25 de out de 2012

Valsa da dor, de Villa Lobos, letra encaixável em alguns dos trechos repetidos, sem revisão gramatical nem adequação musical perfeita

Eu sei
Eu sei
Eu sei que seu amor é frio
Eu já vi chegar
Meu coração
Saudade então
Se esquece
Fenece
Amadurece

Eu sei que tudo isso já foi passado
Mas não lamento pelo ido
Não posso chorar mais
Não posso chorar mais com isso
Não posso, não posso
Fenece, esquece, remete
Não tenho mais o que chorar por isso
Não Não

Entristeceu
Meu eu
Sua paixão
Foi encontrar
A prece
Deixou-me aqui
Sem chão
Sem ar
De respirar
Que enlouquece
Na chuva
Que não enxuga

Já foi feliz
Naquela estação
Até partir
Envelhece

Acorda então
Sem mais por vir
Cai no lençol
Adormece
Se desfalece
É a morte
Ele não teve sorte.

Otimismo

Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que pode falar
Feliz aquele que pode falar

Que o samba é alegria no peito
Mesmo triste, eu me deleito
Quando a Maria quer sambar
Ôláiá

Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que pode falar
Feliz aquele que pode falar

Que o samba é o ritmo do povo
Ainda mais quando é algo novo
Que o samba tem para cantar
Ôláiá

A alegria do samba não morre não
Não, não não
Mesmo quando tudo é televisão
Não, não não
A alma do samba é ser diferente
Levar a nossa gente de repente
Para o tão sonhado ideal de nação
Da multidão!
Sem dominação!

Quem faz o nosso samba tem que tá engajado
E perfumado!
Mesmo tendo pouca oportunidade
Que saudade!

Que o samba é alegria no peito
Mesmo triste, eu me deleito
Quando a Maria quer sambar
Ôláiá

Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que não vai esquecer
Feliz aquele que pode falar
Feliz aquele que pode falar

Que o samba é o ritmo do povo
Ainda mais quando é algo novo
Que o samba tem para cantar
Ôláiá


A alegria do samba não morre não
Não, não não
Mesmo quando tudo é televisão
Não, não não
A alma do samba é ser diferente
Levar a nossa gente de repente
Para o tão sonhado ideal de nação
Da multidão!
Sem dominação!

Fazer samba hoje é fazer revolução
Atenção!
Atenção!

A arte brasileira não vai ruir
Resistir!
Resistir!
Insistir!

Um belo vá pro diabo pra indústria cultural desse país
A exceção vai continuar.


Alberto.

22 de out de 2012


   Quase uma poética teatral, a garota de vestido vermelho com bolinhas roxas, meia grande e preta, allstar branco, cabelo curto e loiro, com uma franja tímida.
   Pega o ônibus na periferia, onde mora com os pais numa casa de tamanho médio. Sexta à noite, dia de sair, tomar cerveja, fumar cigarro e conhecer gente nova.
   A espera pelo ônibus no ponto fora demorada, ao som de rap por parte de um dos rapazes que buscava não se entediar. No ônibus, tocava bem alto a balada do momento, no celular de alguma menina, também saindo de casa sexta à noite, mas que não iria para o mesmo lugar da nossa garota.
   Chega ao destino, o centro. Os prédios, os apartamentos, os bares, os cafés. A vontade de morar ali. Mas percebe nossa garota, o que já havia há muito notado, mas racionalizado apenas agora; percebe ela como o espaço público é pequeno, quase inexistente, como o desejo de posse ultrapassa o senso de coletividade e integração.
   E as luzes e os grandes edifícios e os bares e os carros e os cafés e as mulheres e as roupas e os rapazes que não ouvem rap. No final das contas, é lá que ela queria estar. Queria ter dinheiro para estar lá toda hora.
   Cena de filme. A menina sentada no banco balançante do ônibus, um cara ouvindo rap, uma menina ouve o som do momento, e ela fechada nela mesma, tentando manter-se com pensamentos firmes. Na impossibilidade do solipsismo natural, põe um fone de ouvido para ouvir Bjork, naquele trajeto lento, em contrapartida à sua vontade incessante de logo chegar.
   À espera das luzes e os grandes edifícios e os bares e os carros e os cafés e as mulheres e as roupas e os intelectuais e os rapazes que não ouvem rap. A estética capitalista é o fundamento do sistema.

   Madrugada de domingo. Todas as ideias, em correntes, perpassam meu eu numa espécie de fluxo contínuo idealista, vai-vem inesgotável e refutado firmemente por vários eixos de mim mesmo. Nem assim para conter a maré bem sucedida de filosofias interagindo umas com as outras, ideal fenomenológico de diálogo. E não me decido.
   Nas madrugadas de domingo, ao som de Villa Lobos, me dói a pluralidade de possibilidades sólidas que posso adentrar num movimento intelecto-cultural duradouro. Não me decido, não escolho. Arte como fim ou como meio? Sensação empírica ou pura intelecção? Delírio quase onírico de transformação social?
   Contradição. Difícil sustentar um sistema de pensamento coerente. Donde partir?
   E as possibilidades que por mim transcorrem líricas, diferentes, não pego nenhuma.
   Entre os dobramentos de conceito – não sei, gosto muito da expressão “dobrar conceitos” – a prática vai revelando sua impossibilidade de vir a ser. No mergulho profundo em busca do conceito puro, da verdade que é, na garantia discursiva de tal achado precioso, nada para além de si mesmo o conceito.
   As ideias são solipsistas enquanto não vem a ser prática no devir. No processo de dobramento, de imersão conceitual, poucas vezes se volta para a execução de verdades.
   Verdade não é verdade enquanto não é executada. Continuo partindo do sujeito como ponto de partida, intérprete e organizador original do conhecimento. Para a verdade ser verdade, temos de sair de nós mesmos e nos entregarmos à realidade, saio de mim ao encontro de mim mesmo. Relação eu-mundo, parte-todo, panteísmo comunista.
   Madrugada de domingo. Pensamentos ainda pouco organizados, processo relatado. Delírio ontológico.

9 de out de 2012

emanação

Então sai de mim a luz idealista
a que emana, de dentro para fora
pois aquela ideia do homem que em outrora
digo que era em si, e agora rabisca.

Do rabisco do homem que é para si
vejo a conscientização de mim mesmo
sóbrio na realidade, logo vi
o meu eu, vagando no mundo a esmo.

Perseguia- o de maneira voraz
nas altas masmorras do pensamento
e o encontrei, ele estava em pranto.

Cansado de si mesmo, agora faz
um escrito que expõe o seu lamento
para nós, ele mesmo que quer tanto.

Para si, para o outro, para nós
para ser eu mesmo, saio de mim.

E mesmo que estivéssemos a sós
é o todo que devemos ter por fim.

Se o eu fosse pra nós, elevar-se-ia.

Para além da mera filosofia.


Alberto.

6 de out de 2012

poesia sem metáfora

Carpe de sol a sol
Na lavoura, latifúndio
Nem descansar no paiol
Pode o pobre imundo.

Tem de carpir todo o pasto
Onde só as vacas comem
Ó que destino nefasto
Está sem comida o homem.

Mas esse homem rural
O que produz a comida
No sertão do arraial
Padece com sua ferida.

Ferida feita na roça
A de ver seu alimento
Fugindo para a carroça
Sua fome grita um lamento...
...ensurdecedor que acorda toda a colônia, que logo volta a dormir, pois sabem que logo será a vez deles de não acordarem mais. Querem mudar essa realidade fatalista, mas suas enxadas não podem com as espingardas dos administradores. E essa é a história de um bem sucedido latifúndio, a história que Eça de Queirós não quis contar, e teve de fazê-lo João Cabral de Melo Neto. Nalguns temas, a metaforização da arte é quase ela mesma a realidade.

Alberto.