10 de mai de 2015

Marie D'Anjou era atriz e queria ser alegre. Sempre sorria leve, aberta ao advento da felicidade.
Rodrigo Neves era um fotógrafo taciturno.
Quando se conheceram por um acaso na Praça Roosevelt, Marie D'Anjou (o nome artístico), olhou-o profundamente e confessou que não podia ser feliz sozinha.
- Não posso lhe oferecer nada além de uma existência amarga – respondeu o rapaz, e depois acendeu um cigarro.

9 de mai de 2015

Tradução: Três poemas de Jacques PRÉVERT

Três poemas de Jacques Prevért (1900-1977)



IMENSO E VERMELHO

Imenso e vermelho
Acima do Grand Palais
O sol do inverno aparece
E desaparece
Como ele meu coração vai desaparecer
E todo meu sangue se vai
Vai à tua procura
Meu amor
Minha beleza
E te encontrar
Lá onde tu estás.



PARIS AT NIGHT

Três fósforos um a um acesos na noite
O primeiro para ver teu rosto inteiro
O segundo para ver teus olhos
O último para ver tua boca
e a escuridão inteira para me lembrar tudo isso
apertando-te entre meus braços.



NA PRESENÇA DA FLORISTA

Um homem vai até a florista
e escolhe algumas flores
a florista embrulha as flores
o homem leva a mão ao bolso
para procurar o dinheiro
o dinheiro para pagar as flores
mas ele leva ao mesmo tempo
subitamente
a mão sobre seu coração
e ele cai

Ao mesmo tempo que ele cai
o dinheiro rola sobre a terra
e depois as flores caem
ao mesmo tempo que o homem
ao mesmo tempo que o dinheiro
e a florista fica lá
com o dinheiro que rola
com as flores que murcham
com o homem que morre
evidentemente tudo isso é demasiado triste
e é preciso que ela faça alguma coisa
a florista
mas ela não sabe como fazê-lo
ela não sabe
por onde começar

Há tantas coisas a fazer
com este homem que morre
com as flores que murcham
e este dinheiro
este dinheiro que rola
que não deixa de rolar.

[trad: Alberto Sartorelli]




Immense et rouge

Immense et rouge
Au-dessus du Grand Palais
Le soleil d'hiver apparaît
Et disparaît
Comme lui mon coeur va disparaître
Et tout mon sang va s'en aller
S'en aller à ta recherche
Mon amour
Ma beauté
Et te trouver
Là où tu es.


Paris at Night

Trois allumettes, une à une allumées dans la nuit
La première pour voir ton visage tout entier
La seconde pour voir tes yeux
La dernière pour voir ta bouche
et l'obscurité toute entière pour me rappeler tout cela
en te serrant dans mes bras.


Chez la fleuriste

Un homme entre chez une fleuriste
et choisit des fleurs
la fleuriste enveloppe les fleurs
l'homme met la main à sa poche
pour chercher l'argent
l'argent pour payer les fleurs
mais il met en même temps
subitement
la main sur son cœur
et il tombe

En même temps qu'il tombe
l'argent roule à terre
et puis les fleurs tombent
en même temps que l'homme
en même temps que l'argent
et la fleuriste reste là
avec l'argent qui roule
avec les fleurs qui s'abîment
avec l'homme qui meurt
évidemment tout ça est très triste
et il faut qu'elle fasse quelque chose
la fleuriste
mais elle ne sait pas comment s'y prendre
elle ne sait pas
par quel bout commencer

Il y a tant de choses à faire
avec cet homme qui meurt
ces fleurs qui s'abîment
et cet argent
cet argent qui roule

[in: PRÉVERT, Jacques, Paroles, 1946.]