28 de jan de 2013

Poesia de esgoto

Na vontade de fazer canção
Eu acabo fazendo poesia
Mesmo que sem a mesma maestria
Que uma música para violão.

Não tem mais poesia recitada
Aquelas para falar bem alto
Nem a tal rima metrificada
Para deixar o verso entoado.

Pois a poesia ficou tão livre
Que então não mais canta nem mais rima
E o resultado da sua má sina
É que ela tem ficado triste.

Não triste por falar de tristeza
Triste de não falar coisa alguma
Antes era choro ou proeza
Hoje poesia é coisa nenhuma.

Acabou a revolta versada
Os homéricos porres de vinho
Poesia hoje é inanimada
Perdeu a si mesma no caminho.

Só resta a linguagem.
Metalinguagem.


Alberto

14 de jan de 2013

Retrato Calado – Uma filosofia no limite

Retrato Calado – Uma filosofia no limite

     Luiz Roberto Salinas Fortes foi um profundo conhecedor da condição humana. Na teoria e na prática. Um dos poucos filósofos que realmente conheceram a condição humana. O conceito verificado, no limite entre a metafísica e sua antítese, o mundo real. Entre as conclusões advindas da experiência objetiva e da convicção filosófica, o conceito: condição de mim mesmo. Seria válido universalizar a condição de si mesmo à condição humana? Salinas conhecia, empiricamente, o eu e o outro. Conhecia amplamente as capacidades do ser humano. Não para o bem ou para o mal, pois que seria a moral nesta dada condição?
     Nem herói, nem vilão; nem fraco, nem gênio; um sábio. A memória escrita de Salinas é uma demonstração de profunda sabedoria. O menino de Araraquara que foi para São Paulo estudar Direito no Largo São Francisco se transformara então num sábio. No entanto, nada é gratuito. Salinas não seria Salinas sem a tortura. Não conheceria a si e ao outro. Não teria oferecido um dos mais belos relatos sobre os tempos sombrios que assolaram nossas terras entre a deposição de Goulart e a redemocratização do país. Também não teria morrido precocemente aos 50 anos de idade. Antônio Cândido, sobre isso, nos diz: “Luiz Roberto parecia haver-se finalmente conciliado consigo mesmo. Mas, ironicamente, a recompensa do longo esforço para se encontrar foi a morte[1]”. Nada é gratuito, nem a sabedoria.
     Salinas foi um dos maiores estudiosos de Rousseau em língua portuguesa.  Suas obras são presença constante nos cursos sobre o autor iluminista. Foi um exímio acadêmico, pós-graduado na França e professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo. Segundo sua colega de departamento Marilena Chauí, Salinas era tímido, esquecido, talentoso e muito, muito bonito. “Certamente um dos homens mais bonitos que eu já vi na vida, se não o mais bonito” disse Marilena, se bem me lembro com essas mesmas palavras, numa das homenagens a Salinas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, em 2012. Foi galã nas primeiras peças de José Celso Martinez Corrêa no Teatro Oficina, ainda quando ambos os amigos-conterrâneos eram estudantes da Faculdade de Direito. Esse Salinas já seria expoente de admiração. Mas é mais, muito mais.
     Luiz Roberto sempre teve uma leitura militante de Rousseau. Era contestador, claro, da situação política do país. A própria Faculdade de Filosofia, na qual se formara, havia sido incendiada pelos membros mackenzistas do Comando de Caça aos Comunistas, tendo que transferir as instalações para o não tão próximo bairro do Butantã. Mas Salinas nunca foi um guerrilheiro. Ele viu a cassação e exílio de colegas de departamento e o desaparecimento de alunos. A resistência era ideológica, porém amedrontada, calada.
     Retrato Calado é dividido em três partes: Cena Primitiva, Suores Noturnos e Repetição. A primeira disserta sobre as duas primeiras prisões de Salinas. A segunda é um compilado de anotações do diário pessoal do autor durante sua época de estudante de Direito. A terceira relata, por fim, as duas posteriores prisões de Salinas.
     Deixemos Salinas falar. Este homem, calado, descobriu os limites da contestação lógico-argumentativa na realidade política e militar. “E eu, catatônico, arremessado de repente em meio ao inferno, transferido de súbito para esta dimensão nova onde tudo se passa velozmente, embora dure uma eternidade e embora se propague pela eternidade afora[2]. Assim foi sua primeira prisão, na qual passaria pelo pau de arara. Aí Salinas começava a morrer, mas também a entender a lógica daquele sistema vil. Havia uma lógica, é claro que havia. Racionalidade aguçada em favor da dominação ideológica. Poucos entenderam essa lógica tão bem quanto Salinas, em meio a gritos e sussurros na máquina inquisidora de tortura do governo oficial brasileiro.  “Os herdeiros de Trasímaco, filósofos de um novo tipo, fazem funcionar, de maneira até então insuspeitada pela nossa ingenuidade, apesar dos compêndios marxistas devorados, os torpes mecanismos do poder[3]”.
     Trasímaco é um personagem dos diálogos platônicos em A República, objetor de Sócrates perante o conceito de justiça e que, percebendo a superioridade de Sócrates na argumentação, o ataca num furor de raiva e impotência. Mas Trasímaco não era tão fraco e impotente quanto nos parece.

Não é apenas o personagem que introduz a objeção fundamental, negando radicalmente a justiça como valor. Na sua própria individualidade, pela violência das suas maneiras, pela irritação diante do jogo socrático, também nega a virtude do diálogo, contesta e resiste ao uso da linguagem como instrumento do conhecimento, como veículo capaz de nos conduzir, segundo procedimentos precisos e através de etapas rigorosamente definidas, até a contemplação das essências. Não se limita a definir as relações entre os homens, vivendo no interior de uma comunidade, como puras relações de força, mas comporta-se como se toda comunicação através da linguagem não passasse de simples exteriorização do confronto entre vontades de potências adversas[4].

     Essa passagem afirma Retrato Calado como um livro que flutua entre a literatura e a filosofia. Como realizar tão fina análise sobre seu próprio torturador? Como abstrair do discurso a raiva e a dor? Méritos de bom filósofo: escreve para o interlocutor, não para si mesmo. Espera a abstração conceitual do interlocutor, e não uma solidariedade com a sua dor. Parece frio, mas não é. É filosófico. Mas também existem filosofias sinceras, conceitualmente precisas e com um pouco mais de calor da guerra. Não se pode tirar o mérito destas também. “Mas o abismo, na realidade, é imenso entre a literatura e o choque, entre o argumento e a porrada[5]; “O tom um pouco mais elevado reclama sonora bofetada como se se tratasse de uma consequência silogística[6]”.Um mesmo autor pode fazer as duas coisas.
    Diante de choques e paus de arara, celas fétidas e solidão, Salinas diz o nome de uma amiga. Fraco? Bunda-mole? Covarde? Mais maturo em sua sensatez, o autor, em meio ao seu relato, assume que não é possível julgá-lo. Nem fraco, nem bunda-mole, nem covarde. Um homem com dor, uma exteriorização da condição humana. Não somos semideuses.
     Passando às anotações do diário de Salinas durante os estudos de Direito, percebemos uma mente atordoada, cheia de dúvidas, porém desde cedo tratando a existência de maneira poética. Certamente, as passagens dessa parte do livro são as mais próximas dos conflitos internos do leitor, já que não são concluídas a partir da tortura. O jovem Salinas já se debruçara sobre a reflexão filosófica de si mesmo.

O dia hoje está claro. Claro demais até. O sol desenha um retângulo sobre a cama, à minha direita. Domingo. Tudo contribui para o sono, para a inércia.  Como explicar, então, essa necessidade imperiosa de expressão que de mim toma conta de repente? E, afinal, expressão de quê? Sinto-me, na verdade, absolutamente oco. Sem passado nenhum. Sem futuro? Só com esse instante de sol[7].

     Retrato Calado é também um tratado sobre o ato de escrever, sobre a força de catarse da expressão em geral, no caso a escrita. Percebe-se que essa questão já tirava o sono de Salinas desde muito jovem. Mas que aspirante a escritor nunca passou por tal conflito? Quem nunca se sentiu impotente em relação ao discurso e, mesmo assim, numa necessidade mordaz de se expressar? Afinal, só somos nós completos quando somos para o outro.
   Salinas já esboçava um conhecimento da psicanálise, essencial na sua compreensão posterior da condição humana e na construção de sua filosofia. Ontologia e política são essencialmente inseparáveis.

Como é difícil esperar. Se a espera fosse calma, fixa, imóvel, ainda ia. Mas não, o diabo é que ela se fragmenta, compõe-se de uma série de instantes, de sugestões de paisagem circundante, com mil armadilhas e enganos. Formas que a ansiedade da gente constrói, mas que têm uma curtíssima existência. Um simples gesto faz tudo desmoronar e a gente continua ali, pateta, esperando, e aquilo parece infinito, eterno. Os ouvidos se aguçam, as pupilas se dilatam e todos os sentidos se concentram. Espreita, atalaia. Esperança, demora. Mas há várias qualidades de espera. Essa minha, de hoje, é pura e simplesmente a do macho, talvez a mais triste de todas. Pois quando ela não se cumpre, quando se frustra a expectativa, tudo é questionado, a ordem do mundo, abalada, e é exatamente isso que parece estar acontecendo agora comigo. Ainda bem que sou um grande escritor, que freudianamente posso sublimar os impulsos subalternos. É tão simples[8]!

     Psicanálise e teoria da escrita, juntas numa anotação de diário pessoal dum garoto de 22 anos. Precioso! O être-dans-le monde me dá antes de tudo, nesta interminável decomposição da tarde de domingo, uma vontade louca de explodir. Mas o único que nos resta é a imaginação, esse poder de negação do mundo[9]". Os melhores livros de literatura são livros de filosofia.
     Na terceira e última parte do livro, Salinas disserta sobre suas outras prisões, dessa vez não relacionadas à participação em grupos comunistas, e sim por envolvimento com drogas. O escrever, as drogas e a prisão, mais uma reflexão profunda. “Assim, do conflito permanente entre o bom comportamento e o anseio pelo fluxo, nasce o texto[10]. Teoria dos escritos de cadeia, só Salinas o fez.

Ainda ontem, nesta mesma hora, eu me encontrava, tranquilo, em plena sesta, deitado na minha cama, no meu quarto, começando a acender o meu baseado adequado para o momento de recolhimento e devaneio, ivresse que já ia sendo cotidiana, evasão não – por que evasão? – mas, ao contrário, recurso novo de lucidez, desvio metódico pelo universo das essências, pelo mundus inteligibilis, indispensável para a avaliação adequada dos contornos e intensidades precisas das, embora sombras, prestigiosas[11].

     Valor ambíguo das drogas. Tanto um subterfúgio da realidade densa e doentia, quanto uma ferramenta de reflexão, ampliação da compreensão racional sóbria. Um instrumento para compreender uma época. Seria a maconha recurso para uma nova teoria da história? O que restou da metafísica clássica após a hóstia do delírio, ácido lisérgico, LSD? Exageros à parte, Salinas soube ver o efeito das drogas em sua totalidade, em sua contradição inerente. Além do mergulho nas essências, as drogas foram também uma resistência política e existencial, não frustrada, mas insuficiente.

Militantes rigorosos e corajosos em contestação permanente, cada fósforo aceso como ato de protesto contra tudo e todos. Na verdade, dávamos prosseguimento, da forma possível, às fracassadas tentativas de existência e organização política de toda uma geração. Prosseguíamos no mesmo combate, transfigurando-o, inventando novas formas, mergulhando nas comunidades caóticas, nas trips coletivas, nos debates e discussões intermináveis, na busca desesperada de novas formas de convivência e no radical, definitivo, irreversível rompimento com a ordem social de coisas vigentes[12].

    Resistência ideológica, porém, novamente calada, que desencadeou mais duas prisões a Salinas. Esse filósofo pouco reconhecido na Universidade de São Paulo, desconhecido fora dela, demonstra lucidez e brilhante técnica narrativa na análise dos fatos. Após ver o filme Le Fond de l’Air Est Rouge (“A Essência do Ar É Vermelha”, em tradução livre), de Chris Marker, fala do paradoxo de um partido comunista[13], no caso o Tchecoslovaco de Dubcek, que se reunia clandestinamente em seu próprio país, jogado na ilegalidade pelo governo “socialista” soviético. Ironiza também um ministro francês que, sobre o Maio de 68, disse: “Os alemães respeitaram Paris. Esses estudantes querem destruir tudo. Até a Sorbonne e tudo[14]...”. Tudo isso numa carta pessoal a um amigo poeta, do qual desconheço a identidade, mas me aguça a curiosidade saber quem seria o amigo de Salinas, e tão filósofo quanto. Tão conhecedor da condição humana. “Não há depressões. Mas há certos momentos de calma tamanha e de lucidez tão brilhante que a gente medita sobre o trágico de estar vivo[15]”. Cartas entre grandes escritores são sempre fascinantes. Quando eu descobrir a identidade do amigo-filósofo-literato, altero o artigo e coloco os devidos créditos. “Tome um copo de vinho em minha homenagem, beije a boca de uma mulher em seu próprio proveito[16] [...]” é o que o amigo recomenda a Salinas. Dos mais inspiradores conselhos, eu diria.
     Salinas se exorcizara. Exorcizara a si mesmo. Era, finalmente, livre em suas memórias. O efeito catártico da escrita rompe qualquer amarra psicológica. Isso não substitui o trauma da tortura, não o supera, pois já faz parte do ser. A escrita fez com que Salinas absolvesse a si próprio, não se isentando de culpa, mas se libertando dela. Porém, como disse Antonio Candido no posfácio da obra, o preço da reconciliação, de ter se encontrado, foi muito alto.

E hoje o exorcismo que se renova a cada instante, a cada hora, a cada dia, a cada semana, a cada mês, a cada ano, a esperança que rejuvenesce de quebrar as grades, voar, essas grades que continuam, imaginárias, a me comprimir o cérebro. Sonho em reconquistar a integridade e a liberdade, será possível?  Como contornar a lógica da tendência se o sabotador, com toda a sua malícia, instalou-se dentro da cabeça, enfiou-se no interior do interior, sugando os esforços e comprometendo a objetividade do pensamento[17]?

     Fica-se no pau de arara pra sempre. Os choques continuam a doer. Terrorismo psicológico de Estado. Terrorismo psicológico de estado. Estava, não está mais. Comprimiu o cérebro. Matou. Isso já fora previsto por Salinas. Morreria de tortura. Tortura disfarçada de justiça. Racionalidade mortífera. René Descartes, em suas Meditações Metafísicas, utiliza a hipótese de um Gênio Maligno, ardiloso e embusteiro, poderoso o suficiente para nos enganar mesmo em relação às essências matemáticas. É preciso uma argumentação lógica concisa para provar a verdade das essências matemáticas e desmascarar as ficções do Gênio. Tais páginas são um dos percursos mais célebres da história da filosofia: derrubar a hipótese do Gênio Maligno. A analogia é pertinente: não seria o Estado Brasileiro uma espécie de Gênio Maligno, empenhado em nos fazer crer em falsidades, e Salinas um Descartes que, pelo discurso, busca insaciavelmente trazer à tona as verdades das coisas? Era uma necessidade. A necessidade de todo filósofo é a verdade. Mesmo que lhe custe o trabalho de toda uma vida. Ou a vida, mesmo.

A passagem pelos subterrâneos do regime, o contato com o avesso do milagre eram, nestas condições, a ocasião para um aprendizado tão importante quanto inútil, pelo menos durante muitos anos. Mas, de qualquer maneira, experiência decisiva no interior da selvagem fenomenologia. Guinada. Depois dela, depois de termos ingressado no espaço da ficção oficial, passávamos para outra figura do espírito, para o delírio em cujos breus parecem comprometidas as fronteiras entre o imaginário e o real. Tudo teria sido então pura ficção? Tudo ficará por isso mesmo? A dor que continua doendo até hoje e que vai acabar por me matar se irrealiza, transmuda-se em simples “ocorrência” equívoca, suscetível a uma infinidade de interpretações, de versões das mais arbitrárias, embora a dor que vai me matar continue doendo, bem presente no meu corpo, ferida aberta latejando na memória. Daí a necessidade do registro rigoroso da experiência, da sua descrição, da constituição do material fenomenológico, da sua transcrição literária. Contra a ficção de um Gênio Maligno oficial se impõe o minucioso relato histórico e é da boa mira neste alvo que depende o rigor do discurso[18].

     Trasímaco, Gênio Maligno, quem mais seria o Regime Militar? Enganador, sofista, sem valor. Terrorista. Assassino. E burro, burro demais. Imbecil, ignorante, idiota. Besta. Herzog, se pudesse, riria de sua foto oficial de “suicídio”. Salinas e Frei Tito, sentiam dor, mas riam. Riam da burrice do regime. Apesar da lógica racional, do conceito de “razão instrumental” anteriormente diagnosticado por Adorno, os militares sempre foram meio bobões. Não estuda filosofia, dá nisso. Eis o último parágrafo de Retrato Calado: “Maquiavéis baratos. Sim, pois Maquiavel não ensina, entre outras coisas, estar condenado à ruína o príncipe que, em vez de ferir mortalmente o inimigo, apenas o fustiga ainda que dura e cruelmente, deixando-o afinal intacto – ou quase -, pronto para a nova investida[19]?”. A racionalidade do regime militar foi insuficiente. Existem provas, relatos históricos, sobreviventes. Difícil dizer que ainda existe comunismo, mas se não, certamente não por estratégia dos Trasímacos e Maquiavéis baratos. O que o regime não conseguiu apagar foi a memória. E, enquanto houver história, haverá memória, e ela estará viva. É o triunfo da Filosofia em descobrir as verdades.
     Salinas morreu em 1987, aos 50 anos, por problemas do coração. Seu último gesto foi o de apertar as têmporas. Mais um motivo da preciosidade de Retrato Calado: memória derradeira, último suspiro, esperança. A obra que ajuda a entender o psicológico da ditadura militar, suas entranhas, sua lógica, suas consequências. Os modos de resistência. Uma referência histórica, filosófica, literária. Salinas se eternizara no mural das pessoas fascinantes. Pelo homem, pelo estudioso, pelo escritor, pelo relato. Poucos ultrapassam sua época, pouquíssimos falando dela. O legado sempre fica, independente. Ainda mais quando o relato é dos mais belos.

Alberto Sartorelli, 18, estudante de graduação em filosofia pela Universidade de São Paulo.


[1] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Retrato Calado. São Paulo, Cosac Naify, 2012, p. 126
[2] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 22
[3] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 29
[4] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 28
[5] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 29
[6] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 49
[7] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 73
[8] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 81
[9] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 84
[10] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 91
[11] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 91
[12] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 94
[13] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 107
[14] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 107
[15] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 99
[16] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 100
[17] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 113
[18] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 41-42
[19] Fortes, Luiz Roberto Salinas, Ibdem, ibd, 2012, p. 119

3 de jan de 2013

Monólogo inicial


O ator é um sofista. O melhor dentre os sofistas. É ele mesmo seu parecer ser. Heráclito diz ser a mudança a essência de todas as coisas. O ator é essencialmente mudança, mais do que as outras pessoas. Se bem que não é tão raro encontrar atores por aí, no sentido amplo do conceito. Aquele que não para de mudar. Aquele que muda incessantemente. Aquele que parece mas não é, porque por ele tudo passa. Aquele que faz o espectador crer que é aquilo que não é. Muda, engana. O que é que fica do ator, se é ele mesmo sua mudança, ele é seu não ser? Resta o corpo? Nem isso. A arte se dá na mudança contínua, se apresenta aos sentidos, não cessa. O ator é ele mesmo a arte. O ator é artista, o artista é ator. Princípio de não contradição: o que é, é, e o que não, é não é. Mas arte não é equação. Pura matemática não dá conta. Nem do mundo, nem da arte. Muito menos da natureza do ator. Mas considerem o princípio de não contradição por enquanto. Considerem a matemática e a lógica. Por enquanto, só por enquanto, vomito certezas. Quando a ânsia passar, este que vos escreve não mais vomitará equações sobre a arte, o artista, o ator e a essência. Não é simples assim. Não dá pra ser só isso, dada a forma como o ator aparece, como fenômeno, e toca na alma. O ofício do ator não se reduz às leis naturais e formais, porque ele é mais que um corpo. Seu próprio corpo foge às regras da previsibilidade. Seus impulsos vêm de dentro, sabe-se lá de onde ou de que forma; são imprevisíveis. E os impulsos do ator são mais fortes e mais bonitos, menos reprimidos e mais mascarados. Paradoxo da sinceridade: menos reprimidos e mais mascarados. Os impulsos do ator saem de si mesmo em sua totalidade. E é isso que gera o êxtase estético no espectador. Mas aí não é só deixar a natureza se impor? Não. Não conhece os impulsos, de onde eles vêm, exatamente, nem para quê, mas não os reprime. O ator escolhe deixar os impulsos virem, no limite entre a natureza e a liberdade. Na linha tênue que separa o determinado do indeterminado. Essa é a diferença entre o ator e o espectador. O ator conhece a condição humana, vive-a em sua completude. O efeito no espectador, reprimido, é de catarse; mais do que liberdade, compreensão da própria condição. Mas como gerar compreensão se o ator é um sofista? Ele apresenta a verdade através da mentira, talvez? Dúvidas, condição humana, paradoxos, inconsistência, incoerência, contradição. O ator não pensa em tudo isso. O ator não sabe para onde vai, mas vai.




Alberto