17 de abr de 2017

FLÂNERIE

Andei, andei, andei por São Paulo a cidade cinza, a maior metrópole do hemisfério sul, nosso polo cultural, nossa barbárie diária, nosso medo e nosso horizonte. Erradiando um sem fim de raios-luzes, criando desejos, retalhando desejos, em busca de desejos fui eu, querendo ser o jovem Charles Baudelaire, e não sabia como dói. Procurei a velha boemia, o antro de verve, o grupo culto e revolucionário de que falava Bento Prado Júnior, quando São Paulo era só uma cidade. Procurei nas passagens, procurei nos bares, nas galerias, nas bibliotecas, nas universidades, nos cafés, nas praças. Caminhei na metrópole em busca do espanto, do espontâneo, do acaso. A razão da cidade fez com que não mais me espantasse. Os bares fecharam, os absurdos eram comuns, o acaso era caso. Caminhei eu e Marco Cremasco, meu cicerone do desconhecido. Caminhei com Thiago Zanotti, o espírito antigo e magnânimo entre nós. Caminhei junto de Diego Scalada, o último lírico underground e sem ambição que essa cidade maldita hospedou, e não encontramos nada. Mais do que os peripatéticos, caminhamos em reflexão, calçadas sem fim, Avenida São João, Higienópolis, Cambuci, a Praça da República do delírio de Roberto Piva, e nada. Ressignificamos os lugares, com maconha e cachaça, e nada. A metrópole tudo sedimenta, e não é mais a mesma, e é. E minhas caminhadas já foram caminhadas por milhões de pessoas que apagaram os meus passos. Conheci todos os meus amigos por acaso. Não há fio condutor que leve as grandes almas para os mesmos lugares. São Paulo é um fragmento póstumo. Talvez este.


Emile Deroy, "Retrato de Charles Baudelaire", 1844.