22 de set de 2012

a pele que habito, psicanálise, questão de gênero, metafísica do sensível, etc


Não uso vestido
Visto bermuda e camisa xadrez
Não gosto de salto alto
Corto o cabelo meio curto
Não me maquio nem uso rosa
Ouço jazz e heavy metal
Isso não é coisa de mulher
Mas sou sensível.
Sou tão sensível que
Sou mulher.
Mulher lésbica.
Gosto do corpo de mulher
De expressões ingênuas
De lábios delicados e sensuais
De cabelos que me amarram
De seios, ah os seios
De tudo que vem pra baixo nas mulheres
Sem ser vulgar, a contemplação, a ação
O gozo
A mulher bela como estética do belo.
Porém,
Sou tão enigmático quanto elas
Tão complicado quanto
E mais sensível.
Mais sensível por ser um pouco homem
Por ver a mulher do ponto de vista do homem e da mulher.
Como as lésbicas fazem.
Porque sou lésbica.
Sou um homem tão sensível que sou uma mulher
Que gosta de mulher.

15 de set de 2012

Os Trapaceiros

Que vale mais
o auxílio dum já experiente jogador
ou a sagacidade duma jovialidade subversiva? 

Um mestre
aquele velho lobo do mar
que indica precisa a jogada
a carta que deve ser virada
do jovem inseguro a jogar.

De frente
com uma vigilância espiritual
o esperto garoto de rosto oculto
frequentador da taverna, um vulto
tem em mente uma cartada final.

Quem venceu?

Foi o jovem ladino
gatuno napolitano
com a espada estacada no cinto.

Mais esperto que o velho charlatão

Mais esperto que o jovem rico.

Ele é a rua.

A rua, o vinho, os prostíbulos
os bancos das praças cheios de sebo.

A parte pobre, imoral
a antissacralidade do Renascimento.

tudo que é bonito vem da recusa.

Alberto.















Os Trapaceiros - Caravaggio - 1594

4 de set de 2012

Palestra – O Curso de Filosofia


   A Filosofia é o centro de várias discussões e incertezas há mais de 2500 anos. Muito se busca dentro da filosofia, principalmente respostas para os dilemas do ser humano. Todo iniciado na arte do filosofar busca a verdade. Durante a história, um número razoável de pessoas se empenharam em descobrir verdades sobre o mundo e sobre o próprio pensamento. Na maioria das vezes, essas verdades são contraditas por outras verdades, e há até mesmo aqueles que tomam como verdade o fato de não haverem verdades. Enfim, esse embate inconclusivo e não resolvido até hoje, voltado puramente para o pensamento é chamado de filosofia. Toda filosofia se contrapõe à anterior em algum aspecto, e essa discordância é que faz com que a razão humana evolua juntamente com o seu tempo. Esse diagnóstico do próprio tempo normalmente vem logo após esse tempo já ter passado. Sobre a lentidão da filosofia, cito a bela metáfora de Hegel: “A coruja de Minerva alça seu voo somente com o início do crepúsculo”. Minerva é a deusa romana do conhecimento; logo, o diagnóstico dos fatos pela filosofia é tardio; mas há doutrinas filosóficas que se antecipam ao seu tempo, e apenas são compreendidas décadas ou até séculos depois.
   Pois bem, todas essas contradições (há contradições em todos os ramos da filosofia, inclusive nas divisões da própria filosofia) tornam tal disciplina ao mesmo tempo obscura e magnífica. Mesmo com o esforço de Kant e Descartes em serem muito claros, a própria clareza e distinção dos conceitos foi colocada em contradição no decorrer da história da filosofia. Isso parece um pouco assustador, eu sei. Os textos densos e de difícil leitura, muitas vezes inconclusivos, afastam o grande público do interesse filosófico, que acaba ficando restrito a um grupo de escolhidos, iluminados ou corajosos.
   Nessa apresentação, vamos derrubar vários tabus da filosofia, e perceberemos que ela não é tão assustadora nem tão inacessível quanto parece. Isso não quer dizer que seja fácil estudar filosofia; e essa dificuldade é válida sempre que percebemos o quão perto está a filosofia do nosso dia a dia. O roteiro da apresentação será formulado por questões pertinentes à filosofia, para com isso aproximar os conceitos e os autores das pessoas que nunca mergulham a fundo no pensamento racional para tentar entender a realidade. Mostraremos também a importância das contradições. Nesse quesito, darei vários pareceres meus sobre os temas. A maioria deles encontrará oposição, e nada impede que vocês depois busquem argumentos contrários. Ficará claro a importância de tomar partido, escolher um lado sempre. E, como eu sei que vocês não vão ler os autores, já que nosso sistema educacional não permite leituras alternativas à alienação do estudo para o vestibular - e eu sei que vocês querem passar no vestibular – indicarei filmes que tratam de temas filosóficos frequentes. Porque se vocês não assistirem nem filme, aí fica complicado!

O que é Filosofia?
   Primeiramente: não acredito em resumos de filosofia. Realmente, os filósofos, em seus livros gigantescos, tentam explicar o mundo da forma mais clara e concisa possível. E, ainda assim, o mundo é mais complexo que esses livros. Por isso, respostas e teorias prontas em livretinhos de resumo são pouco confiáveis. Nunca encontrei nenhuma resposta convincente para a pergunta “o que é filosofia?”. Aliás, se fosse tão fácil assim concluir alguma certeza sobre a natureza específica da Filosofia, ela não teria razão para ser. Em breve, vocês entenderão o porquê o fato dessa resposta não ser evidente é primordial à construção da filosofia. Pois bem.
   Fui apanhando as ideias com que tive contato, e formulando meu conceito subjetivo. Para mim, a filosofia é a utilização da razão para “enxergar” a realidade. A realidade depende das contradições, das quais falaremos atentamente mais à frente. É impossível definir qualquer coisa no âmbito da filosofia sem tomar partido e arcar com as consequências. Nessa minha definição, acredito ter sido vago demais para que haja alguma oposição, a não ser a de ter sido vago demais.
   Pois bem, definindo então a filosofia como o utilizar da razão para enxergar a realidade, entramos numa das belezas da filosofia: a de ver o mundo de outra forma. Esse processo de conhecer várias visões de mundo sensatas e pertinentes colocadas pelos filósofos faz com que olhemos o mundo e a nós mesmos muito mais amplamente, de modo detalhado. Isso se dá pelo fato do interessado pela filosofia estar sempre procurando. Procurando o quê? As verdades. Essa incansável busca faz com que vejamos o mundo mais atentamente, buscando os segredos que podem ser traduzidos em verdades a cada canto. Como vocês devem ter já percebido, a filosofia pressupõe uma reconstrução intelectual a cada momento. Essa reconstrução é providencialmente importante, e mais ainda quando livre de preconceitos, sempre deixando espaço para uma próxima reconstrução. Assim, a filosofia pode ser um instrumento para a ampliação dos horizontes, e desse modo, para a emancipação do ser humano que é preso em sua medíocre realidade social. A filosofia é um caminho sem volta: mesmo os mais decepcionados não conseguem retornar à realidade em que viviam antes de tomar contato com a filosofia. Bom, sobre essa nova realidade que a filosofia proporciona, indico o filme “O Mundo de Sofia” (Erik Gustavson, 1999). O livro é meio longo, e o filme é muito bom. Continuemos.

Para quê filosofia?
   A filosofia serve de fundamentação teórica para todas as outras áreas do saber. Toda ação humana pressupõe uma tomada de partido no âmbito da filosofia, mesmo que sem saber. Qualquer ação tem uma ideologia por trás. Vocês estão todos aqui, me ouvindo, querendo saber algo a mais, muito curiosos (eu acho). O próprio fato da não satisfação com o próprio conhecimento é uma atitude filosófica, de quem busca o saber. A filosofia está muito mais próxima de nós do que parece quando não entendemos meia linha dum livro de Kant. Um exemplo claro da tomada de partido no âmbito filosófico para ações comuns do dia a dia é o fato de julgar alguém, quem quer que seja, por alguma possível falha cometida. Se o julgamos, pressupõe-se que existe liberdade, já que se não existisse, não haveria motivo em recrimina-lo. Isso é uma tomada de partido. Mas será que realmente existe liberdade?

É possível uma filosofia sem oposições, sem contradições?
   Não é possível. Começarei com um exemplo bem claro formulado por Kant, partindo da questão deixada em aberto: será que realmente existe liberdade? Bom, eu me levantei da cadeira agora. Por quê? Me levantei simplesmente por quê eu quis, ou por quê fui forçado a dar o exemplo? Tomar partido na resposta para essa pergunta gera um enorme desenrolar com consequências importantes.
   Suponhamos, primeiro, que eu me levantei porque quis. Todos nós somos livres, e Deus não existe! Deixemos isso então mais claro e menos assustador: se eu me levantei da cadeira porque eu quis, eu fui livre para assim fazer. Se fui livre, não existe uma causa primeira de toda as coisas, um motor imóvel, já que não houve um encadeamento de causas e efeitos que me fizeram agir de tal forma. Logo, é inconcebível à razão humana não pensar de modo causal, abolindo a lei da causa e efeito, para pensar num universo eterno e que nunca teve um início, com todos os fenômenos sendo eventuais e desnecessários. Nossa existência, então, seria um mero acaso.
   Por outro lado, tomando partido de que eu me levantei porque fui forçado a dar o exemplo para vocês; pois bem, não existe liberdade e não existe pecado! Pensem no que essa conclusão pode gerar: há uma causa primeira de todas as coisas, que inicia a cadeia causal, da qual fazemos parte. Assim, todas as nossas ações são determinadas. Se nossas ações são determinadas, não existe razão para julgar alguém, já que não existe o erro, a culpa do indivíduo. Nesse ponto de vista, não existiria o Direito. Porém, é também inconcebível à razão humana pensar na causa duma causa primeira, já que tudo tem uma causa e, no caso desse motor inicial, comumente chamado de Deus, não poderia ter surgido do nada, já que nada surge do nada.
   Essas duas conclusões distintas, tiradas de um simples levantar da cadeira, demonstram como a filosofia está próxima de nós, e de como essa tomada de partido tem influências sociais e políticas em nossas vidas. Sobre a importância dessa questão, assistam ao filme “Os Irmãos Karamazov” (Richard Brooks, 1958), já que dificilmente lerão a obra de Dostoiévski. As duas posições são diferentes, válidas e inconcebíveis à razão humana. Como sair disso? Como viver sem essa resposta?
   Mais uma dessas chocantes contradições, então, para afirmar a importância do caráter da contradição na filosofia. Formulemos o problema da mutabilidade e da imutabilidade do ser, originado no início da história da filosofia, com os pré-socráticos. Se considerarmos que existe uma essência, que é imutável, um presidiário, quando solto, não se arrependeria de seus crimes, pois a essência é definitiva. Já partindo do pressuposto de que tudo muda, o mesmo presidiário poderia sim se arrepender, mas aí já não seria o mesmo, pois o caráter de identidade pressupõe uma essência imutável, que não se transforma. Como saímos desse dilema? Quando Renato Russo canta “tudo passa, tudo passará” em “Metal Contra as Nuvens”, ele toma partido de que nada permanece, tudo se transforma. Viram como essas questões são próximas de nós?
   Porém, nem tudo está perdido. Partindo da perspectiva do filósofo alemão Hegel, a filosofia culmina no estado racional de seu tempo. Logo, a história da filosofia é a história da maturação dos conceitos, que evolui juntamente com a humanidade e o mundo. Não há motivos para buscar em Platão repostas para problemas atuais, porque os problemas não são os mesmos, e a filosofia também não. Por isso, parto da vertente de que a filosofia pensa a si própria e ao mundo em geral dentro de seu tempo e de seus problemas.
   O conflito colocado por Kant sobre a liberdade gerou discussão, pensamento, filosofias. Desconheço alguma que tenha resolvido o problema de modo claro e distinto, sem oposições. O conflito entre mutável e imutável, dos pré-socráticos, perdura até hoje. Mas o puro pensar nas questões fez com que a filosofia evoluísse, se transformasse, criasse novos conceitos, pensasse melhor em seu próprio tempo. É por isso que as contradições são necessárias à evolução humana. Se as verdades fossem tão evidentes em questões complexas como essa, não haveria o porquê pensar o pensamento puro. Assim, aquela busca incansável de que falamos no início não teria mais o motivo pra existir. Sem essa busca, estaríamos no fim da história, estagnados no nosso estado pífio e ridículo de evolução. São as tentativas de resolver as contradições e os problemas que fazem com que o homem evolua, juntamente com a sociedade em que vive. Não haveria filosofia, nem humanidade, sem contradições pendentes.

Por quê pensamento oriental não é filosofia?
   Partamos então para questões mais específicas. A filosofia tem por particularidade o rigor dos conceitos. Se mesmo sendo rigorosos, os filósofos se opõem, se não fosse esse rigor sistemático para com seus escritos, seria tudo uma conversa de bar. E é essa singularidade racional e ocidental, originada nos gregos, que diferencia a filosofia do pensamento oriental, por exemplo. Os chineses podem ter pensamentos tão profundos ou mais do que a filosofia, e muitas vezes mais sábios, mas não há o mesmo rigor conceitual. Podem haver filósofos japoneses, mas que pensam filosoficamente e não seguem a tradição do pensamento oriental. Isso não tira o dever de se conhecer o pensamento oriental: há muita coisa lá que o mundo ocidental não leva em consideração. Além disso, não se pode generalizar o pensamento oriental numa mesma forma: cada corrente tem sua singularidade, como cada filosofia tem sua particularidade. Há muito de lá que originou muita coisa por aqui.

O quê a filosofia tem a ver com a arte?
   Pois bem, com as várias indicações de filmes, é perceptível que a filosofia tem uma relação muito próxima com as artes. Na minha concepção, as artes muitas vezes servem como uma linguagem filosófica muito mais eficaz e de maior amplitude do que tratados complexos, densos e de difícil compreensão para o grande público. A já citada metáfora da coruja de Minerva pode ser, pela arte, invertida; no âmbito da estética – área da filosofia que se ocupa com a relação da mesma com as artes em geral – a coruja alçaria seu voo ao alvorecer, com o nascer do sol. Por essa eficácia, a arte é sim uma linguagem que pode ser usada pela filosofia, analisada pela filosofia, filosófica em si mesma. A música de um tempo é reflexo da sociedade, dos valores, das filosofias desse tempo. E assim com todas as artes. Para afirmar o que digo, sobre a total importância da arte como instrumento singular da filosofia numa sociedade, vejam o filme “O Sétimo Selo” (Ingmar Bergman, 1957).

A filosofia tem algo a ver com a religião?
   Tem sim. Existem filosofias dogmáticas. Dogmáticas quer dizer que partem de pressupostos que não são comprovados racionalmente e de modo claro e científico. Por exemplo, as filosofias de Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Leibniz e Pascal têm o Deus cristão presente como o criador do mundo. Pois bem, nem por isso essas filosofias devem perder o crédito. Elas foram o esforço das épocas em racionalizar a revelação divina, a religião, em tentar explicar o próprio dogma. Isso foi um avanço, que se não tivesse ocorrido, ainda viveríamos numa era de maior misticismo. E a opção pela filosofia, então, seria apenas para um pequeno grupo de iluminados.
   O filósofo francês René Descartes, um bom cristão, diz que todo homem com dedicação pode conhecer as verdades do mundo, seja ele um sábio ou um leigo. É tudo uma questão de método. A importância dessa colocação foi tirar a filosofia do domínio clerical e abrir a possibilidade do povo poder filosofar, pensar por si mesmo, emancipar-se da tutela do Estado e da Igreja. A obra de Descartes é revolucionária. Um perigo para o Estado vigente, pois o esclarecimento não tem retorno. Isso deixa claro o porquê da resistência de alguns governos contra o ensino da filosofia no ensino médio. O poder de emancipação política da filosofia não tem precedentes. Para ilustrar a relação, por vezes tensa, entre filosofia e religião, sugiro o filme “O Nome da Rosa” (Jean-Jacques Annaud, 1986).

O que torna alguém filósofo?
   Eis aí outra questão muito polêmica. Acredito eu que, para ser filósofo, o intelectual deve inaugurar uma nova corrente conceitual que seja relevante na história da filosofia. Para isso, claramente, se deve conhecer a fundo a história da filosofia, e ao mesmo tempo pensar o mundo contemporâneo, nessa flutuação entre os autores clássicos e o diagnóstico da atualidade e a relação com filósofos contemporâneos. Ler os textos clássicos exige um exercício de razão que colabora para pensarmos o mundo hoje. Enfim: essa nova corrente “criada” pode unir conceitos velhos numa organização diferente dentro dum sistema, ou simplesmente abordar rigorosamente velhas filosofias e, a partir delas, se opor e construir uma nova. Aí está a diferença entre quem estuda filosofia e quem é filósofo, e essa divisão também é polêmica. Porém, como já foi dito, estamos sempre tomando partido. Como já disse no início, minhas conclusões encontram oposições. Por isso, é sempre importante conhecer outras interpretações. Bom, continuemos.
   A originalidade se dá pela disposição dos conceitos dentro do sistema, já que não existe autor inédito de nada. As filosofias estão abertas ás interpretações dos leitores. Isso nos prova esse trecho de um poema sem título de Alberto Caeiro:
Da mais alta janela da minha casa 
Com um lenço branco digo adeus 
Aos meus versos que partem para a Humanidade.
E não estou alegre nem triste. 
Esse é o destino dos versos. 
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos 
Porque não posso fazer o contrário 
Como a flor não pode esconder a cor, 
Nem o rio esconder que corre, 
Nem a árvore esconder que dá fruto. 
   Viram como a arte da poesia pode ser também ela filosófica?
   Enfim, o que não faltam são filmes biográficos dos filósofos. Para quem quiser tomar um primeiro contato, mesmo que superficial, para com o filósofo, através de sua biografia, não faltam recomendações.
Santo Agostinho, Sócrates, Descartes e Pascal – Roberto Rosselini
Espinosa, o apóstolo da razão (Christopher Spencer, 1994)
Wittgenstein – (Derek Jarman, 1993)
Dias de Nietzsche em Turim (Julio Bressane, 2001)
Alexandria (Alejandro Amenábar, 2009)
   Essas são apenas algumas das quais me lembrei enquanto escrevia esse texto. Há muito mais.

É verdade que os filósofos eram arrogantes?
   Primeiramente: as pessoas tem mania de achar que os estudantes de filosofia já leram tudo. Não. Essa palestra, aliás, é baseada no pouco que eu li no curso até agora, e nos demais contatos que tive. Nunca li Nietzsche, por exemplo, e sempre foi indagado sobre questões nietzschianas. Quando ler, poderei falar com propriedade.
   Enfim, de fato. Eram arrogantes os filósofos, e os são os que estudam filosofia. Isso se dá pelo fato das pessoas que têm contato direto com a filosofia acadêmica estarem sempre distantes do senso comum. Infelizmente, o senso comum sempre fica no âmbito da mera opinião. São respeitadas as opiniões, nunca as convicções. Quem afirma qualquer coisa é arrogante. O estudante de filosofia que diagnostica qualquer fato que ocorre na sociedade, de modo muito bem argumentado, é taxado de arrogante pelo senso comum. A retórica, a arte do bem falar e do bem argumentar, gera repugnância dentro da esfera pública leiga. Não, nada disso é arrogância de fato.
   A arrogância, aquela que não devemos aceitar, é de uma outra natureza. O curso de filosofia realmente dá ao estudante uma alta erudição, um profundo conhecimento de muitas coisas. E ah, é comum o estudante de filosofia saber nomes de livros que nunca lerá! O fato da arrogância estar presente não é por uma boa retórica, ou um diagnóstico preciso que extrapole a esfera da mera opinião, o máximo dentro do senso comum. A arrogância acontece quando se considera o aprendizado da filosofia apenas nela mesma, na mera erudição, sem objetivos formais. Essa nutrição do próprio ego, por estar estudando algo difícil e distante da maioria das pessoas, faz com que algumas pessoas que estudam filosofia não tenham um objetivo maior a não ser adquirirem mais conhecimento erudito, às vezes um status de sábio. Esse status, muitas vezes, é garantido por espetáculos sobre os livros que nunca leram. Acredito eu que, se não houver um objetivo maior, é tudo vaidade. A filosofia por ela mesma não faz sentido algum. O conhecimento que não é compartilhado não serve pra nada. A imagem do doutor do conhecimento, do tutor, isso sim é arrogância, isso sim deveria gerar repúdio.
   Falando em doutores, vou expor rapidamente a estrutura do curso de filosofia da Universidade de São Paulo, um pouco de sua história e dos seus doutores, alguns arrogantes, outros longe disso.

O curso de Filosofia da Universidade de São Paulo
   A filosofia da USP surgiu juntamente com a Universidade de Filosofia, Letras e Ciências em 1934, fundada pela elite cafeeira paulista que, falida após o golpe de Getúlio Vargas, que acabou com a política de café com leite e derrotou a revolta armada dos paulistas em 1932, resolveu investir numa universidade, a fim de retomar o poder de modo ideológico. Os primeiros professores eram estrangeiros, e no curso de Filosofia, a hegemonia foi dos franceses. A intenção da elite agrária paulista deu errado: os novos cursos formavam profissionais críticos, distantes dos ideais elitistas.
   A universidade floresceu heroicamente, e começaram a se formar os primeiros professores de filosofia brasileiros. Passado um tempo, em 1968, a ditadura militar finalmente lançou sua repressão ao curso de filosofia: a batalha entre a USP (contrária a ditadura) e o Mackenzie (a favor dos militares), conflito no qual houve uma morte, fez com que a USP tivesse que se mudar do centro de São Paulo para um bairro periférico, o Butantã. Há um filme brasileiro, “Batismo de Sangue” (Helvécio Ratton, 2007), que retrata a vida e a morte, em razão das torturas instauradas pelos porcos da ditadura, de Frei Tito Alencar, estudante de filosofia da USP pouco antes da Batalha da Maria Antônia (nome com o qual ficou conhecida a guerra campal, na rua Maria Antônia, que abrigava os prédios do Mackenzie e da USP). Vários dos professores daquela época foram aposentados de modo compulsório pela ditadura. Um deles, o estudioso de Rousseau Luiz Roberto Salinas Fortes, morreu em detrimento de torturas que sofreu nas mãos dos militares. O medo tomava conta da filosofia. O curso, então, teve que se reconstruir. O modo crítico como se abordavam os temas ficou um pouco de lado.
   O Butantã era distante da efervescência cultural de São Paulo. O próprio prédio não oferecia uma estrutura necessária. O prédio é provisório há 40 anos, ou seja, a falta de estrutura física perdura até hoje. Depois da ditadura, houve uma nova estruturação crítica, e os resultados vieram. Hoje em dia, o curso de Filosofia da Universidade de São Paulo, apesar de não ter o mesmo brilho de outrora, ainda é um dos melhores do mundo. É o lugar onde mais se pensa (e se faz) filosofia no Brasil. A influência do Departamento de Filosofia na política brasileira, por exemplo, é enorme. Intelectuais como Marilena Chauí, José Arthur Gianotti, Vladmir Safatle e Paulo Arantes, isso para citar só alguns, todos eles professores do departamento, estão sempre no cenário político nacional, uns de um lado, outros do outro.
   A estrutura do curso é hegemonicamente a de leituras estruturais dos textos clássicos, linha por linha. Esse desgastante exercício de leitura mostrou-se eficaz na produção de filosofia que se faz na USP. Porém, como já disse, não se pode deixar de pensar o contemporâneo e ficar preso apenas a um Leibniz do século 17. Esse anacronismo, por vezes, ocorre entre alguns pesquisadores.
   O diferencial do curso da USP para o de outras universidades é o fato do calouro ingressar no curso já tendo contato com textos extremamente densos. O curso preza pela emancipação do aluno, para que possa, após a graduação, ler os textos por si próprio, sem a ajuda dos professores. Assim, não é possível ler, em 5 anos, todos os textos importantes da história da filosofia. Pode-se dizer que se aprende a ler na graduação em filosofia. Muitos filósofos não são abordados no curso, e fica por conta do interesse do graduando a busca desses textos.
   A ausência duma introdução mais leve, de uma mão amiga, faz com que o índice de desistência seja alto. Com o aumento do número de vagas, o curso tornou-se um pouco menos elitizado. Porém, ainda assim, há alguns contratempos para os quais nem todos os alunos estão preparados, como bibliografias em diversos idiomas, e a carga de leitura ser uma das maiores de toda a USP. Pior: além de ser uma das maiores, demora-se mais tempo pra ler, pois os textos exigem paciência para a compreensão dos conceitos. E já foi bem pior, quando haviam ainda menos obras traduzidas para o português do que hoje em dia.
   As matérias que o aluno de filosofia tem o direito de cursar podem ser sobre um determinado conceito, uma época história, um autor ou uma área da filosofia. Exemplos de matérias são Estética, História da Filosofia Moderna, Ética e Filosofia Política, Filosofia da Ciência, além de ser permitido ao aluno cursar disciplinas em outros institutos, a fim de fornecer uma formação mais pluralizada. As matérias têm a duração de 6 meses. Recomenda-se que o aluno não exagere no número de disciplinas cursadas por semestre, para ter tempo de se dedicar a leitura atenta dos textos e frequentar o cenário cultural, que é tão importante quanto os livros. A formação em Filosofia permite o trabalho como professor de ensino fundamental e médio. Com pós-graduação, pode-se dar aulas em universidades. A docência é o único caminho certo do curso de filosofia. Já entre os caminhos prováveis, pode-se seguir carreira como roteirista de cinema, jornalista, crítico de arte, curador de exposições, literato e muitas outras profissões relacionadas. Tudo depende muito da área de interesse do profissional dentro da filosofia.

Por fim: a filosofia pode ser um instrumento para um mundo melhor?
Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
   Assim começa o poema “Tabacaria”, de Álvaro de Campos. É assim que eu vejo as coisas. Tenho meus sonhos. Os três primeiros versos falam exatamente do processo de reconstrução contínua do indivíduo.  O quarto verso, conclui que essa reconstrução tem, intrínseca, em si mesma, alguns desejos, alguns sonhos. Eu tenho um desejo, um sonho: a filosofia com um objetivo, que é o de um mundo melhor. Eu busco as verdades, incansavelmente, visando esse ideal. Na verdade, a filosofia é um instrumento para um mundo melhor. Tudo que fica fora disso, a erudição por ela mesma, é tudo uma mera nutrição de ego, vaidade. Pensar o mundo, e pensar a própria razão, sem ter em vista uma sociedade mais justa, mais humana, um mundo mais sustentável, é fazer com que a filosofia não sirva para absolutamente nada. Essa ação prática do conhecimento teórico é que dá razão de ser à filosofia.
   Além de tudo, para um mundo melhor, é necessário que haja uma filosofia que fundamente teoricamente esse ideal. Repito: devemos tomar partido sempre, e tomar partido em qualquer situação, é tomar partido filosoficamente. O intelectual deve escolher se sua filosofia é para quem é oprimido ou para quem oprime. Não existe meio termo. A indiferença é do partido dos opressores. A luta de classes existe, pode até não ser totalmente determinante, mas o é em grande parte. O maniqueísmo é ingênuo, e separar a sociedade em duas classes distintas também. Sabemos que o século XXI é muito mais complexo do que isso. Porém, a situação econômica e material tem sim influência direta no desenvolvimento intelectual do ser humano. Os meus estudos de filosofia estão do lado de quem pouco tem. Eu tomei meu partido, e a filosofia é meu instrumento. O objeto é o mundo, o objetivo: um mundo melhor.
   Encerro aqui, citando um trecho da canção que melhor representa meu ideal. A indiferença, aparente nessa música, é uma mera ironia de um gênio do samba brasileiro. “Filosofia”, de Noel Rosa.
Não me incomodo que você me diga 
Que a sociedade é minha, inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo.
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia.
 
   Todos devemos tomar partido. Não existe indiferença. Obrigado.

Alberto Sartorelli, 18, estudante de graduação em Filosofia na Universidade de São Paulo.