9 de mar de 2014

Elogio de Vênus

Ó flor das calçadas sujas
Das vielas deveras escuras
Aos passantes acenando
Teu cheiro pouco brando
Emana desconhecida feminilidade.
Diferente, híbrida, louca
Original, outra
Completamente outra
Flor dos meus sonhos
(e de todos os que verdadeiramente sonham).
Sem patrão, sem marido
Livre, radicalmente livre
Sua, e por isso também minha
Carne da minha carne
Eu e você, seres iguais
Viventes das passagens
E dos encontros casuais.
Tu vives sem mim, eu vivo sem ti
Vênus encarnada e decadente
Divindade daquilo que passa
Deusa-mãe do efêmero
Tua beleza se encerra em ti mesma.
Nada em ti me ameaça, mas tudo!
Sou livre e teu, teu gênio
Sou igual a ti, e decaio
Pela vã existência que só vale a pena
Pelo encontro que a vida executa

Entre o poeta e a puta.

4 de mar de 2014

A URBE

        Após o distanciamento necessário da cena, aqui vos fala o narrador onisciente; de quem falo? Não seria também o narrador advento humano, em vez de eixo para a concretização do Absoluto no tempo? Limitado em sua experiência, um único olhar sobre a coisa (e nem sempre vertical!) e o narrador desvela aquilo que vê. Tem poder para realiza-lo e para realizar-se como queira. O narrador sempre vai mentir; ele não conhece o fato todo. No entanto, pode ser por má-fé, ou tentar se aproximar da coisa desvelando todos os elementos possíveis. Mas há todo um trato nisto. Não quero que o texto se pareça com aqueles prédios novos com os encanamentos e instalações elétricas internas à mostra por estruturas de vidro. A literatura tem o dom de esconder, contém isto em seu conceito; aliás, o conceito não dá conta daquilo que não se mostra claramente. A imagem apreende coisas das quais o conceito não é capaz. O conceito é claro em sua definição, mesmo que contornante; a imagem é sempre impressionista, borrada, de contorno pouco rígido, e por isso dá vazão às mais profundas construções múltiplas. A literatura é como um quadro de Camille Pissaro: um grande esboço incerto da realidade.
        Feitas tais observações preliminares, restam duas questões; a primeira, já colocada: de quem falo? A segunda, inferida: quem vos fala? Assim começa a narrativa, cercada de abismos.

A URBE

O ato filosófico genuíno é o suicídio; tal é o real começo de toda filosofia, nessa direção vai todo o carecimento do novato filosófico, e somente esse ato corresponde a todas as condições e características da ação transcendental. – Novalis

LEONARDO

        Leonardo tinha 26 anos. Morava sozinho num apartamento muito pequeno no centro de São Paulo. Tinha ascendência italiana e portuguesa. Gostava muito de cinema e de ouvir música enquanto ia de ônibus para o trabalho, que não era tão distante dali. Trabalhava 8 horas por dia e mais grande parte de seu tempo supostamente ocioso para uma agência online de informações; vez ou outra, Leonardo assinava algum artigo por lá; no mais das vezes, suas matérias nem eram assinadas, como se fosse uma constatação neutra de fato consumado. Leonardo sabia muito bem da impossibilidade da neutralidade, assim como sabia do modo como a agência queria que ele escrevesse as matérias e do teor ideológico da empresa. Por isso, quando podia assinar seu artigo, Leonardo se sentia de certo modo livre; a separação entre o jornalista profissional e o teórico opinativo era responsável por parte da angústia do rapaz. Leonardo jornalista? Não apenas. Leonardo era poeta frustrado e bêbado às sextas-feiras; era filósofo quase que diariamente, das 5 da tarde às 8 da noite (disciplina rigorosa na efervescência da metrópole é algo raro!) enquanto aprofundava seus estudos nos belíssimos textos de Walter Benjamin na biblioteca pública; também filosofava, e até mais, nos intervalos constantes das leituras para fumar (no trabalho isso não acontecia, os intervalos eram melancólicos e sempre com algum jornalista profissional falando ao telefone; mas nem por isso Leonardo fumava menos no trabalho). Incorporava também a persona de faxineiro, enquanto se esforçava imensamente para limpar seu pequeno apartamento durante os começos de tardes nos finais de semana. A mãe vivia sozinha numa cidadezinha próxima da região metropolitana; primeiro Leonardo foi morar de favor com uma tia em Guarulhos, de qual se mudou logo após arrumar o segundo emprego (o primeiro foi um estágio precário), indo morar numa república com mais três rapazes; tinha 22 anos nesta época; até então, tinha de ouvir muita música no transporte público. Leonardo estudou jornalismo com bolsa parcial numa faculdade particular e, portanto, precisava trabalhar para ajudar sua mãe a pagar a faculdade; aos finais de semestre, sempre queria abandonar o curso, por descobrir que não gostava tanto daquilo e saber que se fosse reprovado nalguma disciplina perderia a bolsa; sorte que ele sempre passou. Perdera o pai aos 17 anos; foi muito difícil, mas já era rapaz e precisava seguir. Nessa época, ainda sonhava em ser correspondente internacional e trazer a verdade do mundo para cá; no entanto, já era grande admirador da escrita de Machado de Assis e, nas conversas com os colegas na escola, se mostrava meio que como um proto-cético. Leonardo foi detido numa manifestação contra os gastos excessivos do governo federal para um evento esportivo de grande magnitude. Por sorte, foi liberado três horas depois sem ser fichado, o que não trouxe problemas no trabalho. Ele não gostava de policiais. Leonardo era tímido e fechado, apesar de saber que nem tão pouca gente compartilhava de seus pensamentos. Fechava-se em si mesmo e ia fundo, profundíssimo mergulho na busca por um sentido. Leonardo às vezes fazia projeções sobre seu futuro: redator frustrado de um jornal conservador, desses que usam aqueles ternos manchados e expressam uma face de sonhos diluídos com o tempo; professor de jornalismo numa faculdade de esquina (a esta época pensava num projeto para iniciar o mestrado na faculdade de letras); um escritor de renome, bastava-lhe um tema, mas será que ter renome e lançar por grandes editoras não quer dizer entregar-se ao que está dado, pelo menos para quem está começando?;  mudar-se para Paris e ser garçom pelo resto da vida, mas pelo menos seria ele garçom em Paris. Leonardo gostava de frequentar bares com os poucos amigos que tinha (mas se um conhecido o convidasse ou estivesse lá, ele ficava sem titubear). Por vezes saía de casa esperando conhecer alguma mulher interessante: uma conversa profunda, boa transa, aquela leveza feminina que um homem sozinho sempre está à procura. Diferente do drama burguês, onde sempre o homem que sai de casa decadente para encher a cara conhece a mulher de sua vida, Leonardo, que ainda nutria intimamente essa esperança, já se resignara aparentemente com o real; voltava para casa ainda com o sentimento de incompletude, mas pelo menos bebeu com os amigos e viu pessoas, e é isso o que vale. Todas as suas paixões viravam a esquina ou desciam do vagão do metrô, e nunca mais voltavam, sem que se concretizasse aquela vontade incessante de se apaixonar. Até que uma noite, já eram quatro horas da madrugada, bêbado e angustiado, na mesa de um bar falando sobre um texto de Benjamin, Leonardo conheceu Nina, e aí sua vida mudou. AH NÃO!, diz o leitor, maudit narrateur! A coisa estava indo tão bem (na verdade nem tanto, mas bem no sentido da identificação), até que repentinamente tudo vira trama para um dramalhão mexicano! Todos esses detalhes, para quê? Poderia ter dito apenas: Leonardo é jornalista. Maldito seja o narrador que diz “Leonardo é jornalista”, ele não dá conta de nada, é um simplista, trata as pessoas como número, um estatístico repugnante. Eu também não dei conta da totalidade da personalidade de Leonardo. Os detalhes aqui foram seletivos, aqueles que me interessavam. Sou onipotente para montar a trama, como um demiurgo que cria sua realidade. Permito que digam que negligenciei alguns detalhes sobre Leonardo, não falei da cor de seus cabelos, de seus olhos, se usa óculos, se veste camisa de banda ou de botão. Disso pode acusar-me, leitor exigente, mas não pode me acusar de simplismo! Quem vos fala?! De quem falo?!

NINA

        Nina tinha 23 anos. Vivia com os pais na cobertura de um prédio num bairro de classe média alta na zona oeste de São Paulo. Acabara de se formar na faculdade de cinema de uma universidade pública na capital. Seus avós maternos eram judeus alemães fugidos da guerra, que se estabeleceram primeiro em Buenos Aires; os avós paternos eram russos, vindo um pouco antes. Além de cinema, é claro, e música, Nina gostava muito de viajar e visitar museus; até tentou levar a pintura a sério quando mais nova, mas depois do cinema, a prática de pintura se restringia às férias na fazenda de uma tia no sul da Argentina, onde praticava um estilo próximo a Caspar David Friedrich. Desde muito cedo gostava de literatura: aos quinze anos, adentrou aos clássicos da literatura russa, experiência que trouxe consigo a forte posição da garota contra a hipocrisia burguesa na qual sua família por vezes se inseria (menos os pais, que eram professores universitários). Após terminar o colégio, com notas altas e um ódio incandescente pelas relações de troca, Nina viveu um ano em Berlim, e lá conheceu seu primeiro namorado: Thomas, um arquiteto. Após o fim do relacionamento, Nina voltou ao Brasil e iniciou a faculdade. Fez alguns curtas-metragens para o curso, sem muito sucesso (mas podia ser que fossem considerados obras-primas quando Nina fosse uma cineasta famosa e esses filmes se tornassem raridade). Nina desde muito nova sempre teve trato para com a imagem; queria que seus filmes fossem belos, mesmo que não dissessem nada. Seu cineasta preferido era Tarkovsky, apesar de também gostar muito de Godard, Bergman e Antonioni. Aos dezenove anos, descobriu Maiakovski; aos vinte, Hölderlin; aí começou a fragmentação da realidade de Nina. Algumas de suas projeções para o futuro eram: ser uma cineasta sancionada pela crítica, mas ter de se render ao cinema comercial; uma professora de linguagem cinematográfica que nunca realizara um filme; roteirista; se dedicar integralmente à pintura, vivendo com sua tia no sul da Argentina e buscando o sublime. Num bar, às 4 da manhã, depois de alguns olhares que se encontraram, Nina conheceu Leonardo. Ela foi falar com o rapaz sobre a camisa do Sonic Youth que ele vestia; nem havia escutado a conversa sobre Benjamin. Naquela noite apenas trocaram telefones. No dia seguinte, Leonardo ligou, e saíram.

A TRAMA

        Nina achou Leonardo interessante e talentoso. Leonardo achou que Nina fosse o amor de sua vida, aquela mulher que procurara durante toda a sua existência. A paixão foi muito forte no início. No entanto, a melancolia do casal, que não terminou mesmo com o advento da nova paixão, foi tomando conta da relação. Eles se amavam, nunca brigaram, mas não eram felizes. Encontraram a causa: a imposição de relações de troca no lugar das relações afetivas; o amor, na sociedade burguesa, é um jogo tão calculado e que requer tamanha frieza que anula a si mesmo em sua realização; era egoísmo ser feliz perante tanta impotência; se nem eles dois podiam se amar plenamente, quem nesse mundo poderia!; se a realidade objetiva lhes bloqueava a felicidade, que transcendessem! Como já previsto pela epígrafe, se suicidaram. Não como as almas cristã que se encontram no além-mundo do inferno, mas como um derradeiro ato de dois espíritos corajosos que insistiam na radicalidade da liberdade. Um casal apaixonado impedido de ser feliz, de viver um amor pleno. Impotentes, restava-lhes uma última ação de liberdade irrestrita. Nina foi para a Rússia e deu fim à vida numa propriedade rural onde seus avós paternos nasceram; o sangue que escorria após o golpe de faca nos pulsos tornou a cena lenta, como um quadro onde o marrom-escuro do solo se mistura ao vermelho vivo do sangue de moça jovem, que caiu no chão e ofereceu àquela mistura de cores também o branco profundo de sua pele e o alaranjado de seus cabelos. Assim voltava Nina à terra de seus antepassados, que era mais escura; sem prezo pela tradição e hereditariedade, Nina só deu cabo a si mesma ali, naquele lugar, pela mistura de cor que aquele tom do solo possibilitara; foi seu último deleite. Leonardo, no mesmo dia, pulou da janela de seu apartamento de frente para o Minhocão; assim como Walter Benjamin o fez por coragem para não ceder aos nazistas, Leonardo cometera aquele ato para não se entregar à vida vã no capitalismo tardio. Um salto no indeterminado, é o ato inicial de toda filosofia. Nina morreu artista; Leonardo, aspirante a filósofo. Ambos queriam ser plenamente livres; acreditavam no transcendental, naquilo que é sublime e ultrapassa a mera experiência. Quem vos fala?! De quem falo?! Para quê?! Mesmo se os dois não tivessem se falado naquele dia, naquele bar, se suicidariam mesmo assim, quê importa? O pseudodrama é somente um fio condutor, dois vazios que se encontraram. Pelo quê vale a pena morrer? Por nada. Pelo nada. Se o ato filosófico genuíno é o suicídio... Transcendental não há.