20 de jun de 2017

ECOS


gás lacrimogênio
a polícia matou meu pai
meu filho
amor, por quê está me batendo?
a SS acobertava os gritos
judios
lancinantes
com música!
um preto um pobre um estudante
chez douleur
no welfare estado
en el subdesarollo
tanto faz samba
triste
vai ruindo os sonhos tão mesquinhos
e segundo a dor
no mundo, havia armênios
Hiroshima, Nevers,
Auschwitz, São Paulo
ninguém está nem aí
viado/travesti/sapatão
bicuda de coturno
o pai patrão
trabalho de merda
vou me drogar
a autoridade professoril
a autoridade
estou sem grana, cara
sem cara
sem ser
humano?
foda-se o drama

o burguês.

10 de mai de 2017

Desprezo profundamente esses filósofos frívolos,
frígidos, de sangue morno
isolados em seus quartos gélidos
separados do vapor que nos anima
sem calor, sem teor
e que fumam cigarros em suas sacadas cinzas
nada a pensar sobre o que há lá embaixo
nenhum interesse por aquilo que há de mais humano
talvez
mais humano do que eles próprios.

Desprezo esses filósofos separados
que da torre de marfim bradam a revolução
dentro da ordem das razões
e da demonstração lógica
inafetáveis.

Nossa teoria custou sangue
mutilou a carne
arregalou os olhos e frangiu os dentes.

Nossa teoria é vívida
concreta como os muros cinzas
e a miséria dos cães, dos ratos e dos outros habitantes dos viadutos
estes sim humanos, na mais alta humanidade
donde o frio da noite é vencido pelo calor da vida
muitíssimo diferentes dos filósofos
que em suas almofadinhas e cobertores caros
esquentam o corpo e congelam a vida.

Desprezo os filósofos que se vangloriam de suas teorias geniais
para eles mesmos, ou para seus pares
igualmente resfriados.

Nossa teoria é baixa
como a mais alta humanidade
e não se compadece, pois compartilha
e não se separa, pois está junto

a nossa teoria.

17 de abr de 2017

FLÂNERIE

Andei, andei, andei por São Paulo a cidade cinza, a maior metrópole do hemisfério sul, nosso polo cultural, nossa barbárie diária, nosso medo e nosso horizonte. Erradiando um sem fim de raios-luzes, criando desejos, retalhando desejos, em busca de desejos fui eu, querendo ser o jovem Charles Baudelaire, e não sabia como dói. Procurei a velha boemia, o antro de verve, o grupo culto e revolucionário de que falava Bento Prado Júnior, quando São Paulo era só uma cidade. Procurei nas passagens, procurei nos bares, nas galerias, nas bibliotecas, nas universidades, nos cafés, nas praças. Caminhei na metrópole em busca do espanto, do espontâneo, do acaso. A razão da cidade fez com que não mais me espantasse. Os bares fecharam, os absurdos eram comuns, o acaso era caso. Caminhei eu e Marco Cremasco, meu cicerone do desconhecido. Caminhei com Thiago Zanotti, o espírito antigo e magnânimo entre nós. Caminhei junto de Diego Scalada, o último lírico underground e sem ambição que essa cidade maldita hospedou, e não encontramos nada. Mais do que os peripatéticos, caminhamos em reflexão, calçadas sem fim, Avenida São João, Higienópolis, Cambuci, a Praça da República do delírio de Roberto Piva, e nada. Ressignificamos os lugares, com maconha e cachaça, e nada. A metrópole tudo sedimenta, e não é mais a mesma, e é. E minhas caminhadas já foram caminhadas por milhões de pessoas que apagaram os meus passos. Conheci todos os meus amigos por acaso. Não há fio condutor que leve as grandes almas para os mesmos lugares. São Paulo é um fragmento póstumo. Talvez este.


Emile Deroy, "Retrato de Charles Baudelaire", 1844.

27 de jan de 2017

SE OS BOIS FALASSEM


     Houve um tempo, muito muito antes do nascimento menino Jesus, da chegada dos reis magos desde o Oriente e do doutor da lei Gamaliel, em que os bois viviam livres nas planícies e montanhas de Madras. Lá, encontraram homens que não os matavam, sabe-se lá o motivo, pois o homem mata tudo, inclusive ele mesmo. Nessa convivência, os bois permitiam-se levar os homens para onde não tinham força de ir indo, por só pura e natural benevolência, possível apenas na liberdade. Também cediam seu leite produzido em demasia, excedente de sua prole, para matar a fome dos filhos dos homens.

     Depois de muito muito tempo vivendo assim, livres, chegou um navio enorme e alguns bois foram encarcerados numa cela de madeira em meio ao mar infinito, por meses, anos, e desse acontecimento muitas das histórias dos bois ainda versam. Ao chegar à terra firme, terra deles, os bois vislumbraram as matas infinitas do Brasil, este sim mar abundante donde podiam se locomover a seu bel-prazer. Triste vislumbre. Desta vez encarcerados entre cercas e cancelas, os bois viveram tristes por séculos, engordados pelo pasto e pelo sal, abatidos sem qualquer justificativa. Malditos os descendentes de Kardavi, condenados à escravidão eterna! Sua única vingança foi a hostilidade aos homens, que não podiam mais montá-los; seu corpo parou de produzir o leite que alimentava os filhos dos homens, e a profissão do vaqueiro tornou-se algo perigoso.

     Aconteceu que certo dia um vaqueiro de nome João das Dores, de olhar atento, abriu os olhos para a bovina miséria. João das Dores via a riqueza do patrão, a sua pobreza, dos bois, via tudo. E nos confins do latifúndio, longe do patrão, João aprendeu a língua dos bois, e falou com eles. E ele ia todos os dias aos confins do latifúndio boiar e falar com os bois. A temida raça da vaca branca, pesadelo dos vaqueiros, era agora amiga de João, porque João contou ao gado branco quem era o responsável pelo seu cárcere - e não era o vaqueiro. Então tramaram um plano. E o gado branco mugia forte, para que se ouvisse nos outros pastos, e se mugia mais, e a mensagem foi disseminada. No dia combinado, João montou no maior touro da fazenda, e os gados estouraram as cercas, entraram na casa grande, destruíram tudo quanto podiam e mataram o fazendeiro pisoteado. Então os homens dividiram a terra, e os bois viveram livres novamente.




foto: Araquém Alcântara