27 de jan de 2017

SE OS BOIS FALASSEM


     Houve um tempo, muito muito antes do nascimento menino Jesus, da chegada dos reis magos desde o Oriente e do doutor da lei Gamaliel, em que os bois viviam livres nas planícies e montanhas de Madras. Lá, encontraram homens que não os matavam, sabe-se lá o motivo, pois o homem mata tudo, inclusive ele mesmo. Nessa convivência, os bois permitiam-se levar os homens para onde não tinham força de ir indo, por só pura e natural benevolência, possível apenas na liberdade. Também cediam seu leite produzido em demasia, excedente de sua prole, para matar a fome dos filhos dos homens.

     Depois de muito muito tempo vivendo assim, livres, chegou um navio enorme e alguns bois foram encarcerados numa cela de madeira em meio ao mar infinito, por meses, anos, e desse acontecimento muitas das histórias dos bois ainda versam. Ao chegar à terra firme, terra deles, os bois vislumbraram as matas infinitas do Brasil, este sim mar abundante donde podiam se locomover a seu bel-prazer. Triste vislumbre. Desta vez encarcerados entre cercas e cancelas, os bois viveram tristes por séculos, engordados pelo pasto e pelo sal, abatidos sem qualquer justificativa. Malditos os descendentes de Kardavi, condenados à escravidão eterna! Sua única vingança foi a hostilidade aos homens, que não podiam mais montá-los; seu corpo parou de produzir o leite que alimentava os filhos dos homens, e a profissão do vaqueiro tornou-se algo perigoso.

     Aconteceu que certo dia um vaqueiro de nome João das Dores, de olhar atento, abriu os olhos para a bovina miséria. João das Dores via a riqueza do patrão, a sua pobreza, dos bois, via tudo. E nos confins do latifúndio, longe do patrão, João aprendeu a língua dos bois, e falou com eles. E ele ia todos os dias aos confins do latifúndio boiar e falar com os bois. A temida raça da vaca branca, pesadelo dos vaqueiros, era agora amiga de João, porque João contou ao gado branco quem era o responsável pelo seu cárcere - e não era o vaqueiro. Então tramaram um plano. E o gado branco mugia forte, para que se ouvisse nos outros pastos, e se mugia mais, e a mensagem foi disseminada. No dia combinado, João montou no maior touro da fazenda, e os gados estouraram as cercas, entraram na casa grande, destruíram tudo quanto podiam e mataram o fazendeiro pisoteado. Então os homens dividiram a terra, e os bois viveram livres novamente.




foto: Araquém Alcântara