11 de mai de 2012

próximo duma gare qualquer


   Próxima da estação de metrô estava minha livraria, sebo, como quiseres chamar. Não tinha nome. Era apenas uma loja de livros velhos e usados. Vendia também filmes antigos, fitas cassete, vinis, discos de goma-laca (ou 78rpm) do século anterior, e até mesmo alguns chapéus dos anos 20. O lugar não era grande, era meio sujo, meio rústico. Eu sempre colocava na vitrola ou no gramofone algum disco bem antigo, às vezes George Gershwin com sua Rhapsody in blue, às vezes Miles Davis, Piaf, Janis Joplin, Coltrane, Doors, Led Zeppelin. Eu ficava lá, perto da estação de metrô. Como pouca gente ia ao lugar, eu ficava lendo e ouvindo boa música, dos velhos tempos. Lia Álvaro de Campos, lia Spinoza, lia Tolstoi, lia solidão. E assim passava meus dias. Minhas noites eram regadas a vinho, charutos e café. Dormia pouco.
   Era um prédio velho. Em cima da loja, um apartamento velhaco, um quarto com cama de solteiro, um criado mudo cheio de livros amarelos e um guarda-roupa com minhas camisas gastas. Banheiro comum, uma cozinha com fogão velho e panelas queimadas pelo fogo e pelo tempo. Havia também um quartinho para guardar o resto da velharia, e a pequena sacada. Não era alta, mas dava para ver as luzes de São Paulo. Ali eu passava minhas noites. Meus dias, no andar de baixo, na loja, também lendo e ouvindo boa música. Poucas pessoas iam ao lugar. Gente sozinha repete as coisas.
   Raramente pediam para eu escrever algum artigo. Sempre era para jornais de média circulação. Pouca gente sabia que eu tinha estudado filosofia na juventude. Não fui para a Sorbonne, não me tornei professor universitário, apenas quis continuar lendo. Acabei por fazer disso minha vida. Solitário, em meio aos livros, fui envelhecendo. Antes disso, vivia só dos artigos e traduções, como os grandes poetas boêmios.
   As poucas pessoas que iam à loja se sentiam diferentes lá. O lugar transmitia tranquilidade, um refúgio à rotina desgastante e às preocupações com o tempo da cidade. Porém, era também um local que gerava algum tipo de revolta nas pessoas. Elas, ao mesmo tempo, queriam e não queriam estar ali. Queriam, para fugir de suas vãs vidas submetidas a interesses desprezíveis. Não queriam, pois ali era melancólico de um modo estranho, trazia de volta um passado que, inatingível e mágico deixava as pessoas atormentadas.
   Alguns intelectuais iam à minha loja, para conversar, ouvir boa música e procurarem livros que ninguém mais tinha. Pessoas normais também, aquelas que se interessavam por discos raros ou gostavam de ler bons livros. Mas também iam pessoas que precisavam de ajuda. Como eu não vendia livretos de autoajuda, acabava por dar a elas livros de verdade, e elas sempre voltavam agradecendo. Essa era uma das minhas finalidades: passar um bom livro a quem mais precisa dele. E ia seguindo. Minha vida era tão melancólica quanto à das outras pessoas.  A diferença é que minha rotina, essa sim, era melhor. Solitário, triste, um pouco desesperançado, um pouco otimista ainda. Sozinho, assíduo leitor de Baudelaire e todos os outros, meio bêbado. Não sei, era assim.  Eu oferecia ajuda e atormentava as pessoas vindas da cidade, descendo rápidas do metrô. Tirava a pressa das pessoas, para o bem e para o mal. Minha loja era uma realidade paralela no centro de São Paulo. E eu também era.
   Uma vez me falaram de Síndrome do Estrangeiro: ” A Síndrome do Estrangeiro é a sensação de nostalgia pelo ambiente e/ou pelas pessoas, o sentimento de inadaptação, melancolia aguda, apatia, depressão, caracterizando um quadro de saudades de lugares e pessoas desconhecidas.” Tinha isso, apesar de gostar de ouvir o contemporâneo Sufjan Stevens, este, porém, outro infectado por esta síndrome. Inteirado na política, havia sido um crítico social ferrenho e pragmático na juventude. Agora, minha revolta não passa de artigos em jornais de média circulação.
   Só era pragmático ao dar livros e outras coisas às pessoas. Certa vez, um menino perguntou-me se é possível ser um grande homem, apesar de órfão. Não respondi, e dei-lhe um LP de Louis Armstrong. Ele também era órfão. O menino um dia voltou, tocando um saxofone. Nunca mais soube dele.
   Uma mulher, de meia idade, perguntou-me como eu conseguia viver sem ter um trabalho bem remunerado, por que não tinha constituído uma família, tido filhos. Se ela soubesse que eu tinha um curso universitário, estaria ainda mais surpresa. Entreguei-a uma antologia de Quintana. Ele viveu toda sua vida em pequenos quartos alugados, sem se casar ou ter filhos, traduzindo contos e escrevendo. Disse para ler o Poema da Gare de Astrapovo. A mulher um dia voltou, tinha escrito um livro de poesias, estava de férias e pretendia não voltar ao seu emprego numa multinacional. Nunca mais soube dela.
   Quando um moço moderninho com camisa do Sonic Youth me perguntou por que eu gostava mais do passado, disse para pegar qualquer livro na estante e ler. Ele escolheu Pride and Prejudice, Jane Austen.  Um dia voltou, dizendo que o amor era mais bonito naquela época. Eu acabei por responder que não, não foi o amor que mudou. As pessoas mudaram, mas não para melhor. Disse a ele que o passado é melhor por que ele é diferente do presente. Quando não nos aceitamos em nosso próprio tempo, temos que recorrer a outros conceitos, outras belezas, abstratas, não nossas, distantes. Assim o homem foge de sua realidade, e o que acaba vivendo em sua mente não é a realidade do passado, é uma idealização. O moço falou que eu podia escrever um livro sobre isso. Eu disse que não era escritor.
   Houve uma experiência no mesmo âmbito das anteriores, porém mais intensa. Uma garota, de uns 20 anos, pediu para ouvir um disco dos Stones, Sticky Fingers. Ouviu, gostou, quis levar. Eu disse que ela poderia ficar com ele. A reação da garota foi algo do tipo ”você dá livros para as pessoas, dá discos, como se mantém assim, sem cobrar nada pela sua única fonte de renda?!” É. Eu vendia para quem chegava até mim com o dinheiro na mão e perguntava o preço. Na verdade, eu gostava de dar livros, discos e filmes para as pessoas. Peguei um pedaço de papel e escrevi quatro versos. Entreguei para a garota. Estava escrito “O homem contemporâneo é tão vazio / que na calada da noite ele sente frio. / Frio de falta de si mesmo encontra / nos discos e livros se remonta”. A garota leu e saiu, sem dizer nada. No dia seguinte, voltou atormentada. Disse que procurou na internet e achou isso num livro, “Poemas de reconstrução”. O autor era um antigo estudante da mesma universidade que a dela, um tal de Nicolas Nice. Havia também poemas em francês e italiano, todos falando do homem contemporâneo. A garota, atordoada após ter lido o livro, perguntou se eu o tinha na loja. Falei que foram todos perdidos com o tempo, e não sabia como ela ainda o encontrara na rede virtual. A garota começou a remexer minhas estantes. Fiquei ofegante. Ela achou o livro.
   -Senhor, por que disse que não tinha o livro?!
   - É que... ele é muito antigo, está com as páginas cheias das traças.
   A garota começou a folhear o livro, achou várias anotações. Até que ela leu a biografia no início do livro, volume qual não havia na internet. Havia muita coisa escrita sobre a vida do autor, uma delas era “Nicolas Nice, o maior dos pseudônimos de Lúcio Albuquerque”. Indagou-me do motivo de não haver essa biografia na obra digitalizada. Respondi que o autor havia rasgado essa parte de todos os livros quando saíram da editora, restara apenas este exemplar original. Ela pegou o livro e saiu da loja. Nunca mais voltou. Nesse dia eu perdi meu eu, novamente tornei-me um homem contemporâneo.