14 de abr de 2012

aspirante

   Bar quase vazio, salvo algumas pessoas no andar de baixo bebendo por beber. Nós, falando sobre a política na França. Nunca fui a Paris, mas mesmo assim me interessa muito.
   Na verdade, tenho uma atração poética por Paris. Talvez lá eu me inspire para escrever algum livro que fuja do existencialismo contra-arte, contra-autor, contra-amor que me domina há algum tempo. Ou não, talvez eu precise de inspiração para escrever sobre meus contras. Na verdade, só quero ir a Paris pelo sentimento de contemplação mesmo. São Paulo já é um parâmetro da filosofia existencial pesada, densa, bruta, sem esperança que venho falando com certa frequência.
   O prazer de uma cerveja na taça de vidro com logotipo da marca ou, no máximo, um vinho de preço médio, já contentam uma alma que busca por algo maior do que apenas um papo de intelectuais sobre Tolstoi. O gênio russo subverteu, e depois renegou sua antiga vida boêmia. Mentira. Fugiu de casa aos 80 anos. Nós, no bar do centro de São Paulo, somos os boêmios da vez. Não tenho certeza, falta subversão aos intelectuais de hoje.
   Poucos sorrisos, só quando a piadinha inteligente é bem formulada. O intelectual não cai da cadeira de rir; apesar de achar tudo muito engraçado, acaba por retrair o riso. Não sei se é natural ou puro consenso entre essa classe de pessoas. Não sei, não sou tão intelectual assim; às vezes escapam algumas risadas mais altas. Pouco ligo se olham com desprezo o meu humor. Na verdade, rio menos depois disso.
   O tempo vai passando, o papo já andou pela trilha sonora de filmes franceses e do leste europeu - ou até produções sueco-norueguesas -, música do século XVIII, o prefeito proibir os artistas de rua, a influência de Goethe na onde de suicídios pela Europa após a publicação de Die Leiden Des Jungen Werthers, recitamos Tabacaria sem saber de cor, tudo isso. Como temos sempre amigas mulheres, assuntos relacionados à apreciação do sexo feminino sempre são tratados com a máxima polidez. Realmente acho bonito não se falar de mulheres como no senso comum, apenas um objeto vulgar. Falar e tratar as mulheres como... bom, diria como Paris, para contemplar.
   Há uma amiga nossa na mesa, alta, magra, rosto bonito, cabelo também, inteligente, intelectual. Nessa minha tendência existencialista, é de quem preciso ao meu lado. Para dividir amarguras, taças de vinho e filmes franceses. Só que não. Se ela for existencialista mesmo, vai querer momentos. Aí sou eu quem não sou. Sinto isso com todas. Deixa pra lá, isso sempre foi o de menos. Eu deveria pensar menos em mulheres assim. Se não pensasse nelas, não pensaria em nenhuma, pois são as únicas que penso. Deixa pra lá, rapaz!
   Não há como deixar pra lá, minha percepção do belo é sempre muito apurada. Não dá para não pensar. Vinho, livros para subverter, livros de alta erudição, mulheres intelectuais. Não desprezo o óculos e as belas roupas, é claro. Ela usava xadrez, calça listrada, um All Star meio ralo. Havia acabado de escrever um artigo sobre a “construção e configuração do belo na estética de Hegel”. Era um êxtase ver a obra falando de si mesma. Sinto que sou aspirante a intelectual. Os grandes intelectuais dos salões franceses conquistavam as mulheres com sua eloquência. É, o classe média vindo do interior ainda precisa se afixar de vez no terreno intelectual para se tornar parte dele.
   Bom, fora tais frustrações, o bar e os amigos da intelectualidade, aqueles à esquerda do sistema, que estudaram em bons colégios, ensinam-me muito. Cada bebedeira, uma aula. Também os ensino, só não sei se se interessam tanto. Ah, mas é bom. Beber e ter papos prazerosos para a mente é bom. Ver belas mulheres e poder conversar sem nenhuma futilidade é bom. Isso é ser aspirante a intelectual. Todo o conflito da existência se resume a uma conversa de bar: um prazer num mundo carente de prazeres.
   Posso não ser sincero neste escrito. Reconheço que me deslumbro com bares. Para relembrar: vinho, livros para subverter, livros de alta erudição, mulheres intelectuais. Adicione amigos intelectuais, os intelectuais que a gente conhece no bar e, como não é sempre que tomamos vinho, a cerveja sempre bem vinda. Há uma alternância: saímos para fumar em dois ou três, os que estão mais por dentro do assunto, para continuar lá fora. Depois voltamos e entramos no meio de outra conversa. Cigarro é bom como desculpa para discrições repentinas.
  Já é hora de ir embora, vou de metrô.Um pouco embriagado, um pouco cansado de pensar tanto. Chegar em casa, tirar a camisa social, o cinto e ir pra cama. Sem a mulher intelectual do lado. Quando acontece, é raramente, já me acostumei. Sou um aspirante a intelectual com poucas esperanças. Um pouco frustrado. Um pouco jovem demais pra pensar em alguma coisa. Mas que insiste. Nem sei se gosto tanto do clima intelectual. Há dias que prefiro não pensar em nada.
Alberto.