27 de mai de 2013

Reificação

Neste cigarro deposito
em tragadas fundas e elegantes
todas as lágrimas que não chorei
todas as vontades que não realizei
todos os livros que não li (e também os que li)
tudo aquilo que não pude fazer
todas as vezes que não atendi
que não corri, não vi, não senti
todos os amores que não me amaram.
Mas, nesta escuridão, negra, ausência total de cor
aqui, o fogo do cigarro queimando
é a única luz
para a qual todos olham.
Pena que um cigarro dura só alguns minutos.

É o momento apoteótico de um espírito triste.

Alberto Sartorelli

22 de mai de 2013

insisto

minha forma busca um conteúdo
minha linguagem busca uma imagem
meu verso busca realidade
minha poética busca leitores
e enquanto não encontro tudo isso
insisto em escrever.

Alberto Sartorelli

20 de mai de 2013

Releitura: Baudelaire


A rua em volta tinha ruído bem comum
Ela usava óculos, lia, era triste
Uma garota sentou-se no banco da minha frente no metrô
Sem balançar uma peça sequer de seu vestido.

Não sei se rica, só olhei para seus cabelos
E eu me embriagava em seus traços
No seu olhar, céu que germina o furacão,
Parecia doce, a impotência me assassina aos poucos.

Como um relâmpago à noite, naquele vagão
Tudo era luz, era vida, perspectiva, futuro
Seria tudo aquilo efêmero, apenas uma ruga a mais no meu rosto?

Algum dia, quiçá, mas sei que nunca provavelmente
Ela não sabe onde vou, eu não sei em que estação ela desce
Tu que eu teria amado - e o sabias demais!

(Mas ainda te procuro no Parque do Ibirapuera,
no MASP e na Treze de Maio. 
Não seria eu poeta se não o fizesse.)


indiscretamente, Alberto Sartorelli






















(Camille Pissarro (1830–1903), "Boulevard Montmartre, effet de nuit", 1898, óleo sobre tela, 55 × 65 cm)

*O poema “A uma passante”, de Baudelaire, relido em dezenove de maio de dois mil e treze, em São Paulo, numa noite de domingo. Era outono, e tocava Smiths no rádio. A vida na metrópole do século vinte e um não é passível de métrica, e são poucas as condições de concretização dos amores de metrô. Tudo foge ao alcance, até mesmo do poeta.

6 de mai de 2013

desconstruindo sujeitos burgueses


Encantamento é esquizofrenia
contemplação pura do perpétuo presente.
Dizer “projeto” é conjugar no futuro
todo feitiço o dissipa
deleite pleno não é “eu vou”.
Os sentidos são focados numa coisa só
reificada ao extremo de que é capaz o gênero humano.
Coisificar a coisa e
vê-la, senti-la, tocá-la, lambê-la, ouvi-la
numa relação direta e sem mediação
entre o eu e a coisa
que já não mais é coisa
é parte do eu destituído de sua força individualizante de outrora
o eu em pedaços
desconstrução do ser no ser
fim da neurose obsessiva
aceitação deleitosa da fragmentação.
Há algo de ritualístico nisto
de mágico
espontâneo e contingente.
Todo prazer é a dissipação do projeto
destruição do eu.
Contemplar é assimilar
seja gozo, embriaguez, alucinação, sexo.
É preciso participar das coisas
e participar é deixar de ser
para ser mais.
Triste humanidade que dá nome às coisas
como que do alto de uma montanha
é espectadora indiferente do mundo.
A lembrança deveria servir só para resgatar os prazeres
como que uma memória de fruição universal.
Esquizofrenia e lembrança, paradoxais, mas não excludentes
já que temos entre nós a dialética
que tal?
Você, você que me lê e exige vocativo de particularidade
tem medo?
Pois o poema termina com um último imperativo:
Deixemos de ser nós mesmos!

Alberto Sartorelli