18 de ago de 2012

Café das três

   Sentados na mesa de fora dum café, para poder fumar, estava uma turma de jovens. Na verdade, era meio café, meio padaria, meio bar. Passava muita gente pelas calçadas, região movimentada. Eram cerca de três da tarde, o melhor horário para se tomar café em São Paulo - e em qualquer lugar do mundo. Aquele calor mediano já fazia com que os rapazes tivessem que tirar o casaco.
   Café e cigarro, combinação perfeita para uma conversa com a perspectiva de ser cultural, intelectual. Todos sabiam que quando enjoassem do café, pediriam umas garrafas de cerveja, bem geladas, boa marca. Mas ainda estavam no café. Dentre eles, haviam estudantes de várias áreas do conhecimento: Arquitetura, História, Jornalismo, Direito, Antropologia, Letras, Cinema, Filosofia. Habitualmente se reuniam ali, e sempre vinha alguém novo. Era quase um evento semanal: vários jovens numa sexta-feira à tarde começando com o café. O papo servia também para pôr em pauta o programa noturno. Muitos não iriam nas aulas da noite; outros, cabularam as da tarde; os mais sortudos não tinham aula na sexta.
   Enfim, o papo começou bem. Sempre começa bem. Círculo de amigos, amantes das artes, das letras, das cafeterias. Falavam das peças no Theatro Municipal, e do bom grão do café. Umas vinte pessoas, profundas pessoas. Mas, como rotineiramente acontece nessas reuniões, cada interesse de momento gerou uma mesa, vários papos interessantes com pessoas interessantes ao mesmo tempo. Entre o elogio do techno contemporâneo na França, a estética do novo filme do “Fausto” de Goethe, a poesia marginal nos teatros da Consolação, as bandas de jazz rock do circuito underground paulistano e o pessimismo adorniano para com a razão humana, aquela pluralidade cultural gerava prazer. É claro que falavam de muito mais coisas, mas não cabe descrever todos os assuntos aqui, já que foi descrito todas as possíveis futuras profissões daquele pessoal, e isso causou um certo desgaste. O narrador desse conto também pouco entende de moda, logo, será impreciso nas descrições de vestuário. As garotas, com belos óculos de diversos tipos e tamanhos, e sempre tinha aquela com a camisa do The Velvet Underground, aquela da banana do Warhol. Os rapazes, com semiternos, o tênis sem cadarço, óculos discretos, e sempre algum com a camisa dos Beatles. A maioria não era rico, dava pra pagar a conta, uns quinze reais cada um.
   Enquadrado no estereótipo, só a camisa que não era dos Beatles, um dos jovens, um dos que estudavam Filosofia, propôs-se a esvaziar o cinzeiro. O lixo estava na rua, para além daquelas correntes que separam os estabelecimentos da calçada. Deu a volta e jogou as cinzas no lixo junto ao poste. Muita gente passava por ali. Antes de se levantar da mesa, falavam sobre Baudelaire, um cara que faz Cinema até recitou o “Enivrez-vous”. Todos ali sabiam pelo menos uma poesia de cor, mas a maioria era tímida com desconhecidos, o que é muito comum nesse meio. Pois bem, o jovem aspirante a filósofo - ou a poeta - jogou as cinzas no lixo junto ao poste. Muita gente passava por ali. No aglomerado de gente com pressa, ao longe, visualizou uma única pessoa, a daqueles cabelos loiros e ondulados que reluziam por todo o presente horizonte urbano. Só podia vê-la, sozinha. Não viu mais a imensidão de pessoas em volta, não ouvia mais o barulho dos carros. Êxtase estético, ele diria em estado sóbrio. Era mais do que isso.  O mistério daquela estética intrigou o filósofo: não enquadrava aquela beleza ímpar e aquele estilo fora do tempo em nenhum dos esteriótipos paulistanos. Não era nem do "rolê" da Augusta, nem da Vila Olímpia, e não tinha cara de quem passeava a pé pelos Jardins. Assim, não adivinharia onde ela pudesse aparecer novamente, onde poderia vê-la. Na carência de conhecimento fashion do narrador, pode-se dizer que o jovem nela contemplava um rosto distante, delicado, de um outro tempo, como o das musas da Arcádia grega. Simultaneamente, tinha um ar moderno, do hoje que exala uma pressa e uma instantaneidade. Não exagerava nas pernas à mostra, nem no decote. Como o próprio George Harrison valorizou o charme e a mágica de como uma mulher se move, o jovem rapaz apreciava a cada passo de corpo inteiro sua Vênus, quem sabe futura Atena. 
   O estudante de Filosofia vestia um chapéu preto, meio ralo pelo tempo, uma das únicas exclusividades de seu vestuário. Entre o momento em que avistou aquela beleza reluzente, até que chegasse a ele pela calçada, foi um turbilhão de pensamentos rápidos e intensos. “Será que ela não vai mudar de calçada? Não pode! Não vou ter coragem de pará-la. E essa timidez iminente que me assola? Ó, não posso deixa-la passar. E se ela se assustar com um desconhecido parando-a no meio da calçada? O que posso dizer? Nunca tive coragem de falar nada para as garotas que me encaravam no metrô! Sem nenhuma cerveja?! Ela não trocou de calçada. Está vindo! Que linda! Coragem! Vou parar na frente dela e já começar a falar, com os olhos firmes nos dela. Agora!”
   É óbvio, muito óbvio, que ele parou em frente à garota e nada conseguia dizer. Respirou fundo, levantou o olhar e encarou a moça, que estava com uma expressão indiferente.
   - A rua em derredor era um ruído incomum,  
      Longa, magra, de luto e na dor majestosa
      Uma mulher passou e com a mão faustosa
      Erguendo, balançando o festão e o debrum;
      Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
      Eu bebia perdido em minha crispação...
   - Quem é você? - perguntou a garota, surpresa. Aflito com a indagação, o rapaz resolveu continuar, já meio sem jeito.
   - No seu olhar, céu que germina o furacão,
     A doçura que se embala e o frenesi que mata.
     Um relâmpago, e após a noite! - Aérea beldade,
     E cujo olhar me fez renascer de repente,
     Só te verei um dia e já na eternidade?
      O jovem então parou, estava muito fadigado com o recital, vermelho, nervoso, não conseguia mais olhar nos olhos e prestar reverência à sua deusa da beleza contemporânea.
   - Ainda não acabou.
  -  Bem longe, tarde, além, "jamais" provavelmente!
     Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
     Tu que eu teria amado - e o sabias demais!
   - Baudelaire.
   - É...
   - Por quê?
   - Não gostou?
   - Não importa, me responda.
   - Porque... bem, foi de momento, não pensei em respostas.
   - Ah.
   - Perdão pela atitude inadequada, vou voltar pro café com o pessoal.
   - Qual a diferença entre mim e aquelas garotas que estão com você no café? São todas bonitas, aparentam ser inteligentes e se vestem bem.
   - Elas não me fazem recitar poemas no meio da calçada.
   - Quer um cigarro?
   - Obrigado, eu tenho aqui.
   - Bom, então... adeus.
   - Adeus...
   Eles se olharam, profundamente, e ela foi se afastando, afastando... Quando ameaçou virar de costas e seguir seu rumo, o aspirante a filósofo-poeta exclamou algo não tão alto.
   - Pra onde você vai?
   - Idiota! Por um momento, pensei que você tivesse decorado o Baudelaire só da boca pra fora.
   Ele sorriu.

Alberto.

p.s. A tradução, presente neste texto, do poema "À uma passante" ("À une passante"), de Charles Baudelaire, é creditada a Jamil Haddad. Outras boas traduções, com rimas diferentes, foram feitas por Ivan Junqueira e Guilherme de Almeida.

8 de ago de 2012

samba da falta de inspiração


tempo, já faz muito tempo
que o moço no relento
diz que não gosta de mar (e de amar)

e puro, o poeta voa
nesse mundo à toa
a se angustiar

é lento, cheio de lamento
a angústia sem alento
fez ele não amar

vive, e já que se enjoa
a vida não é boa
aquela que quis levar

fraco, que quando bate o vento
o vazio sangrento
não vai cicatrizar 

é longe, que ele se destoa
porque só se magoa
a muito prantear

cego, urbano e cinzento
não tem mais o sustento
pra poder amar (algum dia)

logo, o seu rancor ressoa
e ele não perdoa
e fica a se enraivar

jura, que algum cruzamento
encerra seu batimento
num leve se jogar

falso, é aquele que doa (a quem doer)
e põe a coroa
pra não se julgar

perto, não tem mais pensamento
não rema mais a canoa
nunca gostou do mar

triste, o poeta amontoa
seus poemas num canto qualquer da casa
e se põe a queimá-los todos

vivo, o poeta morreu
vivo, o poeta morreu
só pode viver o homem
o poeta tem que morrer
só porque ele escreveu
todo o cinza deste mundo
só porque ele escreveu
todo o cinza deste mundo.

2 de ago de 2012

Noite paulistana


   Saiu de casa era umas 7 da noite. A cidade já estava iluminada. Hoje ia tocar, com a sua banda. Era um bar legal, num bairro de bacana. E se alguém resolve investir no som? Colocou a calça jeans preta, o tênis apertado, a camisa do Sonic Youth e um meio terno por cima. Pegou o baixo, saiu de seu pequeno apartamento e foi pro ponto de ônibus.
   Melancólico, no banco, olhando os anúncios, a calçada e as pessoas pela janela, finalmente chega no local. Seus companheiros de banda estavam eufóricos, já Pedro sentia que a noite de hoje não seria muito diferente das outras. Passaram o som, e foram pra um bar ali perto. Cerveja cara! Não deu pra ficarem bêbados o suficiente, tiveram que implorar por um conhaque mais ou menos na festa que iam tocar. Clube pra filho de empresário, caro pra entrar.
   Entraram no palco e tocaram. Era um som diferente, meio rock ‘n roll, meio Bach, meio atormentador, bem triste. O que saía pelas notas daquele baixo era pura angústia. O pior foi, como previu Pedro, olhar para o público e ver pessoas sorridentes, conversando alto, provavelmente sobre negócios ou bobeiras. Ninguém se importava com a banda, com o som, com o sentimento. É, ninguém sentia a música. Ah, exceto duas garotas e um rapaz, meio no fundo, com as costas na parede lateral. Eles olhavam e olhavam fundo, e sentiam cada nota. Atentos a cada movimento da banda, sentiam ali que eram como eles, sentiam a mesma coisa, eram da mesma tribo. Raríssimas vezes Pedro conheceu pessoas assim nos shows. Podia não ser uma noite como todas as outras.
   Acabou o show, muitos aplausos, gratidão por alguém ter tocado no palco. Aplaudiriam qualquer um ali. Os caras da banda foram embora, chateados novamente, nada novo, só mais uma frustração. Pelo menos saíram com uma grana razoável. Pedro ficou um pouco mais, terminou o conhaque e acendeu um cigarro, pensando em procurar aquelas três pessoas. Mas, uma garota, uma das que estavam apoiadas na parede, ele logo reconheceu, sentou no banquinho em frente ao balcão, ao lado do rapaz.
   - Olá, você que é o baixista da banda que acabou de tocar aqui, não é?
   -Sou sim.
   -Meu nome é Alice, muito prazer. Quem é que escreve as letras?
   -Sou eu mesmo.
   -Vim aqui com uns amigos da faculdade, mas não estava gostando, música fraca, até vocês começarem a tocar. Acho que a música de vocês salvou minha noite. Há algo de krautrock, né?
    -Mas que lisonjeio. E sim, gosto muito de Neu.
   -Me deparei com um casal também apreciando a música. Fiquei amiga deles, queriam muito falar com vocês, mas decidiram ir embora, essa festa não está com um clima muito bom. Prometeram ir ao próximo show de vocês.
   -Só eu estou aqui, pode conversar comigo.
   -Ahh, perdão.
   -O que você faz?
   -Cinema.
   -No palco, senti você e aquele casal absorvendo a música. Eram os únicos da festa.
   -Achei diferente, intenso, profundo, inesperado pra uma festa como essa. Só os filhinhos da alta burguesia aqui.
   -Como você, acho.  
   -Azar o deles, e o meu. Eu acho que nós devemos ir embora daqui! É muito caro beber aqui dentro. Achamos qualquer boteco e ficamos até abrir o metrô. Acho que com umas cervejas você fica mais simpático.
   -Bom... vamos.
   Pedro então respirou muito fundo, e sentiu o ar fresco se espalhar pelo seu peito. Sabia que havia ganho a noite.

Alberto.