8 de jul de 2014

Considerações acerca de "A virgem com o véu azul", de Ingres

            Em minhas visitas periódicas ao MASP, um quadro em especial sempre me chamou muito a atenção. A virgem com o véu azul, de Ingres, é um retrato do sublime. Há algo nele que não se encerra nele mesmo. Me toca muitíssimo a transposição entre os dois véus, do branco semitransparente com detalhezinhos dourados para o azul, um azul divino, pleno, também com detalhes dourados. Que maravilhoso aquele tom de azul! Nesta transposição, realizada no lado direito do pescoço, mantém-se o delineamento da pele, primeiro entre o véu branco, depois, já bem mais tímido, entre o azul, até, paulatinamente, misturar-se finalmente ao azul total do manto. É como um processo de espiritualização, de crescente indeterminação do outrora determinado, de dissolução do eu perante o pleno, o uno, no azul divino. Os olhos fechados e as mãos em oração apontam sutileza; os lábios têm um quê de maternais.
            A virgem é uma divindade; Ingres obteve o traço perfeito e o tom de cor ideal em todo o percurso da transposição. Além disso, a veste vermelha me parece remeter ao tom de vermelho largamente utilizado pelos pintores flamengos do século XVI. O rosto arredondado da virgem é claramente influenciado por Rafael. A moldura do quadro, destacando a pintura num oval, além de adequar-se perfeitamente ao rosto arredondado da virgem, representa o ciclo, a infinitude, o inapreensível; foi a forma geométrica mais adequada para tal feito. Ingres queria transcender pela forma; no gênero retrato, o tema de conteúdo religioso talvez fosse o único a oferecer essa possibilidade.
            O fundo negro, além de dar destaque à imagem, ainda pode representar a figura da virgem como uma aparição, capaz de ser em meio ao nada; idêntico ao fundo do Marat assassiné de seu mestre David, o fundo assim disposto quiçá é o grande segredo da capacidade de divinização do personagem na narrativa pictórica: tanto Marat quanto a Virgem apresentam o caráter de santidade. Todavia, no Marat, há um fato histórico, a narrativa pictórica é mais bem construída; na Virgem, entretanto, percebemos uma imobilidade na trama, algo de supra-histórico.
            Kant, em sua Crítica da Razão Pura, feriu mortalmente a metafísica. Ingres realizou a representação pictórica da já muito enferma ciência do ser enquanto ser. Ingres imortalizou a metafísica.

- Alberto Sartorelli



Jean-Auguste Dominique Ingres, A virgem com o véu azul. 1827. Óleo sobre tela. 77 cm x 65 cm. Museu de Arte de São Paulo (MASP)