14 de jul de 2012

Corredores quase vazios

Muito, mas muito mais que estudante, sou um cara que fica vagando pela universidade nos momentos de ócio. Observo as pessoas, a pluralidade de ações, os sorrisos e os olhares introspectivos. Bem, o fato que quero contar aconteceu numa sexta-feira à tarde. Acordei, não estava disposto a almoçar por perto do meu apartamento, aqueles de 10 reais pra cima em Santa Cecília. Meu cartão do bandejão estava com créditos, e acabei indo pra universidade. Após o almoço, fui ao prédio onde estudo, com uma pequena esperança de encontrar alguém pra papear e passar aquela tarde de sexta-feira. O prédio estava vazio, pois poucos cursos oferecem aulas em sexta-feira. Naquele silêncio dos corredores, muito inabitual para quem frequenta a barulheira do prédio do meio de segunda a quinta, senti-me só.
Vagando sozinho pelos corredores, vi exposto numa estante um livro de Kant, o qual eu procurava há tempos num preço acessível. Peguei-o para folhar, e o livreiro veio me perguntar se eu levaria o livro. Respondi que sim, e ficamos então debatendo se essa nova tradução era melhor que as antigas. Papo vai, papo vem, o velho livreiro revelou que já foi teve uma editora/livraria, acabou falindo e aqueles livros eram o que restava do empreendimento. Então, perguntei-o sobre que assunto ele costumava editar os livros: comunismo e movimentos libertários. Opa! O velho senhor fora outrora um revolucionário! Quis saber mais sobre isso. Aquele senhor, percebendo o interesse em meus olhos, começou a falar. Após isso, eu pouco me expressei, apenas ouvi, como tenho aprendido a fazer em muitas situações.
O pai do nobre senhor havia lutado na guerra civil espanhola, e ficou uns anos preso. Quando liberto, veio ao Brasil, fugindo de Franco e seu capachos, trazendo o filho com 15 anos. Falava-se catalão na casa da família, contrariando a ordem imposta pelo governo franquista, de que o castelhano deveria ser falado por todos os habitantes do território espanhol. “O castelhano, pra mim, é o idioma dos fascistas. Foi difícil ouvir alguém falando espanhol e não me remeter àquelas memórias sangrentas. Hoje, já não me importo mais”. O senhor continuou, dizendo que ia mal na escola, primeiro por não ser fluente no castelhano, segundo por ser ateu, prática abominável na época, trazendo reprovações nas aulas de religião.
Já no Brasil, ingressou no Partido Comunista em Porto Alegre. Espantou-se pelo fato dos membros realizarem a reunião às sextas-feiras, após o terreiro de umbanda. “Na Espanha, e imagino que no resto do mundo, todo comunista era ateu”. Após participar do PCB, mudou-se para São Paulo e estudou na Escola de Sociologia e Política, se não me engano. Após terminar os estudos, começou a editar e vender livros, em plena ditadura militar. Foi perseguido e censurado, mas nem tanto. “A ditadura na Espanha foi muito pior que aqui. Ainda mais você que é jovem, nem deve fazer ideia do que é viver um totalitarismo”. Disse que acabou retornando à Espanha depois de 30 anos, acompanhando a filha, que fora estudar em Barcelona.
"Eu vi o auge e a decadência dessa universidade. Hoje isso aqui não é mais nada, quase. Aqui já foi o centro de tudo. Você faz filosofia, não é? Deve ser difícil nesses tempos". Um pouco cansado de falar, num raro intervalo, acabei por me colocar ativamente na conversa de novo. “E agora, como o senhor vive?”.  Mostrou a camisa que vestia, muito bonita, de tecido de um azul exótico. “Comprei no brechó da igreja. Deve custar uns 200 reais, paguei 5. A gente aprende a tirar proveito do sistema”. Então, pegou no armário um livro, e mostrou-me. “Como perdi meu tempo”, de Raul Matteos Castell. Eram suas memórias, em três volumes. Aquele era o volume II. Perguntei então o motivo daquele título. Abriu o livro e recitou um poema, que estava bem no começo do livro. Infelizmente, acreditem, por toda a infelicidade do destino, minha memória é falha e não lembro nem se era de Proust ou Camus. Pois bem, o poema explicava o título, que não é o que parece.
O senhor, já cansado de só falar, antes de encerrar a conversa, abriu o livro numa outra página e recitou um texto de Kundera. Antes, fez a ressalva. “Não gosto muito do Milan Kundera, mas esse texto é bom. Tá no meu livro é porque acho bom.” Acredito ser necessário transcrever nesse relato o tal texto. Gostaria também de colocar aqui o poema de Proust ou Camus, se lembrasse qual e de quem é! Enfim.

“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a pena, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo um esboço não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.” – Milan Kundera em “A Insustentável leveza do Ser”.

Aquela minha tarde de sexta-feira, pouco esperançosa, havia tomado um rumo inesperado. Despedi-me do velho senhor, sem muito dizer, mas com o olhar admirado. Tenho escrito muito sobre livros e quem está por trás deles. Não só por trás das páginas, mas por trás do balcão mesmo. Aquele senhor não me pareceu frustrado. Eis o meu objetivo de vida: olhar pra trás e não me frustrar pelo que não fiz. Até caberia um Pessoa pra encerrar aqui, mas acho que não. Uma conversa marcante, numa tarde quase perdida. Sou um cara que fica vagando pela universidade de muita sorte! Pra quem me conhece, estava apenas começando o dia do meu aniversário.

Alberto.


4 de jul de 2012

síndrome do estrangeiro, curada

   Depois de muito procurar, cheguei à penosa conclusão de quem nenhum lugar é meu lugar. Meu destino é errar por aí, sem ter algum lugar para voltar, sem um porto seguro. Como Fernando Pessoa, entre quartinhos sujos, bares e muito álcool, vou vivendo minha vida de poeta. Poeta nem tão poético assim. Já diria o velho Bukowski: “Raramente sou artista; na maior parte do tempo eu não sou nada”.
   De fato. Não ser nada é o que nasci para ser. Ser alguma coisa, até pode ser, às vezes. Se é assim, que seja numa vida de poeta. Nem húngaro, nem francês, nem alemão, nem inglês, nem brasileiro. Sou poeta às vezes. Muitos também o são, poucos são os afortunados que vivem a poesia que recitam, pela eternidade.