25 de jun de 2013

Lucas é menino pobre. Tem 21 anos. Trabalha de dia, faz faculdade à noite. Mora na periferia, nem metrô perto da casa dele tem. Seu trabalho é em um lugar, a faculdade em outro. Num dia comum, Lucas gasta 5 passagens de transporte: pega um ônibus de casa pro metrô, vai de metrô até o trabalho, do trabalho pra faculdade também de metrô, pega o metrô de novo e toma mais um ônibus pra ir pra casa. É uma rotina que deixa até a gente confuso!
Lá na periferia, o Lucas sofria violência. Ele tava jogando bola na rua, chegava uma viatura da polícia e mandava logo ele entrar em casa; afinal, quem joga bola na rua lá na periferia é projeto de traficante. Na escola pública que estudava, Lucas sofria violência também. Tinha vez que a escola não tinha luz, água, janela, essas coisas. Demoravam pra dar caderno, lápis e bolsa: só lá pro meio do ano. Quando não tinha giz e a lousa tava quebrada, Lucas desistia de aprender matemática e fazia aviõezinhos de papel pra jogar nos amigos. Teve uma vez até que um colega do Lucas levou uma arma na escola, por causa dessas briguinhas de criança. Sorte que não matou ninguém. O Lucas ficou meio apavorado, mas fazer o quê? É assim que são as coisas.
A casa que mora a família do Lucas é alugada; só nisso já vai quase um terço do orçamento mensal. Dorme o pai e a mãe em um quarto, Lucas e seus dois irmãos pequenos no outro. Na sala, tem uma TV de 29 polegadas. Ele não liga muito pra TV, mas o pai dele sempre assiste. Lucas sabe que não faz muito sentido, só falam mal de pobre na TV. Os programas são tudo pra gente de um pouco mais de dinheiro. Os comerciais, nem se fala, Lucas se sentia violentado com aquilo. Teve um dia que o Lucas tava na sala com o pai dele, e passou um comercial de carro. Nem tinha o preço do carro, era só pra aumentar a pompa de quem tem, e fazer vontade em quem não tem. Sorte que o Lucas nem pensa em ter carro: afinal, carro dá muito gasto, e onde o carro vai o busão vai também. O problema é o Lucas ficar mais de 3 horas por dia no transporte. Vai cansando, chega uma hora que não dá mais.
Mas esses dias umas coisas aconteceram na vida do Lucas. Ele passou por uma banquinha de jornal perto do trabalho e viu na manchete de um dos jornais que a passagem do ônibus ia subir. Mas poxa vida, como é que ele vai sair com a namorada, que ele só vê no final de semana? Subiu só 20 centavos, é pouco. Mas não pro Lucas. Se ele pega 5 conduções por dia, então é 1 real a mais por dia, 5 por semana, 20 por mês. Quando a tarifa era 3 reais, ele gastava 300 reais por mês só de transporte entre casa, trabalho, faculdade e casa. Isso sem nem contar os passeios. Hoje, ele gasta 320 reais só no transporte. E mesmo assim demora 3 horas entre metrô e ônibus, todos os dias. Não dorme nem 6 horas por noite. O Lucas ganha uns mil reais por mês. 400 desses mil vão pra pagar a faculdade. Mais um pouco fica pro imposto. O vale-alimentação do Lucas não é dos melhores, não dá pra comer muito mais do que metade do mês. Aí tem que gastar com comida, que é caro.
Saindo do trabalho, que é lá na região central, Lucas viu uma manifestação contra o aumento da passagem de ônibus. O menino matou aula da faculdade e foi lá. Razões pra ir ao ato ele tinha: esses vinte reais que aumentaram no seu gasto com transporte, eram os que ele reservava pra ir no cinema com a namorada de sábado.
O Lucas tava obstinado, ele queria de todo jeito que o prefeito revogasse o aumento. Foi lá e botou fogo em sacos de lixo pra fechar a avenida, sem peso algum na consciência, ele que nem gostava de carro mesmo. Quando a tropa de choque chegou, o Lucas lembrou muitas coisas. Ele lembrou da sua infância, quando os policiais não deixavam ele jogar bola na rua. Ele lembrou da escola pública, toda sucateada. Ele lembrou dos comerciais de carro e do humor que faz chacota com pobre. Ele lembrou dos impostos que descontam uma quantia razoável do salário dele. Ele lembrou da família, que se mata de trabalhar pra pagar o aluguel. Ele lembrou das 3 horas por dia que perde de sono por ficar no transporte. Lucas nem precisou lembrar da namorada na hora de pixar um busão com o valor do aumento e jogar uma pedra na estação de metrô; motivos para isso não faltavam.
Os policiais jogaram uma bomba perto de Lucas; ele saiu correndo, e dois oficiais da lei fortemente armados pararam na frente dele. Um espirrou gás de pimenta no seu olho; outro, acertou uma bala de borracha a queima-roupa na sua perna. Lucas levou uns golpes de cassetete nas costas antes de ser levado para o camburão, assim mesmo, igual bandido perigoso. Ele ficou preso e teve que pagar fiança de 3 mil reais. Na mesma noite, o pai do Lucas foi lá no DP e pagou a fiança. Quando se olharam, pai e filho sabiam do que se tratava: aquele valor era de 3 meses de aluguel.
A família até que recebeu bem o Lucas, sabiam que ele não era bandido. Mesmo assim, na TV, o pessoal falava da violência por parte dos manifestantes, do vandalismo para com o patrimônio público, do eficaz trabalho da polícia e do mérito do governador em convocar a tropa de choque para aquela operação.
Mas no fim, o Lucas não tava arrependido não. Ficou o nome sujo, vai ter que fazer hora-extra pra ajudar a família a pagar o aluguel, vai perder 3 horas no transporte por dia até não se sabe quando, vai dormir menos ainda, vai ter desconto no salário por causa de impostos, vai ver comercial de carro e humorista tirando sarro de pobre na TV, não vai mais poder ir ao cinema com a namorada de sábado. Apesar de tudo isso, o sentimento era libertador. Na infância, ele até ia na igreja, mas parou. O Lucas suportou o quanto aguentou. Mas chega uma hora que não dá mais. Que não dá mais pra oferecer a outra face ao inimigo.
Lucas não era punk nem anarquista, não era comunista nem tinha partido político. O Lucas era só uma vítima. Sua culpa era ser pobre. Suas feridas eram doloridas. Ele parecia calmo, mas era puto por dentro. O gesto do fogo, da tinta e da pedra foram os gestos mais libertadores da vida dele. Lucas finalmente cansou de apanhar.

Alberto Sartorelli

ciclo heraclitiano: Contra Odisseu

Nós somos solipsistas em sonho
Acordados, falamos para os homens
Heráclito, mestre melancólico
O homem ocidental não é teu fardo.

Alberto Sartorelli

ciclo heraclitiano: Deveras

Difícil mesmo é lutar contra o coração
Pois é bem alto o preço do seu querer, alma
Uma realidade na qual não há calma
Razão e paixão, eterna contradição.

Alberto Sartorelli

ciclo heraclitiano: Pólemos

O combate é rei, o combate é pai
Móvel e tenso, ele nunca se esvai
Já que é ele mesmo o fogo que trai
Quem vê o mundo em conciliação, cai.

Alberto Sartorelli

ciclo heraclitiano: Indulto para as massas

Da população é que tu ristes
Meu caro filósofo misantropo
Mas hoje vos trago notícias tristes:
Da barbárie, a culpa não é do povo.

Alberto Sartorelli

17 de jun de 2013

Augusta, tu que muito me amaste
Subi-te ébrio vezes incontáveis
E eu, quando vi-te em vertigens ágeis
Pensei: “todo policial é um traste!”

Lembrou-me aqueles memoráveis fatos
São Paulo, ano de sessenta e oito
Perdida em pensamentos abstratos
Maria Antônia, entro em ti e pernoito.

Roubaram de nós aquela donzela
Signo de quê eles roubam? Poder!
A dama Paulista fora levada.

Mas que coragem faremos, que bela
Nossa revolta, essência do ser
Ninguém passará pelas barricadas!

Alberto Sartorelli