24 de dez de 2015

[tradução] A MORTE DOS POBRES

A MORTE DOS POBRES

É a Morte que consola, e que tanto dá vida;
É o desígnio, e a só esperança do viver
Que, como um elixir, se eleva e nos inebria,
Nos dá o coração para a noite percorrer;

Através da tormenta, da neve e da geada,
É, ao nosso negro horizonte, o brilho vibrante;
Inscrita no livro, é a célebre pousada,
Para sentar, dormir, e comer celebrante;

É um Anjo que detém em seus dedos magnéticos
O sono e o dom dos sonhos extasiados, puros,
E que refaz o leito dos sujeitos pobres e nus;

É a glória dos Deuses, e é o sótão dos místicos,
É a pátria antiga, e é a bolsa dos pobres duros,
É o pórtico aberto perante os incógnitos Céus!

- BAUDELAIRE



[figura: TIEPOLO, Two Female Figures (Flying Angels?), séc. XVIII]


LA MORT DES PAUVRES

C'est la Mort qui console, hélas ! et qui fait vivre ;
C'est le but de la vie, et c'est le seul espoir
Qui, comme un élixir, nous monte et nous enivre,
Et nous donne le coeur de marcher jusqu'au soir ;

A travers la tempête, et la neige, et le givre,
C'est la clarté vibrante à notre horizon noir ;
C'est l'auberge fameuse inscrite sur le livre,
Où l'on pourra manger, et dormir, et s'asseoir ;

C'est un Ange qui tient dans ses doigts magnétiques
Le sommeil et le don des rêves extatiques,
Et qui refait le lit des gens pauvres et nus ;

C'est la gloire des Dieux, c'est le grenier mystique,
C'est la bourse du pauvre et sa patrie antique,
C'est le portique ouvert sur les Cieux inconnus !

8 de dez de 2015

MISSA

MISSA

(para Elomar Figueira Mello)

Maria dos Anjos, trabalhadeira
E prisioneira de um amor fugaz
Por João, que era boiadeiro
E que enfrentava Satanás

Maria dos Anjos avistou o moço
Na capela de Santo Antão
Na missa de domingo cedo
No dia de São João

Maria dos Anjos se apaixonou
Pelos olhos castanhos de João
Bela voz e viola afinada
Naquele coral cristão

Maria dos Anjos então viu João
Caminhando em volta do pomar
Os jovens trocaram olhares
Com aquele desejo de amar

Maria dos Anjos, trabalhadeira
Tinha uma beleza jovial
E João, que era boiadeiro
Tinha a voz mais bonita do coral

Maria dos Anjos lavrava a terra
E lá plantou uma goiabeira
Pra escrever que amava João
E o amor crescer pela vida inteira

Passa fome, passa frio
Isso aí Maria não passava não
Semeava a terra desde manhã
E à noite amava o seu João

Até que Maria adoeceu
De levantar cedo demais
Vento e orvalho deixaram Maria
Toda abatida e incapaz

Maria então agonizava
E pedia pra Nossa Senhora
Pra ela ficar nesse mundo aqui
Pra não levar ela embora

João, que era boiadeiro
Foi então pedir Maria em casamento
Disse pra ela que se ela morria
Ficava viúvo em juramento

João das Dores, homem sofrido
Perdeu a mãe, o pai e a irmã
E se Deus levasse Maria
Ficaria só, e a vida vã

Maria dos Anjos, moça bonita
Tinha a beleza de uma alva flor
E se lembrou da gota de orvalho
E deixou cair sua imensa dor

Mas Maria dos Anjos, flor da roça
Não queria ver triste o seu João
Então se era pra ir, ela que ia
Pra fazer parte daquele chão

Seu amado pedia pros anjos
Pra moça descansar em paz
E angélica, morreu Maria
Por entre os braços do teu rapaz.


- Alberto Sartorelli