17 de mar de 2015

Soneto em sétima


em memória do poeta Novalis e de um funcionário público

Por ti erro, desconhecido,
onde quer que eu tenha ido
a vertigem do arrebol
garoa amortece o farol.

E eu me engano, saber fera,
pois dobro a esquina e a era
onde vou mas que não o há
solenidade será.

Devo ir-me, para o inefável
por Ísis, saio de Saís
em empresa duvidosa.

Aparente indecifrável
mui longe do meu país.
Minha Paris é chuvosa.

- Sartorelli

7 de mar de 2015

A uma passante - Charles Baudelaire [tradução]

A UMA PASSANTE

A rua ensurdecedora ao meu redor gritava.
Esbelta, enlutada, a dor majestosa,
Uma mulher passou, tinha uma mão faustosa
Levantando e balançando a costura e a barra;

Ágil e nobre, com sua perna de bela estátua.
Eu bebia, como um extravagante contorcido,
No seu olho, onde furacão surge em céu lívido,
A doçura que fascina e o prazer que mata.

Um clarão... depois a noite! - Fugaz beldade
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Não te verei jamais senão na eternidade?

Fora, longe, tarde, jamais provavelmente!
Não sei pr'onde foges, não sabes pr'onde irei,
ó tu que eu teria amado, e o sabias, eu sei!

[tradução: Alberto Sartorelli]



À UNE PASSANTE

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! — Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!

Charles Baudelaire

2 de mar de 2015

Tradução: Poema 15 - Neruda

POEMA 15

Gosto quando calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, e minha voz não te toca.
Parece que teus olhos distantes voavam
e parece que um beijo te selara a boca.

Todas as coisas estão plenas de minh’alma
muito cheia de mim, das coisas emergia.
Borboleta de sonho, pareces minh’alma,
e assemelhas-te à palavra melancolia.

Gosto quando calas e estás como distante.
E estás gemendo, mariposa em acalento.
E me ouves de longe, e minha voz não te alcança:
deixe que eu me cale através do teu silêncio.

Deixe-me falar também co’o silêncio teu
claro como lâmpada, simples como um anel.
Tu és como a noite, tão calada e estrelada.
Teu silêncio é de estrela, remoto e fiel.

Gosto quando calas porque estás como ausente.
Distante como se tu tivesses morrido.
Uma palavra então, e um sorriso me bastam.
E estou alegre, alegre pelo indefinido.

[tradução: Alberto Sartorelli]


Poema 15

Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma, 
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

- Pablo Neruda