25 de dez de 2014

ORDEM DO TEMPO

ORDEM DO TEMPO

(para um poeta alemão, que diz que é preciso dar tempo à verdade; para um bom amigo, que diz que as lágrimas do filósofo demoram a cair)

O tempo do poeta é diverso
do tempo dos comuns.
São instantes de afeição,
febre, glória, dor e
absoluto.
Porém,
na maior parte o tempo
é enfadonho e impotente.
Pergunte ao poeta
se seus instantes
valem a pena.
Pior aos comuns,
que não têm instantes.

- Sartorelli

7 de out de 2014

Limites do Princípio da não contradição à luz da autorreferência

Trabalho agraciado com nota 9 pelo professor Edélcio Gonçalves de Souza em Lógica I, disciplina ministrada no primeiro semestre de 2014

Tema da dissertação: Faça uma análise crítica do papel da lógica como instrumento de avaliação de argumentos em algum (alguns) contexto(s) argumentativo no qual eles ocorrem.

Limites do Princípio da não contradição à luz da autorreferência
            A presente explanação visa problematizar algumas questões da lógica clássica, entre elas o Princípio da não contradição e a aceitação de inferências vacuamente válidas, e mostrar, a partir da autorreferência, como existem situações nas quais as inferências podem ser verdadeiras E falsas, ao mesmo tempo e na mesma situação. A principal referência por mim aqui tomada será o livro de Graham Priest, “Lógica: uma brevíssima introdução”, em especial o capítulo 2 (Funções de verdade – ou não) e o capítulo 5 (Autorreferência – sobre o que se trata este capítulo?). Digo isso para não ter de ficar citando incessantemente o autor. O leitor então já sabe donde trago a maioria dos exemplos e linha de raciocínio.

            Segundo Marilena Chauí[1], há três princípios lógicos fundamentais, que são condições de toda verdade. São eles:
“1. princípio de identidade: um ser é sempre idêntico a si mesmo: A é A;
  2. princípio da não contradição: é impossível que um ser seja e não seja idêntico a si mesmo ao mesmo tempo e na mesma relação. É impossível A é A e não-A;
  3. princípio do terceiro excluído: dadas duas proposições com o mesmo sujeito e o mesmo predicado, uma afirmativa e outra negativa, umas delas é necessariamente verdadeira e a outra necessariamente falsa. A é x ou não-x, não havendo terceira possibilidade.”
            Tais princípios são paradigmáticos nas análises lógicas desde Aristóteles. Veremos algumas aplicações desses princípios e seus limites.
            A cláusula para uma sentença ser logicamente válida é aquela na qual as premissas não podem ser verdadeiras sem que a conclusão também seja verdadeira. Portanto, de premissas todas verdadeiras, deve decorrer uma conclusão verdadeira para que a inferência seja válida. Caso não haja situação na qual as premissas são verdadeiras e a conclusão falsa, mesmo que as premissas não sejam todas verdadeiras, então a inferência também é válida.
            Tomemos como exemplo a seguinte inferência:
Se o ladrão tivesse invadido através da janela da cozinha, haveria pegadas do lado de fora; mas não há pegadas; logo, o ladrão não invadiu através da janela da cozinha.
            Ela nos parece claramente válida, afinal, dada a situação na qual é impossível para alguém que entrasse pela janela da cozinha que não deixasse pegadas do lado de fora, e dada a situação de que o ladrão adentrou ao recinto, disso decorre que não foi pela janela da cozinha que ele entrou. Mas há situações mais complexas. Veja essa inferência:
A rainha é rica; A rainha não é rica / Porcos podem voar
            Ou escrita desta forma mais sintética:
q; ¬q / p
            Primeiramente, a redução de sentenças a letras já é uma abstração tamanha na qual negligenciamos inúmeros dados da sentença, com o fim de analisar somente sua validade lógica; esse é um primeiro problema. Mas não paramos por aí. A inferência não nos parece válida, dado que a conclusão não decorre das premissas, e as premissas são contraditórias. Mas a analisemos com mais cuidado. Dada a aceitação do princípio de não contradição e aceitando as cláusulas da negação (se A é V, não-A é F, e vice-versa), temos a seguinte tabela de verdade:
q
p

q
¬q

p
V
V

V
F

V
V
F

V
F

F
F
V

F
V

V
F
F

F
V

F

            Essa inferência, que nos parecia inválida é, portanto, pelos elementos de verificação assumidos, válida. Não contém situação na qual as premissas sejam verdadeiras e a conclusão não o seja, pois não contém situação na qual as premissas sejam verdadeiras. É chamada de inferência vacuamente válida.
            No entanto, nem tudo é simples assim. Tomemos o exemplo de uma frase autorreferencial, neste caso, o Paradoxo do Mentiroso, formulado por Eubúlides:
Esta própria sentença que estou proferindo agora é falsa[2].
            Se a sentença for verdadeira, e o que foi dito é o caso, então ela é falsa. Se for falsa, e o que foi dito é o caso, então é verdadeira. A sentença então parece ser verdadeira E falsa, ao mesmo tempo e na mesma situação. Adotar tais elementos de verificação de verdade viola o Princípio da não contradição. Temos uma situação análoga com o Paradoxo do mentiroso. Tomemos tal situação:
Considere o conjunto de todos aqueles grupos que não são membros deles mesmos. Chame-o R. R é um membro de si mesmo, ou não? Se é um membro de si mesmo, então é uma das coisas que não é um membro de si mesmo. Se, por outro lado, não é um membro de si mesmo, é um daqueles conjuntos que não são membros de si mesmos e, portanto, é um membro de si mesmo. Pareceria ambos que R é e não é um membro de si mesmo.
            Este é o chamado Paradoxo de Russel. Ele também, ao que parece, assumindo a existência de tal objeto, é verdadeiro e falso, ao mesmo tempo e na mesma situação. Isso elimina a necessidade lógica e universal da polaridade verdade/falsidade em sentenças como a e sua negação, ¬a. Agora ambas podem assumir valor VF. Sobre o Paradoxo de Russel, é bem esclarecedor o trecho de uma entrevista concedida pelo professor Newton da Costa:
Em matemática, há conceitos, como o célebre conjunto de Russel, que representaremos por R, os quais nos conduzem quase que diretamente à contradição (R é o conjunto de todos os conjuntos que não pertencem a eles mesmos). A solução tradicional consiste em se eliminar a contradição mediante a negação da existência de R. A lógica paraconsistente admite a existência abstrata de R e trata de estudar suas propriedades, mesmo as mais estranhas e exóticas.
            A lógica paraconsistente é aquela que não assume universalmente, em todas as situações, o Princípio da não contradição. Assumir a existência de sentenças verdadeiras e falsas amplia as possibilidade de análise lógica. Vejamos uma situação na qual esse novo aparato de elementos de verificação de verdade se aplica de modo a chegar mais próximo da nossa intuição primitiva acerca de uma situação.
            Assumamos a possibilidade de uma inferência ser verdadeira e falsa, ao mesmo tempo e na mesma situação, violando o Princípio de não contradição. Utilizando um exemplo por nós aqui conhecido, dada uma situação, na qual “A rainha é rica” e, necessariamente, sua negação “A rainha não é rica” sejam verdadeiras e falsas, e que “Porcos podem voar” seja falsa, temos a seguinte tabela de verdade:
q
p

q
¬q

p
VF
F

VF
VF

F

            Logo, existe uma situação na qual há premissas verdadeiras (não somente, mas também verdadeiras), e a conclusão é falsa. Portanto, nesta situação, a inferência é inválida. Dessa maneira, minamos aquela desconfiança deixada anteriormente, que tratava tal inferência como vacuamente válida. Aqui, ela é inválida, e também mais convincente.
            Mas assumir a possibilidade da existência de inferências verdadeiras E falsas, ao mesmo tempo e na mesma situação, não resolve todos os nossos problemas. Para isso, vamos analisar rapidamente a disjunção e a conjunção.
            Uma sentença é disjuntiva quando os dois lados da oração (os disjuntos) são ligados pela conjunção ou. Para que uma disjunção seja verdadeira, é preciso que ao menos um dos disjuntos, ou os dois, sejam verdadeiros. Tomemos o seguinte exemplo:
Ou a rainha é rica ou porcos podem voar; A rainha não é rica / Porcos podem voar
            A tabela de verdade dessa inferência fica da seguinte forma:
q
p

q V p
¬q

p
V
V

V
F

V
V
F

V
F

F
F
V

V
V

V
F
F

F
V

F

            Há uma única situação na qual temos duas premissas verdadeiras, e a conclusão também é verdadeira. Portanto, a inferência é válida nesses termos. Porém, e se considerarmos uma situação na qual q ganha os valores V e F, e p apenas o valor F? Vejamos:
q
p

q V p
¬q

p
VF
F

VF
VF

F

            Portanto, com os novos elementos de verificação de verdade, uma inferência que nos parecia claramente válida, pode se mostrar inválida.
            A conjunção funciona de modo parecido. Uma oração tem seus dois lados unidos pela conjunção E; para que uma conjunção seja verdadeira, é preciso que ambos os conjuntos sejam verdadeiros. Por exemplo, John tem 35 anos e cabelos castanhos só é uma sentença verdadeira se John tiver 35 anos e se John tiver cabelos castanhos.
            Porém, podemos colocar essa linguagem à prova. Tomemos as seguintes situações:
1.      John bateu a cabeça e caiu
2.      John caiu e bateu a cabeça
            Qualquer uma das duas pode ser verdadeira. É preciso saber qual conjunto causou qual, e mesmo assumir verdade e falsidade na mesma sentença não faz com que possamos determinar o valor de verdade. É preciso alguma relação ulterior entre os conjuntos. Portanto, nem sempre ou e e são funções de verdade (determinantes de valores de verdade nas sentenças).
            Desse modo, apresentamos aqui dois tipos de linguagens lógicas: uma que assume o Princípio da não contradição, apresentada a nós por Priest no capítulo 2, e outra que o viola, que nos foi apresentada no capítulo 5. O primeiro problema que encontramos, anterior a isso tudo, é o da redução do significado da sentença a letras, buscando somente verificar sua validade lógica; há um desprendimento da realidade concreta e suas qualidades. Depois, na primeira linguagem, temos a questão da possibilidade de inferências vacuamente válidas: não há situação na qual duas premissas sejam verdadeiras e a conclusão não o seja, mas aqui isso se dá por não haver situação na qual existam duas premissas verdadeiras. Já na segunda linguagem, mesmo assumindo que uma sentença possa ser verdadeira e falsa, ao mesmo e na mesma situação, violando o Princípio da não contradição, e desse modo ampliando horizontes de análises que até então ficavam presas à polaridade verdadeiro/falso, ainda assim não superamos um dos limites da primeira linguagem, que é a de atribuir aos conjuntos e disjuntos o papel de funções de verdade, já que estes não dão conta de, por exemplo, uma situação de causalidade entre conjuntos.
            A lógica mostra-se, então, como uma importante ferramenta de análise argumentativa, mas nem sempre se refere à realidade, e encontra alguns limites que barram sua ambição totalizante, de universalidade.



BIBLIOGRAFIA:
Entrevista concedida pelo professor Newton da Costa à Revista Princípios: https://sites.google.com/site/filosofiadodireitoufpr/professor-newton-da-costa
CHAUÍ, M., Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1998
PRIEST, G., Lógica: uma brevíssima introdução. Traduzido pelo professor Edélcio Gonçalves de Souza (e que seria de grande contribuição à introdução dos estudantes brasileiros à lógica se o professor a publicasse oficialmente)



[1] Chauí, M., Convite à filosofia, p. 186
[2] Trataremos rapidamente aqui de um tipo muito específico de sentença autorreferencial: aquela que não é nem verdadeira e nem falsa. Suponha que alguém diga: “Esta própria sentença que estou proferindo agora é verdadeira.” Se for verdadeira, é verdadeira; se for falsa, é falsa. Parece não haver nada que a determine como verdadeira ou falsa, ou mesmo como verdadeira e falsa. 

2 de out de 2014

Islas

Hacen los terratenientes
hombres con hambre
el hecho.
El desarrollo es sin libertad
sin verdad
hacia aislamiento.
La desintegración capitalista,
los individuos aislados,
el fin de la historia.
Razón, eres una ramera.

- Sartorelli

15 de ago de 2014

Imagens estrangeiras - I: La notte

La notte oscura chiude i cammini
Non ha cammino possibile oggi
Tutti insieme gli uomini all’abisso
Asperi, i piaceri e la veritá
Loro sono solo con Dio.
Ma io non credo in questa cosa!
Il dolore, sì, è reale.
Io ancora aspetto qualcosa
Senza la vecchia felicità
Del cuore degli uomini
Con vino e un po’ di speranza.

- Sartorelli

8 de jul de 2014

Considerações acerca de "A virgem com o véu azul", de Ingres

            Em minhas visitas periódicas ao MASP, um quadro em especial sempre me chamou muito a atenção. A virgem com o véu azul, de Ingres, é um retrato do sublime. Há algo nele que não se encerra nele mesmo. Me toca muitíssimo a transposição entre os dois véus, do branco semitransparente com detalhezinhos dourados para o azul, um azul divino, pleno, também com detalhes dourados. Que maravilhoso aquele tom de azul! Nesta transposição, realizada no lado direito do pescoço, mantém-se o delineamento da pele, primeiro entre o véu branco, depois, já bem mais tímido, entre o azul, até, paulatinamente, misturar-se finalmente ao azul total do manto. É como um processo de espiritualização, de crescente indeterminação do outrora determinado, de dissolução do eu perante o pleno, o uno, no azul divino. Os olhos fechados e as mãos em oração apontam sutileza; os lábios têm um quê de maternais.
            A virgem é uma divindade; Ingres obteve o traço perfeito e o tom de cor ideal em todo o percurso da transposição. Além disso, a veste vermelha me parece remeter ao tom de vermelho largamente utilizado pelos pintores flamengos do século XVI. O rosto arredondado da virgem é claramente influenciado por Rafael. A moldura do quadro, destacando a pintura num oval, além de adequar-se perfeitamente ao rosto arredondado da virgem, representa o ciclo, a infinitude, o inapreensível; foi a forma geométrica mais adequada para tal feito. Ingres queria transcender pela forma; no gênero retrato, o tema de conteúdo religioso talvez fosse o único a oferecer essa possibilidade.
            O fundo negro, além de dar destaque à imagem, ainda pode representar a figura da virgem como uma aparição, capaz de ser em meio ao nada; idêntico ao fundo do Marat assassiné de seu mestre David, o fundo assim disposto quiçá é o grande segredo da capacidade de divinização do personagem na narrativa pictórica: tanto Marat quanto a Virgem apresentam o caráter de santidade. Todavia, no Marat, há um fato histórico, a narrativa pictórica é mais bem construída; na Virgem, entretanto, percebemos uma imobilidade na trama, algo de supra-histórico.
            Kant, em sua Crítica da Razão Pura, feriu mortalmente a metafísica. Ingres realizou a representação pictórica da já muito enferma ciência do ser enquanto ser. Ingres imortalizou a metafísica.

- Alberto Sartorelli



Jean-Auguste Dominique Ingres, A virgem com o véu azul. 1827. Óleo sobre tela. 77 cm x 65 cm. Museu de Arte de São Paulo (MASP)

5 de mai de 2014

Domingo à noite

Meu vazio
meu silêncio.

Não consigo falar.

Nem a arte me reconcilia.
Só me aumenta. Aumenta o vazio.

Sou nada. Sou só. Sou ainda.

Minha trajetória literária é um solilóquio!
Sou universal! Será que somente para mim?

Carrego em meus ombros
toda a angústia da civilização
na impotência de ser só
um poeta incompreendido
por massas e aristocracias.

Brado da torre de marfim onde, dizem, um poeta alemão ficou
louco!
Sou louco.

No domingo à noite, em todos eles até hoje
(desde que sou poeta)
revelam-se a mim, como a um sacerdote
as pulsões ocultas de uma civilização
profundamente
angustiada.

Amanhã de manhã, as pessoas irão trabalhar
serão coisas
fazendo seus trabalhos mecânicos
para o progresso da civilização.

É uma guerra.
Agora é o silêncio que antecipa a tempestade.

Não há dia e hora melhores
para ser poeta!

Não há dia e hora melhores
para falar sozinho!

Fui compreendido? - pergunta o filósofo.
Por mim o fora, infeliz! Infeliz és tu,
infeliz sou eu.
Ah, homens médios e felizes, eu vos desprezo!
Vocês não entenderam nada!
Novalis foi feliz?
Baudelaire foi feliz?
E o que se dirá acerca de Drummond?
Felizes sois vós, mesquinhos
se arriscando aos meandros da crítica literária!

Sempre que vejo um sorriso resignado
quero sair na porrada com o sujeito!

Para quem estou falando?

Quem é que me questiona?!
A humanidade, aquela mesma que
mandou um satélite falando sozinho
esperando quem sabe alguma manifestação vital
(e que também fale inglês)
retornar a ligação.

Horácio diz que o poeta deve esperar oito anos
para revisitar seus poemas e, quem sabe
torná-los públicos.
No meu caso, não faz diferença.
Espero que, em oito anos
alguns infelizes possam me ler
e espalhar a boa-nova
não tão boa como há de ser.

Terão todos vocês, medíocres,
de lidar com a vaidade de minha persona!
Querem que nesta vida eu seja coisa, pois
eu res-significo a vida!

Meu objetivo é minar os objetivos
mesquinhos dos homens médios.
Vim para apagar horizontes.

Sou um demônio.

- Nicholas Nielvski

28 de abr de 2014

Passacaglia Opus 1

O Compositor só podia mesmo
ter sido assassinado
por um americano.
Querem ironia maior que
O Compositor assassinado
por um americano?
Só podia mesmo ter sido
um americano
para matar O Compositor.
Só podia mesmo ter sido
um americano
para calar a representação da dor
com demasiada dor.
("Isso tudo parece história", diria um americano)
Entre alemães, franceses
russos e italianos
quem conta as histórias
são os americanos.
Os nazistas queriam matar O Compositor,
O Compositor é morto!
Malgrado o engano
Só podia mesmo ter sido
Um americano.

- Sartorelli


























Max Oppenheimer: Der Komponist Anton von Webern, 1908/10, Von der Heydt-Museum, Wuppertal

14 de abr de 2014

Sans soleil

Le jour est sans soleil
Le jour est plein de nuages
Les nuages deavant le soleil.
Le temps est sans soleil
Le temps est couvert par les nuages
Les nuages, les nuages,
Les belles nuages
D’un bleu profond
Proche du noir.
Le noir sans soleil
Le noir comme le poète
Les nuages devant le soleil
Les nuages, que belles nuages !
Le jour est triste
Les nuages sont mélancoliques
Sont belles les nuages !
Je les vois dans un bleu profond
Dans le ciel sur des bâtiments
Sans couleur determinée
Seulement nuages.
Les nuages sont la vie
Les belles nuages sur moi.
Sont moi.

- Sartorelli

9 de mar de 2014

Elogio de Vênus

Ó flor das calçadas sujas
Das vielas deveras escuras
Aos passantes acenando
Teu cheiro pouco brando
Emana desconhecida feminilidade.
Diferente, híbrida, louca
Original, outra
Completamente outra
Flor dos meus sonhos
(e de todos os que verdadeiramente sonham).
Sem patrão, sem marido
Livre, radicalmente livre
Sua, e por isso também minha
Carne da minha carne
Eu e você, seres iguais
Viventes das passagens
E dos encontros casuais.
Tu vives sem mim, eu vivo sem ti
Vênus encarnada e decadente
Divindade daquilo que passa
Deusa-mãe do efêmero
Tua beleza se encerra em ti mesma.
Nada em ti me ameaça, mas tudo!
Sou livre e teu, teu gênio
Sou igual a ti, e decaio
Pela vã existência que só vale a pena
Pelo encontro que a vida executa

Entre o poeta e a puta.

4 de mar de 2014

A URBE

        Após o distanciamento necessário da cena, aqui vos fala o narrador onisciente; de quem falo? Não seria também o narrador advento humano, em vez de eixo para a concretização do Absoluto no tempo? Limitado em sua experiência, um único olhar sobre a coisa (e nem sempre vertical!) e o narrador desvela aquilo que vê. Tem poder para realiza-lo e para realizar-se como queira. O narrador sempre vai mentir; ele não conhece o fato todo. No entanto, pode ser por má-fé, ou tentar se aproximar da coisa desvelando todos os elementos possíveis. Mas há todo um trato nisto. Não quero que o texto se pareça com aqueles prédios novos com os encanamentos e instalações elétricas internas à mostra por estruturas de vidro. A literatura tem o dom de esconder, contém isto em seu conceito; aliás, o conceito não dá conta daquilo que não se mostra claramente. A imagem apreende coisas das quais o conceito não é capaz. O conceito é claro em sua definição, mesmo que contornante; a imagem é sempre impressionista, borrada, de contorno pouco rígido, e por isso dá vazão às mais profundas construções múltiplas. A literatura é como um quadro de Camille Pissaro: um grande esboço incerto da realidade.
        Feitas tais observações preliminares, restam duas questões; a primeira, já colocada: de quem falo? A segunda, inferida: quem vos fala? Assim começa a narrativa, cercada de abismos.

A URBE

O ato filosófico genuíno é o suicídio; tal é o real começo de toda filosofia, nessa direção vai todo o carecimento do novato filosófico, e somente esse ato corresponde a todas as condições e características da ação transcendental. – Novalis

LEONARDO

        Leonardo tinha 26 anos. Morava sozinho num apartamento muito pequeno no centro de São Paulo. Tinha ascendência italiana e portuguesa. Gostava muito de cinema e de ouvir música enquanto ia de ônibus para o trabalho, que não era tão distante dali. Trabalhava 8 horas por dia e mais grande parte de seu tempo supostamente ocioso para uma agência online de informações; vez ou outra, Leonardo assinava algum artigo por lá; no mais das vezes, suas matérias nem eram assinadas, como se fosse uma constatação neutra de fato consumado. Leonardo sabia muito bem da impossibilidade da neutralidade, assim como sabia do modo como a agência queria que ele escrevesse as matérias e do teor ideológico da empresa. Por isso, quando podia assinar seu artigo, Leonardo se sentia de certo modo livre; a separação entre o jornalista profissional e o teórico opinativo era responsável por parte da angústia do rapaz. Leonardo jornalista? Não apenas. Leonardo era poeta frustrado e bêbado às sextas-feiras; era filósofo quase que diariamente, das 5 da tarde às 8 da noite (disciplina rigorosa na efervescência da metrópole é algo raro!) enquanto aprofundava seus estudos nos belíssimos textos de Walter Benjamin na biblioteca pública; também filosofava, e até mais, nos intervalos constantes das leituras para fumar (no trabalho isso não acontecia, os intervalos eram melancólicos e sempre com algum jornalista profissional falando ao telefone; mas nem por isso Leonardo fumava menos no trabalho). Incorporava também a persona de faxineiro, enquanto se esforçava imensamente para limpar seu pequeno apartamento durante os começos de tardes nos finais de semana. A mãe vivia sozinha numa cidadezinha próxima da região metropolitana; primeiro Leonardo foi morar de favor com uma tia em Guarulhos, de qual se mudou logo após arrumar o segundo emprego (o primeiro foi um estágio precário), indo morar numa república com mais três rapazes; tinha 22 anos nesta época; até então, tinha de ouvir muita música no transporte público. Leonardo estudou jornalismo com bolsa parcial numa faculdade particular e, portanto, precisava trabalhar para ajudar sua mãe a pagar a faculdade; aos finais de semestre, sempre queria abandonar o curso, por descobrir que não gostava tanto daquilo e saber que se fosse reprovado nalguma disciplina perderia a bolsa; sorte que ele sempre passou. Perdera o pai aos 17 anos; foi muito difícil, mas já era rapaz e precisava seguir. Nessa época, ainda sonhava em ser correspondente internacional e trazer a verdade do mundo para cá; no entanto, já era grande admirador da escrita de Machado de Assis e, nas conversas com os colegas na escola, se mostrava meio que como um proto-cético. Leonardo foi detido numa manifestação contra os gastos excessivos do governo federal para um evento esportivo de grande magnitude. Por sorte, foi liberado três horas depois sem ser fichado, o que não trouxe problemas no trabalho. Ele não gostava de policiais. Leonardo era tímido e fechado, apesar de saber que nem tão pouca gente compartilhava de seus pensamentos. Fechava-se em si mesmo e ia fundo, profundíssimo mergulho na busca por um sentido. Leonardo às vezes fazia projeções sobre seu futuro: redator frustrado de um jornal conservador, desses que usam aqueles ternos manchados e expressam uma face de sonhos diluídos com o tempo; professor de jornalismo numa faculdade de esquina (a esta época pensava num projeto para iniciar o mestrado na faculdade de letras); um escritor de renome, bastava-lhe um tema, mas será que ter renome e lançar por grandes editoras não quer dizer entregar-se ao que está dado, pelo menos para quem está começando?;  mudar-se para Paris e ser garçom pelo resto da vida, mas pelo menos seria ele garçom em Paris. Leonardo gostava de frequentar bares com os poucos amigos que tinha (mas se um conhecido o convidasse ou estivesse lá, ele ficava sem titubear). Por vezes saía de casa esperando conhecer alguma mulher interessante: uma conversa profunda, boa transa, aquela leveza feminina que um homem sozinho sempre está à procura. Diferente do drama burguês, onde sempre o homem que sai de casa decadente para encher a cara conhece a mulher de sua vida, Leonardo, que ainda nutria intimamente essa esperança, já se resignara aparentemente com o real; voltava para casa ainda com o sentimento de incompletude, mas pelo menos bebeu com os amigos e viu pessoas, e é isso o que vale. Todas as suas paixões viravam a esquina ou desciam do vagão do metrô, e nunca mais voltavam, sem que se concretizasse aquela vontade incessante de se apaixonar. Até que uma noite, já eram quatro horas da madrugada, bêbado e angustiado, na mesa de um bar falando sobre um texto de Benjamin, Leonardo conheceu Nina, e aí sua vida mudou. AH NÃO!, diz o leitor, maudit narrateur! A coisa estava indo tão bem (na verdade nem tanto, mas bem no sentido da identificação), até que repentinamente tudo vira trama para um dramalhão mexicano! Todos esses detalhes, para quê? Poderia ter dito apenas: Leonardo é jornalista. Maldito seja o narrador que diz “Leonardo é jornalista”, ele não dá conta de nada, é um simplista, trata as pessoas como número, um estatístico repugnante. Eu também não dei conta da totalidade da personalidade de Leonardo. Os detalhes aqui foram seletivos, aqueles que me interessavam. Sou onipotente para montar a trama, como um demiurgo que cria sua realidade. Permito que digam que negligenciei alguns detalhes sobre Leonardo, não falei da cor de seus cabelos, de seus olhos, se usa óculos, se veste camisa de banda ou de botão. Disso pode acusar-me, leitor exigente, mas não pode me acusar de simplismo! Quem vos fala?! De quem falo?!

NINA

        Nina tinha 23 anos. Vivia com os pais na cobertura de um prédio num bairro de classe média alta na zona oeste de São Paulo. Acabara de se formar na faculdade de cinema de uma universidade pública na capital. Seus avós maternos eram judeus alemães fugidos da guerra, que se estabeleceram primeiro em Buenos Aires; os avós paternos eram russos, vindo um pouco antes. Além de cinema, é claro, e música, Nina gostava muito de viajar e visitar museus; até tentou levar a pintura a sério quando mais nova, mas depois do cinema, a prática de pintura se restringia às férias na fazenda de uma tia no sul da Argentina, onde praticava um estilo próximo a Caspar David Friedrich. Desde muito cedo gostava de literatura: aos quinze anos, adentrou aos clássicos da literatura russa, experiência que trouxe consigo a forte posição da garota contra a hipocrisia burguesa na qual sua família por vezes se inseria (menos os pais, que eram professores universitários). Após terminar o colégio, com notas altas e um ódio incandescente pelas relações de troca, Nina viveu um ano em Berlim, e lá conheceu seu primeiro namorado: Thomas, um arquiteto. Após o fim do relacionamento, Nina voltou ao Brasil e iniciou a faculdade. Fez alguns curtas-metragens para o curso, sem muito sucesso (mas podia ser que fossem considerados obras-primas quando Nina fosse uma cineasta famosa e esses filmes se tornassem raridade). Nina desde muito nova sempre teve trato para com a imagem; queria que seus filmes fossem belos, mesmo que não dissessem nada. Seu cineasta preferido era Tarkovsky, apesar de também gostar muito de Godard, Bergman e Antonioni. Aos dezenove anos, descobriu Maiakovski; aos vinte, Hölderlin; aí começou a fragmentação da realidade de Nina. Algumas de suas projeções para o futuro eram: ser uma cineasta sancionada pela crítica, mas ter de se render ao cinema comercial; uma professora de linguagem cinematográfica que nunca realizara um filme; roteirista; se dedicar integralmente à pintura, vivendo com sua tia no sul da Argentina e buscando o sublime. Num bar, às 4 da manhã, depois de alguns olhares que se encontraram, Nina conheceu Leonardo. Ela foi falar com o rapaz sobre a camisa do Sonic Youth que ele vestia; nem havia escutado a conversa sobre Benjamin. Naquela noite apenas trocaram telefones. No dia seguinte, Leonardo ligou, e saíram.

A TRAMA

        Nina achou Leonardo interessante e talentoso. Leonardo achou que Nina fosse o amor de sua vida, aquela mulher que procurara durante toda a sua existência. A paixão foi muito forte no início. No entanto, a melancolia do casal, que não terminou mesmo com o advento da nova paixão, foi tomando conta da relação. Eles se amavam, nunca brigaram, mas não eram felizes. Encontraram a causa: a imposição de relações de troca no lugar das relações afetivas; o amor, na sociedade burguesa, é um jogo tão calculado e que requer tamanha frieza que anula a si mesmo em sua realização; era egoísmo ser feliz perante tanta impotência; se nem eles dois podiam se amar plenamente, quem nesse mundo poderia!; se a realidade objetiva lhes bloqueava a felicidade, que transcendessem! Como já previsto pela epígrafe, se suicidaram. Não como as almas cristã que se encontram no além-mundo do inferno, mas como um derradeiro ato de dois espíritos corajosos que insistiam na radicalidade da liberdade. Um casal apaixonado impedido de ser feliz, de viver um amor pleno. Impotentes, restava-lhes uma última ação de liberdade irrestrita. Nina foi para a Rússia e deu fim à vida numa propriedade rural onde seus avós paternos nasceram; o sangue que escorria após o golpe de faca nos pulsos tornou a cena lenta, como um quadro onde o marrom-escuro do solo se mistura ao vermelho vivo do sangue de moça jovem, que caiu no chão e ofereceu àquela mistura de cores também o branco profundo de sua pele e o alaranjado de seus cabelos. Assim voltava Nina à terra de seus antepassados, que era mais escura; sem prezo pela tradição e hereditariedade, Nina só deu cabo a si mesma ali, naquele lugar, pela mistura de cor que aquele tom do solo possibilitara; foi seu último deleite. Leonardo, no mesmo dia, pulou da janela de seu apartamento de frente para o Minhocão; assim como Walter Benjamin o fez por coragem para não ceder aos nazistas, Leonardo cometera aquele ato para não se entregar à vida vã no capitalismo tardio. Um salto no indeterminado, é o ato inicial de toda filosofia. Nina morreu artista; Leonardo, aspirante a filósofo. Ambos queriam ser plenamente livres; acreditavam no transcendental, naquilo que é sublime e ultrapassa a mera experiência. Quem vos fala?! De quem falo?! Para quê?! Mesmo se os dois não tivessem se falado naquele dia, naquele bar, se suicidariam mesmo assim, quê importa? O pseudodrama é somente um fio condutor, dois vazios que se encontraram. Pelo quê vale a pena morrer? Por nada. Pelo nada. Se o ato filosófico genuíno é o suicídio... Transcendental não há.