homem que em outrora
digo que era em si, e agora rabisca.

Do rabisco do homem que é para si
vejo a conscientização de mim mesmo
sóbrio na realidade, logo vi
o meu eu, vagando no mundo a esmo.

Perseguia- o de maneira voraz
nas altas masmorras do pensamento
e o encontrei, ele estava em pranto.

Cansado de si mesmo, agora faz
um escrito que expõe o seu lamento
para nós, ele mesmo que quer tanto.

Para si, para o outro, para nós
para ser eu mesmo, saio de mim.

E mesmo que estivéssemos a sós
é o todo que devemos ter por fim.

Se o eu fosse pra nós, elevar-se-ia.

Para além da mera filosofia.


Alberto.

6 de out de 2012

poesia sem metáfora

Carpe de sol a sol
Na lavoura, latifúndio
Nem descansar no paiol
Pode o pobre imundo.

Tem de carpir todo o pasto
Onde só as vacas comem
Ó que destino nefasto
Está sem comida o homem.

Mas esse homem rural
O que produz a comida
No sertão do arraial
Padece com sua ferida.

Ferida feita na roça
A de ver seu alimento
Fugindo para a carroça
Sua fome grita um lamento...
...ensurdecedor que acorda toda a colônia, que logo volta a dormir, pois sabem que logo será a vez deles de não acordarem mais. Querem mudar essa realidade fatalista, mas suas enxadas não podem com as espingardas dos administradores. E essa é a história de um bem sucedido latifúndio, a história que Eça de Queirós não quis contar, e teve de fazê-lo João Cabral de Melo Neto. Nalguns temas, a metaforização da arte é quase ela mesma a realidade.

Alberto.

22 de set de 2012

a pele que habito, psicanálise, questão de gênero, metafísica do sensível, etc


Não uso vestido
Visto bermuda e camisa xadrez
Não gosto de salto alto
Corto o cabelo meio curto
Não me maquio nem uso rosa
Ouço jazz e heavy metal
Isso não é coisa de mulher
Mas sou sensível.
Sou tão sensível que
Sou mulher.
Mulher lésbica.
Gosto do corpo de mulher
De expressões ingênuas
De lábios delicados e sensuais
De cabelos que me amarram
De seios, ah os seios
De tudo que vem pra baixo nas mulheres
Sem ser vulgar, a contemplação, a ação
O gozo
A mulher bela como estética do belo.
Porém,
Sou tão enigmático quanto elas
Tão complicado quanto
E mais sensível.
Mais sensível por ser um pouco homem
Por ver a mulher do ponto de vista do homem e da mulher.
Como as lésbicas fazem.
Porque sou lésbica.
Sou um homem tão sensível que sou uma mulher
Que gosta de mulher.

15 de set de 2012

Os Trapaceiros

Que vale mais
o auxílio dum já experiente jogador
ou a sagacidade duma jovialidade subversiva? 

Um mestre
aquele velho lobo do mar
que indica precisa a jogada
a carta que deve ser virada
do jovem inseguro a jogar.

De frente
com uma vigilância espiritual
o esperto garoto de rosto oculto
frequentador da taverna, um vulto
tem em mente uma cartada final.

Quem venceu?

Foi o jovem ladino
gatuno napolitano
com a espada estacada no cinto.

Mais esperto que o velho charlatão

Mais esperto que o jovem rico.

Ele é a rua.

A rua, o vinho, os prostíbulos
os bancos das praças cheios de sebo.

A parte pobre, imoral
a antissacralidade do Renascimento.

tudo que é bonito vem da recusa.

Alberto.















Os Trapaceiros - Caravaggio - 1594

4 de set de 2012

Palestra – O Curso de Filosofia


   A Filosofia é o centro de várias discussões e incertezas há mais de 2500 anos. Muito se busca dentro da filosofia, principalmente respostas para os dilemas do ser humano. Todo iniciado na arte do filosofar busca a verdade. Durante a história, um número razoável de pessoas se empenharam em descobrir verdades sobre o mundo e sobre o próprio pensamento. Na maioria das vezes, essas verdades são contraditas por outras verdades, e há até mesmo aqueles que tomam como verdade o fato de não haverem verdades. Enfim, esse embate inconclusivo e não resolvido até hoje, voltado puramente para o pensamento é chamado de filosofia. Toda filosofia se contrapõe à anterior em algum aspecto, e essa discordância é que faz com que a razão humana evolua juntamente com o seu tempo. Esse diagnóstico do próprio tempo normalmente vem logo após esse tempo já ter passado. Sobre a lentidão da filosofia, cito a bela metáfora de Hegel: “A coruja de Minerva alça seu voo somente com o início do crepúsculo”. Minerva é a deusa romana do conhecimento; logo, o diagnóstico dos fatos pela filosofia é tardio; mas há doutrinas filosóficas que se antecipam ao seu tempo, e apenas são compreendidas décadas ou até séculos depois.
   Pois bem, todas essas contradições (há contradições em todos os ramos da filosofia, inclusive nas divisões da própria filosofia) tornam tal disciplina ao mesmo tempo obscura e magnífica. Mesmo com o esforço de Kant e Descartes em serem muito claros, a própria clareza e distinção dos conceitos foi colocada em contradição no decorrer da história da filosofia. Isso parece um pouco assustador, eu sei. Os textos densos e de difícil leitura, muitas vezes inconclusivos, afastam o grande público do interesse filosófico, que acaba ficando restrito a um grupo de escolhidos, iluminados ou corajosos.
   Nessa apresentação, vamos derrubar vários tabus da filosofia, e perceberemos que ela não é tão assustadora nem tão inacessível quanto parece. Isso não quer dizer que seja fácil estudar filosofia; e essa dificuldade é válida sempre que percebemos o quão perto está a filosofia do nosso dia a dia. O roteiro da apresentação será formulado por questões pertinentes à filosofia, para com isso aproximar os conceitos e os autores das pessoas que nunca mergulham a fundo no pensamento racional para tentar entender a realidade. Mostraremos também a importância das contradições. Nesse quesito, darei vários pareceres meus sobre os temas. A maioria deles encontrará oposição, e nada impede que vocês depois busquem argumentos contrários. Ficará claro a importância de tomar partido, escolher um lado sempre. E, como eu sei que vocês não vão ler os autores, já que nosso sistema educacional não permite leituras alternativas à alienação do estudo para o vestibular - e eu sei que vocês querem passar no vestibular – indicarei filmes que tratam de temas filosóficos frequentes. Porque se vocês não assistirem nem filme, aí fica complicado!

O que é Filosofia?
   Primeiramente: não acredito em resumos de filosofia. Realmente, os filósofos, em seus livros gigantescos, tentam explicar o mundo da forma mais clara e concisa possível. E, ainda assim, o mundo é mais complexo que esses livros. Por isso, respostas e teorias prontas em livretinhos de resumo são pouco confiáveis. Nunca encontrei nenhuma resposta convincente para a pergunta “o que é filosofia?”. Aliás, se fosse tão fácil assim concluir alguma certeza sobre a natureza específica da Filosofia, ela não teria razão para ser. Em breve, vocês entenderão o porquê o fato dessa resposta não ser evidente é primordial à construção da filosofia. Pois bem.
   Fui apanhando as ideias com que tive contato, e formulando meu conceito subjetivo. Para mim, a filosofia é a utilização da razão para “enxergar” a realidade. A realidade depende das contradições, das quais falaremos atentamente mais à frente. É impossível definir qualquer coisa no âmbito da filosofia sem tomar partido e arcar com as consequências. Nessa minha definição, acredito ter sido vago demais para que haja alguma oposição, a não ser a de ter sido vago demais.
   Pois bem, definindo então a filosofia como o utilizar da razão para enxergar a realidade, entramos numa das belezas da filosofia: a de ver o mundo de outra forma. Esse processo de conhecer várias visões de mundo sensatas e pertinentes colocadas pelos filósofos faz com que olhemos o mundo e a nós mesmos muito mais amplamente, de modo detalhado. Isso se dá pelo fato do interessado pela filosofia estar sempre procurando. Procurando o quê? As verdades. Essa incansável busca faz com que vejamos o mundo mais atentamente, buscando os segredos que podem ser traduzidos em verdades a cada canto. Como vocês devem ter já percebido, a filosofia pressupõe uma reconstrução intelectual a cada momento. Essa reconstrução é providencialmente importante, e mais ainda quando livre de preconceitos, sempre deixando espaço para uma próxima reconstrução. Assim, a filosofia pode ser um instrumento para a ampliação dos horizontes, e desse modo, para a emancipação do ser humano que é preso em sua medíocre realidade social. A filosofia é um caminho sem volta: mesmo os mais decepcionados não conseguem retornar à realidade em que viviam antes de tomar contato com a filosofia. Bom, sobre essa nova realidade que a filosofia proporciona, indico o filme “O Mundo de Sofia” (Erik Gustavson, 1999). O livro é meio longo, e o filme é muito bom. Continuemos.

Para quê filosofia?
   A filosofia serve de fundamentação teórica para todas as outras áreas do saber. Toda ação humana pressupõe uma tomada de partido no âmbito da filosofia, mesmo que sem saber. Qualquer ação tem uma ideologia por trás. Vocês estão todos aqui, me ouvindo, querendo saber algo a mais, muito curiosos (eu acho). O próprio fato da não satisfação com o próprio conhecimento é uma atitude filosófica, de quem busca o saber. A filosofia está muito mais próxima de nós do que parece quando não entendemos meia linha dum livro de Kant. Um exemplo claro da tomada de partido no âmbito filosófico para ações comuns do dia a dia é o fato de julgar alguém, quem quer que seja, por alguma possível falha cometida. Se o julgamos, pressupõe-se que existe liberdade, já que se não existisse, não haveria motivo em recrimina-lo. Isso é uma tomada de partido. Mas será que realmente existe liberdade?

É possível uma filosofia sem oposições, sem contradições?
   Não é possível. Começarei com um exemplo bem claro formulado por Kant, partindo da questão deixada em aberto: será que realmente existe liberdade? Bom, eu me levantei da cadeira agora. Por quê? Me levantei simplesmente por quê eu quis, ou por quê fui forçado a dar o exemplo? Tomar partido na resposta para essa pergunta gera um enorme desenrolar com consequências importantes.
   Suponhamos, primeiro, que eu me levantei porque quis. Todos nós somos livres, e Deus não existe! Deixemos isso então mais claro e menos assustador: se eu me levantei da cadeira porque eu quis, eu fui livre para assim fazer. Se fui livre, não existe uma causa primeira de toda as coisas, um motor imóvel, já que não houve um encadeamento de causas e efeitos que me fizeram agir de tal forma. Logo, é inconcebível à razão humana não pensar de modo causal, abolindo a lei da causa e efeito, para pensar num universo eterno e que nunca teve um início, com todos os fenômenos sendo eventuais e desnecessários. Nossa existência, então, seria um mero acaso.
   Por outro lado, tomando partido de que eu me levantei porque fui forçado a dar o exemplo para vocês; pois bem, não existe liberdade e não existe pecado! Pensem no que essa conclusão pode gerar: há uma causa primeira de todas as coisas, que inicia a cadeia causal, da qual fazemos parte. Assim, todas as nossas ações são determinadas. Se nossas ações são determinadas, não existe razão para julgar alguém, já que não existe o erro, a culpa do indivíduo. Nesse ponto de vista, não existiria o Direito. Porém, é também inconcebível à razão humana pensar na causa duma causa primeira, já que tudo tem uma causa e, no caso desse motor inicial, comumente chamado de Deus, não poderia ter surgido do nada, já que nada surge do nada.
   Essas duas conclusões distintas, tiradas de um simples levantar da cadeira, demonstram como a filosofia está próxima de nós, e de como essa tomada de partido tem influências sociais e políticas em nossas vidas. Sobre a importância dessa questão, assistam ao filme “Os Irmãos Karamazov” (Richard Brooks, 1958), já que dificilmente lerão a obra de Dostoiévski. As duas posições são diferentes, válidas e inconcebíveis à razão humana. Como sair disso? Como viver sem essa resposta?
   Mais uma dessas chocantes contradições, então, para afirmar a importância do caráter da contradição na filosofia. Formulemos o problema da mutabilidade e da imutabilidade do ser, originado no início da história da filosofia, com os pré-socráticos. Se considerarmos que existe uma essência, que é imutável, um presidiário, quando solto, não se arrependeria de seus crimes, pois a essência é definitiva. Já partindo do pressuposto de que tudo muda, o mesmo presidiário poderia sim se arrepender, mas aí já não seria o mesmo, pois o caráter de identidade pressupõe uma essência imutável, que não se transforma. Como saímos desse dilema? Quando Renato Russo canta “tudo passa, tudo passará” em “Metal Contra as Nuvens”, ele toma partido de que nada permanece, tudo se transforma. Viram como essas questões são próximas de nós?
   Porém, nem tudo está perdido. Partindo da perspectiva do filósofo alemão Hegel, a filosofia culmina no estado racional de seu tempo. Logo, a história da filosofia é a história da maturação dos conceitos, que evolui juntamente com a humanidade e o mundo. Não há motivos para buscar em Platão repostas para problemas atuais, porque os problemas não são os mesmos, e a filosofia também não. Por isso, parto da vertente de que a filosofia pensa a si própria e ao mundo em geral dentro de seu tempo e de seus problemas.
   O conflito colocado por Kant sobre a liberdade gerou discussão, pensamento, filosofias. Desconheço alguma que tenha resolvido o problema de modo claro e distinto, sem oposições. O conflito entre mutável e imutável, dos pré-socráticos, perdura até hoje. Mas o puro pensar nas questões fez com que a filosofia evoluísse, se transformasse, criasse novos conceitos, pensasse melhor em seu próprio tempo. É por isso que as contradições são necessárias à evolução humana. Se as verdades fossem tão evidentes em questões complexas como essa, não haveria o porquê pensar o pensamento puro. Assim, aquela busca incansável de que falamos no início não teria mais o motivo pra existir. Sem essa busca, estaríamos no fim da história, estagnados no nosso estado pífio e ridículo de evolução. São as tentativas de resolver as contradições e os problemas que fazem com que o homem evolua, juntamente com a sociedade em que vive. Não haveria filosofia, nem humanidade, sem contradições pendentes.

Por quê pensamento oriental não é filosofia?
   Partamos então para questões mais específicas. A filosofia tem por particularidade o rigor dos conceitos. Se mesmo sendo rigorosos, os filósofos se opõem, se não fosse esse rigor sistemático para com seus escritos, seria tudo uma conversa de bar. E é essa singularidade racional e ocidental, originada nos gregos, que diferencia a filosofia do pensamento oriental, por exemplo. Os chineses podem ter pensamentos tão profundos ou mais do que a filosofia, e muitas vezes mais sábios, mas não há o mesmo rigor conceitual. Podem haver filósofos japoneses, mas que pensam filosoficamente e não seguem a tradição do pensamento oriental. Isso não tira o dever de se conhecer o pensamento oriental: há muita coisa lá que o mundo ocidental não leva em consideração. Além disso, não se pode generalizar o pensamento oriental numa mesma forma: cada corrente tem sua singularidade, como cada filosofia tem sua particularidade. Há muito de lá que originou muita coisa por aqui.

O quê a filosofia tem a ver com a arte?
   Pois bem, com as várias indicações de filmes, é perceptível que a filosofia tem uma relação muito próxima com as artes. Na minha concepção, as artes muitas vezes servem como uma linguagem filosófica muito mais eficaz e de maior amplitude do que tratados complexos, densos e de difícil compreensão para o grande público. A já citada metáfora da coruja de Minerva pode ser, pela arte, invertida; no âmbito da estética – área da filosofia que se ocupa com a relação da mesma com as artes em geral – a coruja alçaria seu voo ao alvorecer, com o nascer do sol. Por essa eficácia, a arte é sim uma linguagem que pode ser usada pela filosofia, analisada pela filosofia, filosófica em si mesma. A música de um tempo é reflexo da sociedade, dos valores, das filosofias desse tempo. E assim com todas as artes. Para afirmar o que digo, sobre a total importância da arte como instrumento singular da filosofia numa sociedade, vejam o filme “O Sétimo Selo” (Ingmar Bergman, 1957).

A filosofia tem algo a ver com a religião?
   Tem sim. Existem filosofias dogmáticas. Dogmáticas quer dizer que partem de pressupostos que não são comprovados racionalmente e de modo claro e científico. Por exemplo, as filosofias de Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Leibniz e Pascal têm o Deus cristão presente como o criador do mundo. Pois bem, nem por isso essas filosofias devem perder o crédito. Elas foram o esforço das épocas em racionalizar a revelação divina, a religião, em tentar explicar o próprio dogma. Isso foi um avanço, que se não tivesse ocorrido, ainda viveríamos numa era de maior misticismo. E a opção pela filosofia, então, seria apenas para um pequeno grupo de iluminados.
   O filósofo francês René Descartes, um bom cristão, diz que todo homem com dedicação pode conhecer as verdades do mundo, seja ele um sábio ou um leigo. É tudo uma questão de método. A importância dessa colocação foi tirar a filosofia do domínio clerical e abrir a possibilidade do povo poder filosofar, pensar por si mesmo, emancipar-se da tutela do Estado e da Igreja. A obra de Descartes é revolucionária. Um perigo para o Estado vigente, pois o esclarecimento não tem retorno. Isso deixa claro o porquê da resistência de alguns governos contra o ensino da filosofia no ensino médio. O poder de emancipação política da filosofia não tem precedentes. Para ilustrar a relação, por vezes tensa, entre filosofia e religião, sugiro o filme “O Nome da Rosa” (Jean-Jacques Annaud, 1986).

O que torna alguém filósofo?
   Eis aí outra questão muito polêmica. Acredito eu que, para ser filósofo, o intelectual deve inaugurar uma nova corrente conceitual que seja relevante na história da filosofia. Para isso, claramente, se deve conhecer a fundo a história da filosofia, e ao mesmo tempo pensar o mundo contemporâneo, nessa flutuação entre os autores clássicos e o diagnóstico da atualidade e a relação com filósofos contemporâneos. Ler os textos clássicos exige um exercício de razão que colabora para pensarmos o mundo hoje. Enfim: essa nova corrente “criada” pode unir conceitos velhos numa organização diferente dentro dum sistema, ou simplesmente abordar rigorosamente velhas filosofias e, a partir delas, se opor e construir uma nova. Aí está a diferença entre quem estuda filosofia e quem é filósofo, e essa divisão também é polêmica. Porém, como já foi dito, estamos sempre tomando partido. Como já disse no início, minhas conclusões encontram oposições. Por isso, é sempre importante conhecer outras interpretações. Bom, continuemos.
   A originalidade se dá pela disposição dos conceitos dentro do sistema, já que não existe autor inédito de nada. As filosofias estão abertas ás interpretações dos leitores. Isso nos prova esse trecho de um poema sem título de Alberto Caeiro:
Da mais alta janela da minha casa 
Com um lenço branco digo adeus 
Aos meus versos que partem para a Humanidade.
E não estou alegre nem triste. 
Esse é o destino dos versos. 
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos 
Porque não posso fazer o contrário 
Como a flor não pode esconder a cor, 
Nem o rio esconder que corre, 
Nem a árvore esconder que dá fruto. 
   Viram como a arte da poesia pode ser também ela filosófica?
   Enfim, o que não faltam são filmes biográficos dos filósofos. Para quem quiser tomar um primeiro contato, mesmo que superficial, para com o filósofo, através de sua biografia, não faltam recomendações.
Santo Agostinho, Sócrates, Descartes e Pascal – Roberto Rosselini
Espinosa, o apóstolo da razão (Christopher Spencer, 1994)
Wittgenstein – (Derek Jarman, 1993)
Dias de Nietzsche em Turim (Julio Bressane, 2001)
Alexandria (Alejandro Amenábar, 2009)
   Essas são apenas algumas das quais me lembrei enquanto escrevia esse texto. Há muito mais.

É verdade que os filósofos eram arrogantes?
   Primeiramente: as pessoas tem mania de achar que os estudantes de filosofia já leram tudo. Não. Essa palestra, aliás, é baseada no pouco que eu li no curso até agora, e nos demais contatos que tive. Nunca li Nietzsche, por exemplo, e sempre foi indagado sobre questões nietzschianas. Quando ler, poderei falar com propriedade.
   Enfim, de fato. Eram arrogantes os filósofos, e os são os que estudam filosofia. Isso se dá pelo fato das pessoas que têm contato direto com a filosofia acadêmica estarem sempre distantes do senso comum. Infelizmente, o senso comum sempre fica no âmbito da mera opinião. São respeitadas as opiniões, nunca as convicções. Quem afirma qualquer coisa é arrogante. O estudante de filosofia que diagnostica qualquer fato que ocorre na sociedade, de modo muito bem argumentado, é taxado de arrogante pelo senso comum. A retórica, a arte do bem falar e do bem argumentar, gera repugnância dentro da esfera pública leiga. Não, nada disso é arrogância de fato.
   A arrogância, aquela que não devemos aceitar, é de uma outra natureza. O curso de filosofia realmente dá ao estudante uma alta erudição, um profundo conhecimento de muitas coisas. E ah, é comum o estudante de filosofia saber nomes de livros que nunca lerá! O fato da arrogância estar presente não é por uma boa retórica, ou um diagnóstico preciso que extrapole a esfera da mera opinião, o máximo dentro do senso comum. A arrogância acontece quando se considera o aprendizado da filosofia apenas nela mesma, na mera erudição, sem objetivos formais. Essa nutrição do próprio ego, por estar estudando algo difícil e distante da maioria das pessoas, faz com que algumas pessoas que estudam filosofia não tenham um objetivo maior a não ser adquirirem mais conhecimento erudito, às vezes um status de sábio. Esse status, muitas vezes, é garantido por espetáculos sobre os livros que nunca leram. Acredito eu que, se não houver um objetivo maior, é tudo vaidade. A filosofia por ela mesma não faz sentido algum. O conhecimento que não é compartilhado não serve pra nada. A imagem do doutor do conhecimento, do tutor, isso sim é arrogância, isso sim deveria gerar repúdio.
   Falando em doutores, vou expor rapidamente a estrutura do curso de filosofia da Universidade de São Paulo, um pouco de sua história e dos seus doutores, alguns arrogantes, outros longe disso.

O curso de Filosofia da Universidade de São Paulo
   A filosofia da USP surgiu juntamente com a Universidade de Filosofia, Letras e Ciências em 1934, fundada pela elite cafeeira paulista que, falida após o golpe de Getúlio Vargas, que acabou com a política de café com leite e derrotou a revolta armada dos paulistas em 1932, resolveu investir numa universidade, a fim de retomar o poder de modo ideológico. Os primeiros professores eram estrangeiros, e no curso de Filosofia, a hegemonia foi dos franceses. A intenção da elite agrária paulista deu errado: os novos cursos formavam profissionais críticos, distantes dos ideais elitistas.
   A universidade floresceu heroicamente, e começaram a se formar os primeiros professores de filosofia brasileiros. Passado um tempo, em 1968, a ditadura militar finalmente lançou sua repressão ao curso de filosofia: a batalha entre a USP (contrária a ditadura) e o Mackenzie (a favor dos militares), conflito no qual houve uma morte, fez com que a USP tivesse que se mudar do centro de São Paulo para um bairro periférico, o Butantã. Há um filme brasileiro, “Batismo de Sangue” (Helvécio Ratton, 2007), que retrata a vida e a morte, em razão das torturas instauradas pelos porcos da ditadura, de Frei Tito Alencar, estudante de filosofia da USP pouco antes da Batalha da Maria Antônia (nome com o qual ficou conhecida a guerra campal, na rua Maria Antônia, que abrigava os prédios do Mackenzie e da USP). Vários dos professores daquela época foram aposentados de modo compulsório pela ditadura. Um deles, o estudioso de Rousseau Luiz Roberto Salinas Fortes, morreu em detrimento de torturas que sofreu nas mãos dos militares. O medo tomava conta da filosofia. O curso, então, teve que se reconstruir. O modo crítico como se abordavam os temas ficou um pouco de lado.
   O Butantã era distante da efervescência cultural de São Paulo. O próprio prédio não oferecia uma estrutura necessária. O prédio é provisório há 40 anos, ou seja, a falta de estrutura física perdura até hoje. Depois da ditadura, houve uma nova estruturação crítica, e os resultados vieram. Hoje em dia, o curso de Filosofia da Universidade de São Paulo, apesar de não ter o mesmo brilho de outrora, ainda é um dos melhores do mundo. É o lugar onde mais se pensa (e se faz) filosofia no Brasil. A influência do Departamento de Filosofia na política brasileira, por exemplo, é enorme. Intelectuais como Marilena Chauí, José Arthur Gianotti, Vladmir Safatle e Paulo Arantes, isso para citar só alguns, todos eles professores do departamento, estão sempre no cenário político nacional, uns de um lado, outros do outro.
   A estrutura do curso é hegemonicamente a de leituras estruturais dos textos clássicos, linha por linha. Esse desgastante exercício de leitura mostrou-se eficaz na produção de filosofia que se faz na USP. Porém, como já disse, não se pode deixar de pensar o contemporâneo e ficar preso apenas a um Leibniz do século 17. Esse anacronismo, por vezes, ocorre entre alguns pesquisadores.
   O diferencial do curso da USP para o de outras universidades é o fato do calouro ingressar no curso já tendo contato com textos extremamente densos. O curso preza pela emancipação do aluno, para que possa, após a graduação, ler os textos por si próprio, sem a ajuda dos professores. Assim, não é possível ler, em 5 anos, todos os textos importantes da história da filosofia. Pode-se dizer que se aprende a ler na graduação em filosofia. Muitos filósofos não são abordados no curso, e fica por conta do interesse do graduando a busca desses textos.
   A ausência duma introdução mais leve, de uma mão amiga, faz com que o índice de desistência seja alto. Com o aumento do número de vagas, o curso tornou-se um pouco menos elitizado. Porém, ainda assim, há alguns contratempos para os quais nem todos os alunos estão preparados, como bibliografias em diversos idiomas, e a carga de leitura ser uma das maiores de toda a USP. Pior: além de ser uma das maiores, demora-se mais tempo pra ler, pois os textos exigem paciência para a compreensão dos conceitos. E já foi bem pior, quando haviam ainda menos obras traduzidas para o português do que hoje em dia.
   As matérias que o aluno de filosofia tem o direito de cursar podem ser sobre um determinado conceito, uma época história, um autor ou uma área da filosofia. Exemplos de matérias são Estética, História da Filosofia Moderna, Ética e Filosofia Política, Filosofia da Ciência, além de ser permitido ao aluno cursar disciplinas em outros institutos, a fim de fornecer uma formação mais pluralizada. As matérias têm a duração de 6 meses. Recomenda-se que o aluno não exagere no número de disciplinas cursadas por semestre, para ter tempo de se dedicar a leitura atenta dos textos e frequentar o cenário cultural, que é tão importante quanto os livros. A formação em Filosofia permite o trabalho como professor de ensino fundamental e médio. Com pós-graduação, pode-se dar aulas em universidades. A docência é o único caminho certo do curso de filosofia. Já entre os caminhos prováveis, pode-se seguir carreira como roteirista de cinema, jornalista, crítico de arte, curador de exposições, literato e muitas outras profissões relacionadas. Tudo depende muito da área de interesse do profissional dentro da filosofia.

Por fim: a filosofia pode ser um instrumento para um mundo melhor?
Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
   Assim começa o poema “Tabacaria”, de Álvaro de Campos. É assim que eu vejo as coisas. Tenho meus sonhos. Os três primeiros versos falam exatamente do processo de reconstrução contínua do indivíduo.  O quarto verso, conclui que essa reconstrução tem, intrínseca, em si mesma, alguns desejos, alguns sonhos. Eu tenho um desejo, um sonho: a filosofia com um objetivo, que é o de um mundo melhor. Eu busco as verdades, incansavelmente, visando esse ideal. Na verdade, a filosofia é um instrumento para um mundo melhor. Tudo que fica fora disso, a erudição por ela mesma, é tudo uma mera nutrição de ego, vaidade. Pensar o mundo, e pensar a própria razão, sem ter em vista uma sociedade mais justa, mais humana, um mundo mais sustentável, é fazer com que a filosofia não sirva para absolutamente nada. Essa ação prática do conhecimento teórico é que dá razão de ser à filosofia.
   Além de tudo, para um mundo melhor, é necessário que haja uma filosofia que fundamente teoricamente esse ideal. Repito: devemos tomar partido sempre, e tomar partido em qualquer situação, é tomar partido filosoficamente. O intelectual deve escolher se sua filosofia é para quem é oprimido ou para quem oprime. Não existe meio termo. A indiferença é do partido dos opressores. A luta de classes existe, pode até não ser totalmente determinante, mas o é em grande parte. O maniqueísmo é ingênuo, e separar a sociedade em duas classes distintas também. Sabemos que o século XXI é muito mais complexo do que isso. Porém, a situação econômica e material tem sim influência direta no desenvolvimento intelectual do ser humano. Os meus estudos de filosofia estão do lado de quem pouco tem. Eu tomei meu partido, e a filosofia é meu instrumento. O objeto é o mundo, o objetivo: um mundo melhor.
   Encerro aqui, citando um trecho da canção que melhor representa meu ideal. A indiferença, aparente nessa música, é uma mera ironia de um gênio do samba brasileiro. “Filosofia”, de Noel Rosa.
Não me incomodo que você me diga 
Que a sociedade é minha, inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo.
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia.
 
   Todos devemos tomar partido. Não existe indiferença. Obrigado.

Alberto Sartorelli, 18, estudante de graduação em Filosofia na Universidade de São Paulo.

18 de ago de 2012

Café das três

   Sentados na mesa de fora dum café, para poder fumar, estava uma turma de jovens. Na verdade, era meio café, meio padaria, meio bar. Passava muita gente pelas calçadas, região movimentada. Eram cerca de três da tarde, o melhor horário para se tomar café em São Paulo - e em qualquer lugar do mundo. Aquele calor mediano já fazia com que os rapazes tivessem que tirar o casaco.
   Café e cigarro, combinação perfeita para uma conversa com a perspectiva de ser cultural, intelectual. Todos sabiam que quando enjoassem do café, pediriam umas garrafas de cerveja, bem geladas, boa marca. Mas ainda estavam no café. Dentre eles, haviam estudantes de várias áreas do conhecimento: Arquitetura, História, Jornalismo, Direito, Antropologia, Letras, Cinema, Filosofia. Habitualmente se reuniam ali, e sempre vinha alguém novo. Era quase um evento semanal: vários jovens numa sexta-feira à tarde começando com o café. O papo servia também para pôr em pauta o programa noturno. Muitos não iriam nas aulas da noite; outros, cabularam as da tarde; os mais sortudos não tinham aula na sexta.
   Enfim, o papo começou bem. Sempre começa bem. Círculo de amigos, amantes das artes, das letras, das cafeterias. Falavam das peças no Theatro Municipal, e do bom grão do café. Umas vinte pessoas, profundas pessoas. Mas, como rotineiramente acontece nessas reuniões, cada interesse de momento gerou uma mesa, vários papos interessantes com pessoas interessantes ao mesmo tempo. Entre o elogio do techno contemporâneo na França, a estética do novo filme do “Fausto” de Goethe, a poesia marginal nos teatros da Consolação, as bandas de jazz rock do circuito underground paulistano e o pessimismo adorniano para com a razão humana, aquela pluralidade cultural gerava prazer. É claro que falavam de muito mais coisas, mas não cabe descrever todos os assuntos aqui, já que foi descrito todas as possíveis futuras profissões daquele pessoal, e isso causou um certo desgaste. O narrador desse conto também pouco entende de moda, logo, será impreciso nas descrições de vestuário. As garotas, com belos óculos de diversos tipos e tamanhos, e sempre tinha aquela com a camisa do The Velvet Underground, aquela da banana do Warhol. Os rapazes, com semiternos, o tênis sem cadarço, óculos discretos, e sempre algum com a camisa dos Beatles. A maioria não era rico, dava pra pagar a conta, uns quinze reais cada um.
   Enquadrado no estereótipo, só a camisa que não era dos Beatles, um dos jovens, um dos que estudavam Filosofia, propôs-se a esvaziar o cinzeiro. O lixo estava na rua, para além daquelas correntes que separam os estabelecimentos da calçada. Deu a volta e jogou as cinzas no lixo junto ao poste. Muita gente passava por ali. Antes de se levantar da mesa, falavam sobre Baudelaire, um cara que faz Cinema até recitou o “Enivrez-vous”. Todos ali sabiam pelo menos uma poesia de cor, mas a maioria era tímida com desconhecidos, o que é muito comum nesse meio. Pois bem, o jovem aspirante a filósofo - ou a poeta - jogou as cinzas no lixo junto ao poste. Muita gente passava por ali. No aglomerado de gente com pressa, ao longe, visualizou uma única pessoa, a daqueles cabelos loiros e ondulados que reluziam por todo o presente horizonte urbano. Só podia vê-la, sozinha. Não viu mais a imensidão de pessoas em volta, não ouvia mais o barulho dos carros. Êxtase estético, ele diria em estado sóbrio. Era mais do que isso.  O mistério daquela estética intrigou o filósofo: não enquadrava aquela beleza ímpar e aquele estilo fora do tempo em nenhum dos esteriótipos paulistanos. Não era nem do "rolê" da Augusta, nem da Vila Olímpia, e não tinha cara de quem passeava a pé pelos Jardins. Assim, não adivinharia onde ela pudesse aparecer novamente, onde poderia vê-la. Na carência de conhecimento fashion do narrador, pode-se dizer que o jovem nela contemplava um rosto distante, delicado, de um outro tempo, como o das musas da Arcádia grega. Simultaneamente, tinha um ar moderno, do hoje que exala uma pressa e uma instantaneidade. Não exagerava nas pernas à mostra, nem no decote. Como o próprio George Harrison valorizou o charme e a mágica de como uma mulher se move, o jovem rapaz apreciava a cada passo de corpo inteiro sua Vênus, quem sabe futura Atena. 
   O estudante de Filosofia vestia um chapéu preto, meio ralo pelo tempo, uma das únicas exclusividades de seu vestuário. Entre o momento em que avistou aquela beleza reluzente, até que chegasse a ele pela calçada, foi um turbilhão de pensamentos rápidos e intensos. “Será que ela não vai mudar de calçada? Não pode! Não vou ter coragem de pará-la. E essa timidez iminente que me assola? Ó, não posso deixa-la passar. E se ela se assustar com um desconhecido parando-a no meio da calçada? O que posso dizer? Nunca tive coragem de falar nada para as garotas que me encaravam no metrô! Sem nenhuma cerveja?! Ela não trocou de calçada. Está vindo! Que linda! Coragem! Vou parar na frente dela e já começar a falar, com os olhos firmes nos dela. Agora!”
   É óbvio, muito óbvio, que ele parou em frente à garota e nada conseguia dizer. Respirou fundo, levantou o olhar e encarou a moça, que estava com uma expressão indiferente.
   - A rua em derredor era um ruído incomum,  
      Longa, magra, de luto e na dor majestosa
      Uma mulher passou e com a mão faustosa
      Erguendo, balançando o festão e o debrum;
      Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
      Eu bebia perdido em minha crispação...
   - Quem é você? - perguntou a garota, surpresa. Aflito com a indagação, o rapaz resolveu continuar, já meio sem jeito.
   - No seu olhar, céu que germina o furacão,
     A doçura que se embala e o frenesi que mata.
     Um relâmpago, e após a noite! - Aérea beldade,
     E cujo olhar me fez renascer de repente,
     Só te verei um dia e já na eternidade?
      O jovem então parou, estava muito fadigado com o recital, vermelho, nervoso, não conseguia mais olhar nos olhos e prestar reverência à sua deusa da beleza contemporânea.
   - Ainda não acabou.
  -  Bem longe, tarde, além, "jamais" provavelmente!
     Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
     Tu que eu teria amado - e o sabias demais!
   - Baudelaire.
   - É...
   - Por quê?
   - Não gostou?
   - Não importa, me responda.
   - Porque... bem, foi de momento, não pensei em respostas.
   - Ah.
   - Perdão pela atitude inadequada, vou voltar pro café com o pessoal.
   - Qual a diferença entre mim e aquelas garotas que estão com você no café? São todas bonitas, aparentam ser inteligentes e se vestem bem.
   - Elas não me fazem recitar poemas no meio da calçada.
   - Quer um cigarro?
   - Obrigado, eu tenho aqui.
   - Bom, então... adeus.
   - Adeus...
   Eles se olharam, profundamente, e ela foi se afastando, afastando... Quando ameaçou virar de costas e seguir seu rumo, o aspirante a filósofo-poeta exclamou algo não tão alto.
   - Pra onde você vai?
   - Idiota! Por um momento, pensei que você tivesse decorado o Baudelaire só da boca pra fora.
   Ele sorriu.

Alberto.

p.s. A tradução, presente neste texto, do poema "À uma passante" ("À une passante"), de Charles Baudelaire, é creditada a Jamil Haddad. Outras boas traduções, com rimas diferentes, foram feitas por Ivan Junqueira e Guilherme de Almeida.

8 de ago de 2012

samba da falta de inspiração


tempo, já faz muito tempo
que o moço no relento
diz que não gosta de mar (e de amar)

e puro, o poeta voa
nesse mundo à toa
a se angustiar

é lento, cheio de lamento
a angústia sem alento
fez ele não amar

vive, e já que se enjoa
a vida não é boa
aquela que quis levar

fraco, que quando bate o vento
o vazio sangrento
não vai cicatrizar 

é longe, que ele se destoa
porque só se magoa
a muito prantear

cego, urbano e cinzento
não tem mais o sustento
pra poder amar (algum dia)

logo, o seu rancor ressoa
e ele não perdoa
e fica a se enraivar

jura, que algum cruzamento
encerra seu batimento
num leve se jogar

falso, é aquele que doa (a quem doer)
e põe a coroa
pra não se julgar

perto, não tem mais pensamento
não rema mais a canoa
nunca gostou do mar

triste, o poeta amontoa
seus poemas num canto qualquer da casa
e se põe a queimá-los todos

vivo, o poeta morreu
vivo, o poeta morreu
só pode viver o homem
o poeta tem que morrer
só porque ele escreveu
todo o cinza deste mundo
só porque ele escreveu
todo o cinza deste mundo.

2 de ago de 2012

Noite paulistana


   Saiu de casa era umas 7 da noite. A cidade já estava iluminada. Hoje ia tocar, com a sua banda. Era um bar legal, num bairro de bacana. E se alguém resolve investir no som? Colocou a calça jeans preta, o tênis apertado, a camisa do Sonic Youth e um meio terno por cima. Pegou o baixo, saiu de seu pequeno apartamento e foi pro ponto de ônibus.
   Melancólico, no banco, olhando os anúncios, a calçada e as pessoas pela janela, finalmente chega no local. Seus companheiros de banda estavam eufóricos, já Pedro sentia que a noite de hoje não seria muito diferente das outras. Passaram o som, e foram pra um bar ali perto. Cerveja cara! Não deu pra ficarem bêbados o suficiente, tiveram que implorar por um conhaque mais ou menos na festa que iam tocar. Clube pra filho de empresário, caro pra entrar.
   Entraram no palco e tocaram. Era um som diferente, meio rock ‘n roll, meio Bach, meio atormentador, bem triste. O que saía pelas notas daquele baixo era pura angústia. O pior foi, como previu Pedro, olhar para o público e ver pessoas sorridentes, conversando alto, provavelmente sobre negócios ou bobeiras. Ninguém se importava com a banda, com o som, com o sentimento. É, ninguém sentia a música. Ah, exceto duas garotas e um rapaz, meio no fundo, com as costas na parede lateral. Eles olhavam e olhavam fundo, e sentiam cada nota. Atentos a cada movimento da banda, sentiam ali que eram como eles, sentiam a mesma coisa, eram da mesma tribo. Raríssimas vezes Pedro conheceu pessoas assim nos shows. Podia não ser uma noite como todas as outras.
   Acabou o show, muitos aplausos, gratidão por alguém ter tocado no palco. Aplaudiriam qualquer um ali. Os caras da banda foram embora, chateados novamente, nada novo, só mais uma frustração. Pelo menos saíram com uma grana razoável. Pedro ficou um pouco mais, terminou o conhaque e acendeu um cigarro, pensando em procurar aquelas três pessoas. Mas, uma garota, uma das que estavam apoiadas na parede, ele logo reconheceu, sentou no banquinho em frente ao balcão, ao lado do rapaz.
   - Olá, você que é o baixista da banda que acabou de tocar aqui, não é?
   -Sou sim.
   -Meu nome é Alice, muito prazer. Quem é que escreve as letras?
   -Sou eu mesmo.
   -Vim aqui com uns amigos da faculdade, mas não estava gostando, música fraca, até vocês começarem a tocar. Acho que a música de vocês salvou minha noite. Há algo de krautrock, né?
    -Mas que lisonjeio. E sim, gosto muito de Neu.
   -Me deparei com um casal também apreciando a música. Fiquei amiga deles, queriam muito falar com vocês, mas decidiram ir embora, essa festa não está com um clima muito bom. Prometeram ir ao próximo show de vocês.
   -Só eu estou aqui, pode conversar comigo.
   -Ahh, perdão.
   -O que você faz?
   -Cinema.
   -No palco, senti você e aquele casal absorvendo a música. Eram os únicos da festa.
   -Achei diferente, intenso, profundo, inesperado pra uma festa como essa. Só os filhinhos da alta burguesia aqui.
   -Como você, acho.  
   -Azar o deles, e o meu. Eu acho que nós devemos ir embora daqui! É muito caro beber aqui dentro. Achamos qualquer boteco e ficamos até abrir o metrô. Acho que com umas cervejas você fica mais simpático.
   -Bom... vamos.
   Pedro então respirou muito fundo, e sentiu o ar fresco se espalhar pelo seu peito. Sabia que havia ganho a noite.

Alberto.


14 de jul de 2012

Corredores quase vazios

Muito, mas muito mais que estudante, sou um cara que fica vagando pela universidade nos momentos de ócio. Observo as pessoas, a pluralidade de ações, os sorrisos e os olhares introspectivos. Bem, o fato que quero contar aconteceu numa sexta-feira à tarde. Acordei, não estava disposto a almoçar por perto do meu apartamento, aqueles de 10 reais pra cima em Santa Cecília. Meu cartão do bandejão estava com créditos, e acabei indo pra universidade. Após o almoço, fui ao prédio onde estudo, com uma pequena esperança de encontrar alguém pra papear e passar aquela tarde de sexta-feira. O prédio estava vazio, pois poucos cursos oferecem aulas em sexta-feira. Naquele silêncio dos corredores, muito inabitual para quem frequenta a barulheira do prédio do meio de segunda a quinta, senti-me só.
Vagando sozinho pelos corredores, vi exposto numa estante um livro de Kant, o qual eu procurava há tempos num preço acessível. Peguei-o para folhar, e o livreiro veio me perguntar se eu levaria o livro. Respondi que sim, e ficamos então debatendo se essa nova tradução era melhor que as antigas. Papo vai, papo vem, o velho livreiro revelou que já foi teve uma editora/livraria, acabou falindo e aqueles livros eram o que restava do empreendimento. Então, perguntei-o sobre que assunto ele costumava editar os livros: comunismo e movimentos libertários. Opa! O velho senhor fora outrora um revolucionário! Quis saber mais sobre isso. Aquele senhor, percebendo o interesse em meus olhos, começou a falar. Após isso, eu pouco me expressei, apenas ouvi, como tenho aprendido a fazer em muitas situações.
O pai do nobre senhor havia lutado na guerra civil espanhola, e ficou uns anos preso. Quando liberto, veio ao Brasil, fugindo de Franco e seu capachos, trazendo o filho com 15 anos. Falava-se catalão na casa da família, contrariando a ordem imposta pelo governo franquista, de que o castelhano deveria ser falado por todos os habitantes do território espanhol. “O castelhano, pra mim, é o idioma dos fascistas. Foi difícil ouvir alguém falando espanhol e não me remeter àquelas memórias sangrentas. Hoje, já não me importo mais”. O senhor continuou, dizendo que ia mal na escola, primeiro por não ser fluente no castelhano, segundo por ser ateu, prática abominável na época, trazendo reprovações nas aulas de religião.
Já no Brasil, ingressou no Partido Comunista em Porto Alegre. Espantou-se pelo fato dos membros realizarem a reunião às sextas-feiras, após o terreiro de umbanda. “Na Espanha, e imagino que no resto do mundo, todo comunista era ateu”. Após participar do PCB, mudou-se para São Paulo e estudou na Escola de Sociologia e Política, se não me engano. Após terminar os estudos, começou a editar e vender livros, em plena ditadura militar. Foi perseguido e censurado, mas nem tanto. “A ditadura na Espanha foi muito pior que aqui. Ainda mais você que é jovem, nem deve fazer ideia do que é viver um totalitarismo”. Disse que acabou retornando à Espanha depois de 30 anos, acompanhando a filha, que fora estudar em Barcelona.
"Eu vi o auge e a decadência dessa universidade. Hoje isso aqui não é mais nada, quase. Aqui já foi o centro de tudo. Você faz filosofia, não é? Deve ser difícil nesses tempos". Um pouco cansado de falar, num raro intervalo, acabei por me colocar ativamente na conversa de novo. “E agora, como o senhor vive?”.  Mostrou a camisa que vestia, muito bonita, de tecido de um azul exótico. “Comprei no brechó da igreja. Deve custar uns 200 reais, paguei 5. A gente aprende a tirar proveito do sistema”. Então, pegou no armário um livro, e mostrou-me. “Como perdi meu tempo”, de Raul Matteos Castell. Eram suas memórias, em três volumes. Aquele era o volume II. Perguntei então o motivo daquele título. Abriu o livro e recitou um poema, que estava bem no começo do livro. Infelizmente, acreditem, por toda a infelicidade do destino, minha memória é falha e não lembro nem se era de Proust ou Camus. Pois bem, o poema explicava o título, que não é o que parece.
O senhor, já cansado de só falar, antes de encerrar a conversa, abriu o livro numa outra página e recitou um texto de Kundera. Antes, fez a ressalva. “Não gosto muito do Milan Kundera, mas esse texto é bom. Tá no meu livro é porque acho bom.” Acredito ser necessário transcrever nesse relato o tal texto. Gostaria também de colocar aqui o poema de Proust ou Camus, se lembrasse qual e de quem é! Enfim.

“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a pena, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo um esboço não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.” – Milan Kundera em “A Insustentável leveza do Ser”.

Aquela minha tarde de sexta-feira, pouco esperançosa, havia tomado um rumo inesperado. Despedi-me do velho senhor, sem muito dizer, mas com o olhar admirado. Tenho escrito muito sobre livros e quem está por trás deles. Não só por trás das páginas, mas por trás do balcão mesmo. Aquele senhor não me pareceu frustrado. Eis o meu objetivo de vida: olhar pra trás e não me frustrar pelo que não fiz. Até caberia um Pessoa pra encerrar aqui, mas acho que não. Uma conversa marcante, numa tarde quase perdida. Sou um cara que fica vagando pela universidade de muita sorte! Pra quem me conhece, estava apenas começando o dia do meu aniversário.

Alberto.